FIFA seleciona jogadoras afegãs refugiadas para Seleção
Grupo de 23 atletas exiladas do Afeganistão foi escolhido para disputar torneio amistoso em Dubai, mas ainda busca reconhecimento como seleção nacional

Cinco jovens mulheres olham ansiosamente para um laptop. Esta é a chamada que elas esperavam há muito tempo. Uma onda de emoções toma conta delas ao descobrirem que foram selecionadas pela FIFA para a equipe de refugiadas afegãs.
As jogadoras de futebol afegãs exiladas têm lutado pelo direito de representar seu país desde que fugiram do Afeganistão, quando o Talibã retomou o poder há quatro anos.
O CNN Esportes passou dois dias em setembro com várias atletas baseadas no norte da Inglaterra. Elas fazem parte das dezenas que foram evacuadas para países como Austrália, Estados Unidos e Portugal.
"Obviamente, é um momento incrível para todas nós, mal posso esperar para compartilhar isso com minha família", disse a goleira Elaha Safdari.
"Tenho certeza que meus pais vão se orgulhar de mim e provavelmente vão me ver na TV", acrescenta a jovem de 21 anos antes de cair em lágrimas. Seus pais foram forçados a permanecer no Afeganistão por motivos de saúde, deixando Safdari e seu irmão recomeçarem sozinhos como refugiados na Inglaterra.
O elenco de 23 jogadoras – anunciado publicamente na quarta-feira (1) pela FIFA – participará de uma série de partidas em um torneio amistoso em Dubai este mês, supervisionado pela entidade máxima do futebol mundial e precedido por um período de treinamentos. Elas enfrentarão Chade, Líbia e Emirados Árabes Unidos.

O presidente da FIFA, Gianni Infantino, celebrou a criação da equipe feminina como um momento "histórico". No entanto, a iniciativa não chega a ser reconhecida como a seleção nacional do país, que sempre foi o objetivo final das jogadoras.
Seleção do Afeganistão
Os regulamentos da FIFA exigem o reconhecimento da Federação Afegã de Futebol (AFF), que baniu completamente os esportes femininos. Os próprios estatutos de igualdade de gênero da FIFA afirmam que a discriminação de gênero "é estritamente proibida e punível com suspensão ou expulsão", mas a entidade ainda reconhece a AFF.
"Sou muito grata por isso acontecer depois de quatro anos – a FIFA nos dar a oportunidade e basicamente abrir as portas e nos receber", diz a defensora Narges Mayeli.
"Mas eu pessoalmente preferiria o título de seleção nacional feminina do Afeganistão, e sinto que muitas das minhas companheiras de equipe concordam comigo neste momento."
Mayeli diz que permanece determinada apesar de não ter sido convocada para o elenco
"Vamos continuar pressionando, de qualquer forma", ela acrescenta com um sorriso.
Time de Refugiadas
Questionada, a FIFA declarou ao CNN Esportes em comunicado que "a organização do time de refugiadas afegãs representa um passo significativo e histórico para dar às jogadoras afegãs a plataforma internacional e o reconhecimento que elas almejam."
"Apesar dos desafios e circunstâncias complexas e excepcionais, acreditamos que estamos no caminho certo e orgulhosos do que foi alcançado até agora, mesmo nos estágios iniciais desta estratégia histórica", acrescentou o comunicado.
Também afirmou que a FIFA tem trabalhado para melhorar a situação do futebol feminino afegão no país e para as jogadoras exiladas desde sua evacuação do Afeganistão em 2021.
"O futebol salvou minha vida"
Mayeli tinha 18 anos quando o Talibã assumiu o poder.
"Eu estava realmente assustada... Tinha todos os meus uniformes e todas as minhas medalhas", ela conta. "Pedi ao meu pai para enterrá-los."

Sentado à sua frente na sala de estar em Doncaster, Inglaterra, Abdul Raziq disse que esconder o uniforme do time juvenil de sua filha foi doloroso, considerando o quanto ela havia se esforçado para conquistá-lo enquanto jogava em Herat. Relembrar essa memória deixa os dois visivelmente emocionados.
Após alguns meses caóticos e um esforço internacional de resgate, a família Mayeli, junto com várias outras jogadoras e alguns de seus parentes, conseguiu chegar a Doncaster. Muitos deles não falavam inglês na época e acabaram morando em um hotel por dois anos enquanto seus pedidos de asilo eram processados.
"O futebol salvou minha vida e, obviamente, a vida da minha família, e a vida de tantas outras meninas e tantas outras pessoas", diz Mayeli. Ela acabou de começar um curso universitário em gestão esportiva.


