Temporada do Arsenal reacende debate sobre excesso de jogos no futebol

Sindicato de jogadores alerta para aumento de lesões e desgaste físico às vésperas da Copa do Mundo

Rohith Nair, da Reuters
Compartilhar matéria

A campanha vitoriosa do Arsenal se tornou um símbolo inesperado da crescente crise de calendário no futebol. O sindicato global dos jogadores, a FIFPRO, alertou que o excesso de partidas e a longa sequência de competições estão aumentando o risco de lesões em uma temporada marcada pela proximidade da Copa do Mundo.

O sucesso do clube inglês vem acompanhado de números preocupantes. Cinco jogadores do elenco — David Raya, Martin Zubimendi, Declan Rice, Viktor Gyokeres e Eberechi Eze — devem participar entre 78 e 83 jogos nesta temporada, somando compromissos por clube e seleção.

O meio-campista Martin Zubimendi foi quem enfrentou a carga mais pesada. Ele atuou nas 38 partidas da Premier League na campanha do título do Arsenal e soma 67 jogos na temporada entre clube e seleção espanhola — mais do que qualquer outro atleta.

Declan Rice disputou 65 partidas e Gyokeres, 63. O trio ainda pode aumentar esses números com a final da Uefa Champions League e a Copa do Mundo pela frente. Além disso, o Arsenal chegou à final da Copa da Liga Inglesa e às quartas de final da Copa da Inglaterra.

“Há evidências claras de que a carga de trabalho é um problema real. Temos anos de dados comprovando isso”, afirmou Darren Burgess, consultor de alto rendimento da FIFPRO e diretor de performance da Juventus.

“Sabemos que muitas lesões hoje estão relacionadas ao excesso de jogos. A carga aumenta ano após ano, mesmo com evidências de que isso é prejudicial.”

Não é apenas sobre minutos em campo

Segundo Burgess, o problema vai além do tempo jogado. As viagens constantes também aumentam o desgaste, especialmente em jogos europeus no meio da semana.

“Jogadores que atuam no meio da semana chegam em casa às 3h ou 4h da manhã. Jogam na quarta à noite e precisam render novamente no sábado ao meio-dia, muitas vezes viajando”, explicou.

“Os dados mostram que o desempenho físico cai quando eles disputam partidas em sequência. Não é achismo, é prova objetiva. O impacto é enorme.”

A próxima Copa do Mundo, que será disputada nos Estados Unidos, México e Canadá, começará apenas 11 dias após a final da Champions League contra o Paris Saint-Germain, aumentando ainda mais a preocupação.

Para Gregory Dupont, ex-preparador físico do Real Madrid e da seleção francesa campeã mundial em 2018, o curto intervalo pode prejudicar o desempenho dos atletas.

“Os jogadores que disputarem a final da Champions não terão tempo suficiente para uma preparação completa, adaptação ao calor e recuperação física ideal”, disse.

“Precisamos de regulamentações se quisermos proteger não apenas os jogadores, mas o futebol.”

Dupont também destacou que 56% das partidas da Copa serão disputadas em temperaturas acima de 28°C, o que pode reduzir o rendimento físico dos atletas. As mudanças de fuso horário entre os três países-sede também representam um desafio adicional.

“Sobrevivência dos mais aptos”

Maheta Molango, CEO da Associação de Jogadores Profissionais da Inglaterra, afirmou que há temor de que a Copa do Mundo se transforme em uma “sobrevivência dos mais aptos”.

“Nenhum jogador está pedindo pena. Eles sabem que são privilegiados e não vivem em uma bolha”, afirmou.

“Mas, por mais que queiram jogar todas as partidas, eles não são robôs.”

Molango citou o capitão do Arsenal, Martin Odegaard, como exemplo do impacto físico da temporada. O norueguês perdeu vários jogos por lesão justamente antes da primeira participação da Noruega em uma Copa do Mundo em 28 anos.

Nas últimas três temporadas, Odegaard teve média de 46 jogos pelo Arsenal, mas atuou apenas 35 vezes nesta temporada.

“Ele é um profissional exemplar, cuida muito bem do corpo. É difícil imaginar alguém mais disciplinado”, disse Molango.

“Mas veja quantos jogos perdeu neste ano em comparação aos anteriores. É justo que, em vez de focar no futebol, ele precise focar apenas em tentar manter o corpo saudável? Isso não deveria acontecer.”

Acompanhe Esportes nas Redes Sociais