Jogos finais da Eurocopa em Londres podem ser 'receita para desastre'
Estádio de Wembley receberá 60 mil torcedores em meio a aumento de casos de Covid-19 no Reino Unido

Quando Harry Kane marcou o segundo gol da Inglaterra na vitória histórica contra a Alemanha no estádio Wembley, o primeiro-ministro britânico Boris Johnson jogou os braços para cima em comemoração.
"Harry Kane finalmente marcou", exclamou, se referindo ao primeiro gol do capitão do time na Euro 2020.
O Wembley também vai receber as semifinais, em 6 e 7 de julho, e as finais, em 11 de julho, do campeonato pan-europeu.
Após a vitória da Inglaterra contra a Ucrânia no sábado (3), o papo entre os torcedores ingleses era se o futebol inglês estaria "vindo para casa" ("coming home", em inglês), como diz o refrão da música "Three Lions", hino extraoficial dos torcedores. A Inglaterra jogará contra a Dinamarca na semifinal desta quarta (7), enquanto a Itália enfrentará a Espanha na terça (6).
A Inglaterra não vence uma grande competição internacional desde 1966, mas a seleção nacional ainda chama muita atenção e mais de 26 milhões de pessoas assistiram à cobertura da BBC da partida contra Ucrânia na TV e na internet.
Mais de 60 mil torcedores poderão comparecer às semis e à final, conforme as diretrizes do governo britânico para permitir multidões em eventos sem distanciamento social.
Os espectadores terão de seguir regras rígidas para assistir aos jogos, incluindo apresentar um teste negativo para Covid-19 ou prova de ter sido completamente vacinado.
Apesar dessas exigências, abrigar três das maiores partidas de futebol deste ano está sob intenso escrutínio, tanto em casa quanto no exterior, dado que o Reino Unido reportou o maior número de novos casos de Covid-19 desde o fim de janeiro, com 27.989, na última quinta-feira, de acordo com dados do sistema de saúde público inglês.
"O número de casos registrados em uma semana na Inglaterra subiu 74% nos últimos sete dias, e o número de pessoas internadas em hospitais com Covid-19 subiu 55% ao longo da semana passada", diz um comunicado da Associação Médica Britânica divulgado no último sábado (3).
Entretanto, o número de mortes continua baixo, o que o governo britânico atribui à eficácia das vacinas em prevenir casos graves e internações. Houve 18 mortes no Reino Unido no sábado, comparado às 1.245 registradas no fim de janeiro deste ano.
Ao mesmo tempo, casos de Covid-19 na Europa, Ásia Central e Oriente Médio subiram 10% na semana passada, disse o diretor regional da Europa da OMS (Organização Mundial da Saúde), Hans Kluge, em uma entrevista coletiva em Copenhague na última quinta-feira.
A queda de 10 semanas no número de casos de Covid-19 nessa região de 53 países "chegou ao fim", disse Kluge, com o aumento atribuído a maior socialização, viagens, reuniões e diminuição das restrições.
Kluge disse que a situação estava "se desenvolvendo rapidamente" e alertou que a variante Delta, identificada pela primeira vez na Índia, está se espalhando em ritmo veloz, resultando em um número maior de internações e mortes.
Pascal Canfin, francês membro do Parlamento Europeu, apelou à Uefa e às autoridades britânicas para reconsiderarem ter a final e as semis em Wembley, descrevendo a decisão de aumentar a capacidade de espectadores no estádio de "receita para o desastre" em uma carta ao presidente do órgão.
O documento diz que a última análise de ameaça da agência de saúde da União Europeia demonstra o perigo que a variante delta "apresenta para a saúde e segurança, além da amenização das restrições, na União Europeia".
Ele também disse que a análise da agência mostrou que a variante delta era de 40% a 60% mais transmissível que a alfa, identificada pela primeira vez no Reino Unido.
O premiê italiano, Mario Draghi, já havia alertado para o possível impacto para o Reino Unido de abrigar a final do campeonato.
Ele demonstrou a oposição dele à final em Londres, "onde os contágios estão aumentando rapidamente", em 21 de junho.
Eventos fora do estádio
Além dessas preocupações, um porta-voz da Uefa disse à CNN na última sexta-feira (2) que não tinha planos de alterar o cronograma das partidas.
"As medidas de mitigação adotadas em cada uma das sedes da Uefa Euro 2020 estão alinhadas às regras estabelecidas pelas autoridades de saúde locais competentes."
"As decisões finais relacionadas ao número de espectadores nas partidas e as exigências para entrada em quaisquer países-sede e estádios estão sob a responsabilidade das autoridades locais, e a Uefa segue rigorosamente essas medidas."
Durante uma conferência de imprensa na última quinta-feira (1°), Catherine Smallwood, autoridade sênior de emergências em saúde da OMS, disse ser "necessário olhar além dos estádios".

"O que precisamos olhar está ao redor dos estádios: como as pessoas estão chegando até lá? Elas estão viajando em grandes comboios de ônibus lotados? Eles estão tomando as medidas individuais ao fazer isso?", perguntou.
Smallwood também questionou o que aconteceria quando os espectadores deixassem os estádios e fossem para "bares e pubs lotados para assistir às partidas", sugerindo que quando as pessoas socializam, "haverá casos".
O conselheiro em saúde da Eurocopa, Daniel Koch, admitiu que um aumento de casos de Covid-19 pode estar ligada a esses encontros de torcedores.
"Não se pode excluir que eventos e reuniões possam, ao fim, levar a um aumento local no número de casos, mas isso não se aplicaria somente às partidas de futebol, mas também para quaisquer situações que agora são permitidas como parte da flexibilização das medidas decidida pelas autoridades locais competentes".
Ele acrescentou que as campanhas de vacinação acontecendo no continente "ajudarão a garantir que nenhuma grande onda tenha início na Europa e pressione os respectivos sistemas de saúde, como foi o caso durante as últimas ondas de infecção".
Segurança do público
Na semana passada, o Instituto de Saúde e Bem-Estar da Finlândia disse que casos no país quase dobraram em uma semana, "largamente por causa dos torcedores de futebol voltando da Rússia" após as partidas da Eurocopa.
A Finlândia jogou contra a Rússia em 16 de junho em São Petersburgo.
A agência disse que 947 casos foram confirmados no país entre 21 e 27 de junho.
Dados oficiais mostram que a Rússia registrou 679 novas mortes por Covid-19 na última sexta --recorde diário pelo quarto dia consecutivo.
Moscou e São Petersburgo têm as maiores taxas de infecção, suplantando em muito o restante do país, de acordo com a chefe da agência de saúde do país, Anna Popova. Ela não mencionou se o aumento em São Petersburgo estaria relacionado à Eurocopa.
Na Escócia, quase 2.000 casos de Covid-19 foram relacionados a eventos em torno da partida com a Inglaterra em 18 de junho, segundo um relatório da agência de saúde pública do país.
O governo inglês foi acusado de administrar mal a crise no começo da pandemia e sediar os jogos finais da Eurocopa coloca Johnson ainda mais sob o microscópio.
Quando questionado se a saúde pública estava em risco ao receber as partidas, um porta-voz do Departamento de Digital, Cultura, Mídia e Esporte do Reino Unido disse à CNN: "A segurança do público é nossa maior prioridade e foram implementadas exigências rígidas para entrada".
Ele destacou que torcedores que não apresentassem um teste negativo ou prova de vacinação não poderiam entrar, acrescentando que checagens pontuais também seriam conduzidas pela Associação de Futebol.
As regras para estádios da Eurocopa estipulam o uso de máscara para entrar e nas áreas internas do estádio, mas que o item pode ser removido nos assentos ao redor do campo.
O futebol pode "estar voltando para casa" na Inglaterra, mas há evidências que sugerem que ele pode estar acompanhado por um aumento nos casos de Covid-19 em todo o país.
(Texto traduzido, leia o original em inglês)