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    Surfista Billy Kemper diz ter visto a morte após onda quebrar sua pélvis ao meio

    O trágico acidente ocorreu em 2020, na costa do Marrocos, e exigiu meses de reabilitação

    Billy Kemper, um dos maiores surfistas da atualidade, relata sua vida após acidente gravíssimo no Marrocos
    Billy Kemper, um dos maiores surfistas da atualidade, relata sua vida após acidente gravíssimo no Marrocos Foto: Reprodução/Instagram

    Don Riddell,

    da CNN

    Foi um pequeno erro de julgamento, mas em segundos ele percebeu que as consequências poderiam ser potencialmente fatais.

    “Aquela onda me puxou para dentro de sua boca, me jogou contra uma rocha e simplesmente me destruiu”, disse o surfista americano Billy Kemper à CNN Sport.

    “Me nocauteou e me deixou inconsciente. Meu pulmão colapsou. Minha pélvis foi quebrada no meio, tive que reconstruir meu joelho, a lista de lesões continua infinitamente”, acrescenta o surfista de 30 anos ao detalhar o impacto em seu corpo. “Era uma questão de vida ou morte”.

    Kemper diz que houve um breve momento de calma antes do impacto do ano passado, período de paz dentro da onda, quando não conseguia nem dizer para que lado estava subindo. E, então, a experiência visceral da fragilidade da vida.

    “Eu estava apenas hiperventilando e desmaiando com a dor, você não consegue esquecer tanta dor”.

    Surfe no sangue

    Kemper afirma que nunca temeu as ondas: “Estive em uma prancha de surfe meses antes de poder andar, basicamente, nasci no oceano”.

    Como sobrinho do ícone do surfe de ondas grandes Laird Hamilton e crescendo em Maui, a segunda maior ilha do Havaí, o surfe sempre esteve no sangue de Kemper.

    “Parte da cultura de ser criado no Havaí e em uma rocha cercada pelo oceano é que nunca há medo”.

    Embora algumas pessoas possam desenvolver seu amor por um time ou esporte sendo levadas a um jogo desde cedo, o equivalente de Kemper ao Los Angeles Lakers (time de basquetebol da NBA) foi geologicamente esculpido a apenas alguns quilômetros de distância.

    A onda mais temida do mundo, com até 18 metros de altura, conhecida como “Tubarão” porque se assemelha à boca do animal, estava praticamente à sua porta.

    “Gostávamos de assistí-la como uma criança assistindo o jogo dos Lakers”, disse.

    Comparando-se a um jovem torcedor que esperava conseguir sua bola de basquete assinada por Kobe Bryant, lá estava Kemper, com sua prancha de surfe fazendo planos para o resto de sua vida.

    “’Mãe, pai’”, afirmava, “um dia vou surfar em ‘Tubarão’. E eles apenas riam de mim, tipo ‘sim, certo’”.

    Ele estava falando sério: agora com 30 anos, Kemper é considerado por muitos como o melhor surfista de ondas grandes do mundo. De acordo com o CEO da Liga Mundial de Surfe, Erik Logan, “ele constantemente empurra o limite do que é possível na contínua viagem pelo mundo em busca das tempestades mais ferozes e das maiores ondas”.

    Entre os diversos prêmios, Kemper é o campeão mundial de ondas grandes de 2018 e quatro vezes vencedor do evento “Tubarão”, considerado o prêmio de maior prestígio do esporte.

    Ele é talentoso em todos os níveis, mas é uma raça rara de surfistas – cerca de uma dúzia deles – que trocam a velocidade, precisão e criatividade tradicionais da Liga Mundial de Surfe pelo sangue e trovões das maiores ondas do planeta.

    “As realizações de Billy como surfista profissional mostram indiscutivelmente que ele é um dos melhores surfistas de ondas grandes do mundo”, acrescenta Logan.

    Quando solicitado a descrever a sensação de estar no topo de uma parede montanhosa de água, Kemper compara ao olhar pela janela de um apartamento no oitavo andar. Ele se esforça para articular o sentimento sem usar palavrões.

    “Eu não sei exatamente em que palavras eu colocaria que seria bom para a conversa de câmera”, sorriu. “Tipo, tudo no mundo some naquele momento. Estou literalmente vivendo o momento. Orgulhoso e presente”.

    Billy Kemper
    O surfista Billy Kemper
    Foto: Reprodução/Instagram

    ‘Missões de ataque’

    Kemper estava aproveitando uma onda de impulso no fim de 2019 e início de 2020, quando decidiu fazer sua viagem fatídica para o Marrocos que terminou como havia começado, com pressa. Mas o humor na saída era muito diferente de sua empolgação e expectativa na chegada.

    “Foi no final da minha temporada no ano passado e o Pacífico Norte começou a desmoronar”, disse Kemper. “Simplesmente não havia as ondas que eu estava procurando”.

    Há algum tempo, ele se sentia atraído pela ideia de surfar na costa do Marrocos, no norte da África, e parecia que as estrelas estavam se alinhando.

    “Uma noite, eu estava olhando para todas as ondas do mundo e vi essa tempestade absurda se movendo no Oceano Atlântico”, disse.

    Imediatamente, contatou seus amigos e a Liga Mundial de Surfe para ver se estariam interessados em enfrentar as ondas e documentar em filme.

    “Isso parecia monumental”, disse entusiasmado. “Parecia muito maior e mais forte do que a maioria das ondas que você vê naquele oceano”.

    Os surfistas se referem a essas aventuras como “missões de ataque”, que são planejadas no último minuto e os voos são reservados com apenas 24 horas de antecedência, garantindo que o surfe realmente valerá a pena.

    “Se a previsão não for boa e as condições não forem boas, não puxamos o gatilho”, observou Kemper.

    Em fevereiro, a equipe de ataque de Kemper – os surfistas Koa Smith, Luke Davis e o cineasta Arénui Frapwell –, chegaram ao Marrocos, onde se encontraram com o amigo de Billy, o surfista local Gerome Sahyoun.

    Ele soube imediatamente que a pressa era justificada

    “Surfamos um punhado de ondas para cima e para baixo na costa e provavelmente foram algumas das melhores ondas que já testemunhei na minha vida. Foi realmente a viagem de uma vida até que o pior aconteceu”.

    Pélvis quebrada

    Kemper diz que conheceu a morte, mas não tem medo dela. Com apenas oito anos ele perdeu seu irmão, e sua mãe morreu recentemente de câncer.

    O que ele teme, porém, é a ideia de não ver seus quatro filhos novamente. Como surfista, ele não tem medo da água, mas com certeza a respeita. “Não sou de forma alguma um mestre do oceano, sempre me curvo diante do oceano”.

    Enquanto seu corpo quebrado flutuava nas águas espumantes da costa do Norte da África, a realidade de sua nova situação rapidamente entrou em foco.

    Billy Kemper
    Billy Kemper, a esposa e os quatro filhos
    Foto: Reprodução/Instagram

    “Eu sabia onde estava me metendo, só não sabia o quão sério era”, disse. “Qualquer um que já quebrou a pélvis ao meio pode se relacionar com isso. Você definitivamente não vai conseguir apenas caminhar até a praia”.

    Kemper diz que deve sua vida aos amigos que imediatamente correram em seu socorro na água e o colocaram em segurança. Ele foi transportado para o porto em um jet ski, onde uma ambulância o aguardava.

    De todos os detalhes sangrentos de que ele consegue se lembrar mais de um ano após o evento dramático, parece que este ainda é um dos mais cruéis: “Até a viagem de ambulância foi a pior dor de todos os tempos. Cada lombada, o centro de seu corpo apenas se abrindo e liberando sangue”.

    “A maioria das pessoas perde metade do sangue do corpo”, disse, falando sobre a quebra da pélvis. “Você com certeza precisará de transfusões”. Ele gesticula com as mãos para demonstrar que sua ferida interna gela o sangue a cada solavanco na estrada. “É uma dor que você não pode descrever”.

    ‘Sem surfar, eu não sou Billy’

    Depois de alguns dias no hospital, Kemper e sua equipe perceberam que estavam enfrentando mais problemas. Em primeiro lugar, precisavam descobrir como navegar uma jornada de mais de 13.000 quilômetros de volta aos Estados Unidos para uma cirurgia de trauma de emergência.

    “Eu estava em um estado em que não podia voar em avião comercial, não podia voar em classe executiva”, declara Kemper. “Com uma fratura pélvica tão ruim, você não pode deixar a maca. Qualquer movimento, está apenas abrindo essa fratura para criar mais sangramento interno”.

    No entanto, a iminente crise da Covid-19 significava que as fronteiras internacionais estavam sendo fechadas em toda a sua rota de fuga para casa.

    Tendo contado com sua comunidade de familiares, amigos e patrocinadores para ajudar a arrecadar fundos para um voo emergencial de evacuação médica, eles estavam agora em uma corrida contra o tempo.

    Billy Kemper
    Billy Kemper é levado em vôo hospitalar para cirugia de emergência nos Estados Unidos
    Foto: Reprodução/Instagram

    “Estava literalmente acontecendo na hora”, lembrou. “Não era nem mesmo como amanhã, ou hoje, era como ‘Oh não! Eles fecharam. Eles fecharam. Eles fecharam!’ Estamos tentando vencê-los apenas para conseguir uma entrada em solo americano”.

    Kemper não estava apenas desesperado para ver sua família, mas também sabia que o melhor atendimento médico era em casa, e era o tratamento essencial se ele fosse competir em uma prancha novamente.

    Quando eles finalmente conseguiram voltar, Kemper foi imediatamente levado às pressas para uma cirurgia de trauma por um médico que havia sido pesquisado especificamente por sua equipe.

    Mas mesmo assim, o caminho para a recuperação foi longo; meses da cansativa reabilitação e o período mais longo de sua vida passado em terra firme.

    “Eu ficaria muito surpreso se houvesse um atleta que superasse o que eu fiz nos cinco, seis meses que estive na Califórnia”, disse Kemper.

    Ele foi morar com seu tio Hamilton e sua esposa, Gabrielle Reece, e se concentrou intensamente na recuperação, fisioterapia e treinamento. Ele detalha 11 horas por dia, sete dias por semana e reflete que a experiência foi provavelmente uma “bênção disfarçada”.

    “O que aprendi no verão passado foi provavelmente mais conhecimento do que jamais teria [adquirido] sem passar por essa lesão”, disse.

    “Estava além de qualquer coisa que eu pensei que passaria e precisei de alguns meses para me preparar mentalmente e curar minha mente”.

    Quando chegou a hora de voltar a subir em uma prancha de surfe, Kemper disse que foi como um renascimento.

    “Foi como a primeira onda de toda a minha vida de novo, trouxe de volta as emoções de ser criança. É por isso que me sacrifiquei tanto, é por isso que trabalhei mais duro do que ninguém, é por isso que eu pertenço aqui”, disse.

    “Surfar é quem eu sou. Sem surfar, não sou Billy”.

    (Texto traduzido. Leia o original em inglês).

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