A indústria da moda diz que está contra o racismo. Os críticos não acreditam

Depois apontar racismo sistêmico, apropriação cultural e decisões criativas insensíveis, negros estão vendo a realidade por trás de postagens de mídia social

Allyssia Alleyne, CNN
11 de julho de 2020 às 02:50
Manifestantes tomam ruas de Londres em ato antirracista após morte do americano George Floyd (06.jun.2020)
Foto: CNN Brasil

Desde 26 de maio, as manchetes foram dominadas pelo assassinato de George Floyd nos Estados Unidos e pelos protestos internacionais provocados pelo crime. Milhares foram às ruas ao redor do mundo para denunciar a brutalidade policial e a antinegritude. Online, outros milhares mais postaram em massa em apoio ao #BlackLivesMatter (BLM, ou “vidas negras importam”) e pediram o fim do racismo sistêmico.

Nas mídias sociais, muitas marcas de moda foram rápidas ao se alinhar com os manifestantes, postando quadrados pretos no Instagram na chamada #BlackoutTuesday (“terça-feira negra”) e compartilhando longas legendas denunciando racismo, discriminação e violência. Mas nem todo mundo acreditou nas suas intenções.

“Indo direto ao ponto: não acho que exista uma intenção real de fazer mudanças duradouras e sustentáveis”, disse Lindsay Peoples Wagner, editora-chefe da revista Teen Vogue, em um email à CNN. “Todo mundo pode entrar no movimento BLM agora nas mídias sociais, mas o que você está fazendo em sua casa, no escritório corporativo, com suas conexões e com o poder que você tem?”

As acusações de hipocrisia têm atormentado marcas desde o início dos protestos. Nas mídias sociais, comentários questionaram se a marca de luxo Salvatore Ferragamo (que se recusou a comentar o caso aqui) poderia ser uma aliada na luta contra o racismo quando o ator Tommy Dorfman a acusou de discriminar modelos trans e não brancos em uma campanha recente.

Outros perguntaram se a grife Reformation, de Los Angeles, apoiava de fato o #BlackLivesMatter quando as pessoas que afirmavam ser ex-funcionários estavam acusando a marca de racismo no local de trabalho (a fundadora Yael Aflalo se desculpou e se demitiu de seu cargo como CEO).

Mais uma: se a Anthropologie poderia genuinamente reivindicar “nossos corações, com o seu, estão partidos com os eventos atuais”, como fez em um post no Instagram (já excluído), quando foi acusada de usar a prática de traçar o perfil racial de seus clientes -- alegações de que a marca negado.

Isso sem falar das publicações de moda. No início de junho, uma investigação da CNN desenterrou inúmeras alegações de racismo e toxicidade no local de trabalho na plataforma Refinary29. Em resposta a essas acusações, a editora-chefe e cofundadora Christene Barberich (que renunciou em 8 de junho) disse em um comunicado: “Meu objetivo sempre foi ajudar a diminuir a lacuna de representação e acredito que isso se reflete as páginas da Refinery29”.

Enquanto isso, Anna Wintour foi o foco de um breve rumor de que ela deixaria seu incensado posto na Vogue depois que ex-funcionários e talentos de várias áreas compartilharem suas próprias experiências com o racismo na revista.

Wintour, cujo título oficial a nomeia como diretora artística e editora-chefe da Vogue EUA e consultora de conteúdo global, enviou um email interno para sua equipe em 5 de junho.

No comunicado, visto pela CNN, ela reconheceu e assumiu “total responsabilidade” pelo racismo que floresceu sob suas asas: “Eu sei que a Vogue não encontrou maneiras suficientes de elevar e dar espaço aos editores, escritores, fotógrafos, designers e outros criadores de negros. Também cometemos erros ao publicar imagens ou histórias que foram prejudiciais ou intolerantes”, escreveu.

Além disso, um porta-voz da Condé Nast, editora da Vogue, disse em comunicado: “A Condé Nast está focada em criar mudanças significativas e sustentáveis e continua a implementar um processo de contratação inclusivo para garantir que uma ampla gama de candidatos seja considerada para todas as vagas abertas.”

Lindsay Peoples Wagner, editora-chefe da Teen Vogue: “Todo mundo pode entrar no movimento BLM agora nas mídias sociais, mas o que você está fazendo em sua casa, no escritório corporativo, com suas conexões e com o poder que você tem?”
Foto: Kyleen James / The Society Management

Foi um post da marca de luxo francesa Celine no Instagram - um quadrado preto com a legenda “A Celine se opõe a todas as formas de discriminação, opressão e racismo. O mundo de amanhã não existirá sem igualdade para todos #BlackLivesMatter” - que levou o estilista de Hollywood Jason Bolden a prender a respiração.

Bolden tem clientes famosos como Taraji P. Henson, Ava DuVernay e Serena Williams. Ao ver o post, fez um comentário (que foi capturado pela conta Diet Prada, que fiscaliza o setor de moda) acusando a marca de não vestir as celebridades negras para o tapete vermelho a menos que elas estivessem trabalhando com estilistas brancos. A grife francesa se recusou a comentar esta história

“Meu foco não está na moda; meu foco está em vidas perdidas e na injustiça (enfrentada) pelos negros”, disse Bolden em uma entrevista por telefone. “Mas, naquele momento em particular, quando eu vi isso aparecer meu feed, minha raiva despertou. Parecia uma piada para mim. Não soava autêntico.”

Como estilista, Bolden disse que muitas vezes se sente marginalizado por marcas da alta costura. Ele se lembra de ter lutado para encontrar uma estilista que vestisse Henson para o Oscar de 2017, quando seu filme "Estrelas Além do Tempo” (“Hidden Figures”) foi indicado a três prêmios, incluindo Melhor Filme. “São exatamente as mesmas marcas que depois vestiriam talentos sobre os quais ninguém nunca tinha ouvido falar, mas eram todas meninas brancas", disse Bolden.

“E nesses momentos, a que mais podemos recorrer? Taraji P. Henson tem tudo o que eles poderiam querer. Ela tem a imprensa que acompanha (as indicações ao Oscar), tem a maior cobertura, é apresentadora (de cerimônia), ganhou um Globo de Ouro... está em filmes aclamados pela crítica. E ainda assim eles disseram não”.

Jason Bolden: “Naquele momento em particular, quando eu vi isso aparecer meu feed, minha raiva despertou. Parecia uma piada para mim. Não soava autêntico.”
Foto: Reprodução/Facebook

“Acho que o que estamos vendo são pessoas como eu, cansadas de gente e de marcas que não fazem o que falam”, disse a editora Peoples Wagner. “É muito fácil para as pessoas entrar em um momento e dizer que se importam com um problema, mas há gente fazendo isso há anos sem trazer mudanças sistêmicas reais, e é isso que está sendo exigido das marcas agora”.

Esta não é a primeira vez que a indústria da moda tropeça quando se trata de resolver questões de raça. Apropriação cultural, gafes racistas com gente famosa e a falta de diversidade nas passarelas são pontos de discussão constantes, levando a uma onda recente de contratações de diversidade e inclusão. Peoples Wagner é um das poucos editoras negras no comando de uma importante revista de moda (junto com Edward Enninful, da Vogue britânica, e a recém-nomeada editora da Harper's Bazaar, Samira Nasr, que começará oficialmente no próximo mês), e existem apenas dois estilistas negros no comando das casas de moda europeias.

“Eu não sei se alguma pessoa branca é capaz de se relacionar com a turbulência emocional que é ser negra e tentar ter um negócio aqui e sobreviver (neste setor)... Não sei se existe algum setor da moda em que os negros possam dizer que temos os mesmos recursos, somos iguais, somos tratados da mesma forma”, disse a modelo Adesuwa Aighewi, uma das mais renomadas modelos negras do momento.

Depois de desfilar nas passarelas e liderar campanhas para algumas das marcas de luxo mais famosas do mundo e aparecer na capa da Vogue em abril de 2020, Aighewi disse que vê toda a sua “carreira” como parte dos recentes esforços do setor (embora ainda limitados) de aumentar a diversidade de modelos em revistas e na passarela depois de anos de críticas.

“Literalmente, tudo o que eu fiz foi como o rosto da minha raça e como um símbolo de diversidade. Fui fotografada para a capa da Vogue norte-americana em dezembro e, no entanto, não vejo nenhuma das empresas que me exibiram com orgulho participando de um diálogo significativo sobre o Black Lives Matter”.

Danielle Prescod, diretora de estilo da BET.com, não ficou surpresa ao ver marcas subitamente se manifestando contra o racismo após o assassinato de Floyd. “Como o tema estava mexendo muito com as mídias sociais, teria sido muito evidente se as pessoas não dissessem nada”, opinou

Adesuwa Aighewi: “Literalmente, tudo o que eu fiz foi como o rosto da minha raça e como um símbolo de diversidade".
Foto: Kyleen James/The Society Management

No entanto, ela não deixa de questionar a motivação quando marcas que antes haviam permanecido caladas sobre questões de raça, ou que não priorizavam anteriormente a inclusão e a diversidade, escolhem esse momento para se manifestar.

“Parece falso quando uma marca diz algo como ‘Nós apoiamos a comunidade negra’. Tipo assim, e quando você já esteve com a comunidade negra?”, perguntou.

“Você teve as mesmas oportunidades para defender vidas negras, defender a beleza negra, empregar pessoas negras desde o início do seu negócio. Então, decidir nesta semana que se preocupa com a vida dos negros é muito conveniente. Isso acaba parecendo uma oportunidade de marketing, e não algo com o qual elas (empresas) realmente se importam.”

De fato, agora mais do que nunca, alinhar a marca com causas populares pode gerar uma boa estratégia.

De acordo com o 2020 State of Fashion Report, compilado pela gigante de consultoria McKinsey & Company e pela publicação comercial Business of Fashion, quase dois terços dos consumidores se identificam como “compradores motivados por crenças” que “escolherão, trocarão, evitarão ou boicotarão uma marca com base em sua posição em questões sociais”.

Por causa disso, o relatório previu que mais empresas “colocarão a diversidade e a inclusão como uma prioridade mais alta”.

Numa época na qual 74% dos norte-americanos apoiam os protestos, de acordo com uma pesquisa recente da Washington Post-Schar School, tomar partido dos manifestantes (mesmo que superficialmente) significa ficar do lado da opinião popular.

“Ao observar como as marcas agem em torno de causas, geralmente se vê que são causas populares e da maioria, porque o que elas estão tentando fazer é alinhar sua marca com os valores dos clientes. Agora os clientes julgam sua marca não como uma entidade, mas como uma pessoa ou personalidade”, explicou Martin Raymond, cofundador da consultoria de previsão de tendências The Future Laboratory.

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“Tradicionalmente, era útil que as marcas se sentassem em cima do muro, mas, cada vez mais, quem fica sentado em cima do muro corre o risco de machucar o traseiro. Essas pessoas acabam de fato não entendendo o pêndulo da história e para onde ele está oscilando, e onde precisam estar quando esse pêndulo passa por cima delas”.

No entanto, alinhando-se a uma causa, as marcas se abrem a uma investigação mais ampla e crítica do consumidor, o que pode ser problemático quando seus compromissos contradizem suas práticas.

O consultor Raymond menciona as conversas em andamento sobre os esforços de sustentabilidade das marcas de moda, que costumam ser vistos como “lavagem verde”: “Se eu examinasse toda a infraestrutura, cadeia logística ou de distribuição de uma empresa - principalmente na moda -, encontraria coisas muito estranhas ali que estariam prontamente disponíveis para críticas e desafios".

No entanto, a ex-modelo Bethann Hardison, hoje agente de modelos e defensora da diversidade, é menos cínica. "Quando as pessoas oferecem sua solidariedade, eu não costumo questionar... Eu não tenho tempo para isso. Temos um movimento para seguir em frente”, comentou.

Bethann Hardison: "Quando as pessoas oferecem sua solidariedade, eu não costumo questionar... Eu não tenho tempo para isso. Temos um movimento para seguir em frente”.
Foto: USC Annenberg / Brett Van Ort

Algumas marcas se deram melhor em estabelecer a solidariedade do que outras. O estilista Bolden elogiou o designer da Valentino, Pierpaolo Piccioli, por seu elenco multicultural e por fazer da modelo sul-sudanesa-australiana Adut Akech o rosto de verdade da marca. Da mesma forma, Prescod, da BET.com, elogia a grife de luxo plus size 11 Honoré por seu compromisso de usar modelos diversos em sua plataforma e no Instagram. (“Há um rosto negro postagem sim, postagem não”, observou Prescod.)

A agente Hardison indica a Gucci como um exemplo de marca que está dando passos promissores para lidar com a falta de representação na moda. Em 2019, a grife italiana, que enfrentou uma forte reação por projetos insensíveis e por usar as criações do designer negro Dapper Dan, lançou seu Changemakers Impact Fund.

Em outubro passado, o fundo lançou um programa de bolsas de diversidade de US$ 1,5 milhão “para garantir que uma nova era de jovens diversos e excepcionais ganhe oportunidades e experiências em toda a indústria da moda”.

Em 3 de junho, a empresa anunciou que doaria para a NAACP (Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor), Campaign Zero (uma organização sem fins lucrativos que trabalha para acabar com a brutalidade policial) e o Know Your Rights Camp, do jogador de futebol americano Colin Kaepernick. A grife italiana também interrompeu as operações nos EUA em 4 de junho “para que os funcionários tivessem um dia de luto, homenageassem as vidas perdidas e se comprometessem a fazer parte da solução”.

No entanto, enraizar de verdade valores antirracistas nos negócios exige uma mudança dramática no topo, onde reside o poder de tomada de decisão. No seu relatório de 2019 sobre inclusão e diversidade na indústria, o Conselho de Designers de Moda dos Estados Unidos (CFDA na sigla em inglês) afirmou que o foco na visibilidade - como diversidade na passarela ou nas capas de revistas - não é suficiente.

“O setor deve reconhecer e priorizar os esforços para apoiar uma maior diversidade no lado comercial: os financiadores, os executivos principais, os chefes de moda, os editores de revistas de nível sênior e os líderes empresariais”, escreveu Erica Lovett, diretora de inclusão e diversidade na editora Condé Nast. “Até que os líderes da moda em todas as categorias se tornem mais diversas, continuaremos a progredir apenas no nível superficial”.

Pesquisas sugerem que a contratação diversificada é um bom negócio. Um estudo da McKinsey de 2018 descobriu que as empresas com altos níveis de diversidade étnica e cultural nas equipes executivas tinham 33% mais chances de ter “lucratividade líder no setor”.

“As pessoas vêm dizendo há anos as etapas que precisam ser tomadas: criar um canalizador para talentos BIPOC (a sigla em inglês para negros, indígenas e pessoas de cor), garantir que o canalizar dê lugar a posições de liderança, para que você não tenha apenas uma tonelada de assistentes e freelancers BIPOC, etc.", disse a editora da Teen Vogue, Peoples Wagner. “A inclusão não é tão difícil quanto as pessoas fazem parecer. Ela só precisa ser uma decisão comprometida em toda a empresa e não uma escolha unilateral”.

Hardison, agente e ex-modelo, vê esse momento como "um primeiro passo" em uma luta maior pela mudança e prevê que a agitação de hoje levará a “amplas mudanças” no futuro. (Ela não é a única: em uma recente entrevista, a ativista de direitos civis e estudiosa Angela Davis disse: “Essa conjectura histórica em particular contém possibilidades de mudança que nunca experimentamos neste país”.

A top model Aighewi é igualmente otimista, mas reconhece que uma mudança genuína não será fácil. “As pessoas precisam realmente fazer o trabalho: se sentirem desconfortáveis, terem essas conversas, admitirem que o sistema não está correto", disse ela.

“Essas empresas já existem há bastante tempo. Esta não é a primeira vez que os negros reclamam da indústria da moda; essa não é a primeira revolução. Alguém tem que ceder.”

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).