Como um menino que fraturou o crânio cresceu e se tornou ‘calculadora humana'


Akanksha Sharma da CNN
02 de setembro de 2020 às 12:36
Menino calculadora em frente à lousa com cálculos

Neelakantha Bhanu Prakash é conhecido na Índia como a 'calculadora mais rápida do mundo'

Foto: Asim Patel/CNN

Quanto é 869.463.853 vezes 73?

No tempo em que uma pessoa leva para abrir sua calculadora, Neelakantha Bhanu Prakash, de 20 anos, já conseguiu a resposta.

A resposta é 63.470.861.269 e Bhanu, conhecido na Índia como a “calculadora humana mais rápida do mundo”, precisou de apenas 26 segundos para fazer a conta de cabeça.

De acordo com o Limca Book of Records (o equivalente da Índia ao Guinness World Records), a mente de Bhanu processa números a uma velocidade média de 12 por segundo, cerca de 10 vezes mais rápido do que um cérebro normal.

Bhanu diz que é capaz de fazer cálculos complexos em uma velocidade vertiginosa por meio da “prática estruturada”.

“Digamos que eu tenha uma multiplicação de 8.763 vezes oito”, diz ele. “Provavelmente vou multiplicar: 8.000 vezes oito que é 64.000, 700 vezes oito que é 5.600, 60 vezes oito que é 480, três vezes oito é 24. E daí eu somo tudo. Mas isso requer que o cérebro humano se lembre de tudo isso”.

“Os métodos que uso são muito semelhantes aos métodos comuns, mas certas coisas envolvem basicamente a otimização do cérebro. Eu otimizo meus métodos e os torno melhores do que antes”.

“No fim das contas, seja lá qual for o nome do meu método, às vezes simplesmente acontece. É claro que há um certo processo, mas desde que você tenha treinado seu cérebro, simplesmente acontece”.

Em 15 de agosto, Bhanu, natural da cidade de Hyderabad, no estado de Telangana, no sul da Índia, se tornou o primeiro asiático a ganhar o ouro no Campeonato Mundial de Cálculo Mental na Mind Sports Olympiad (MSO) em Londres. Ele também é o primeiro vencedor não europeu em 23 anos de história do evento.

Em sua estreia nas competições, Bhanu venceu 29 oponentes de 13 países para levar o ouro – sua velocidade foi tão extraordinária que os juízes o fizeram resolver mais cálculos para confirmar sua precisão.

Só não o chame de prodígio.

“Definitivamente não, porque acho a palavra ‘prodígio’ meio preocupante, pois não captura os esforços e a experiência, é como se fosse um dom conseguido do nada”, afirma Bhanu, enfatizando que sua extraordinária habilidade matemática não veio com facilidade.

Na verdade, tudo poderia ter sido muito diferente.

Menino com dez anos com seus troféus

Em 2010, aos 10 anos, Bhanu posa com sua coleção de troféus do torneio de matemática.

Foto: Cortesia de Neelakantha Bhanu Prakash

Lesão com risco de morte

Em 2005, aos 5 anos, Bhanu caiu da scooter de seu primo quando os dois foram atropelados por um caminhão. 

Ao bater com a cabeça no asfalto, Bhanu fraturou o crânio. Foram necessários 85 pontos e várias operações, e por fim os médicos decidiram colocar o menino em coma induzido.

Quando ele acordou, quase sete dias depois, os médicos disseram aos pais que a criança poderia ter problemas cognitivos para o resto de sua vida devido ao traumatismo craniano.

O menino passou o ano seguinte ao atropelamento acamado.

“Aquele acidente mudou a forma como eu definia o que era diversão e é por isso que estou aqui hoje”, conta.

Durante sua recuperação, Bhanu aprendeu a jogar xadrez e resolver quebra-cabeças para manter seu cérebro ocupado, e depois progrediu para problemas matemáticos.

“Lembro-me vividamente da dor. Esta é a experiência mais traumática que tive na minha vida”, afirma. “Eu não consegui nem ir para a escola durante um ano. Tudo em que eu precisava para melhorar eram os números e os quebra-cabeças”.

O ferimento na cabeça o deixou com uma “cicatriz de aparência feia”. Para proteger seus sentimentos, os pais de Bhanu tiraram todos os espelhos da casa por um ano. Mas ele estava determinado a não deixar a cicatriz defini-lo. “Isso me impulsionou para frente e eu sabia que havia algo em que era bom e com o qual eu podia provar meu valor”, diz.

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Em 2007, aos 7 anos, Bhanu terminou em terceiro na categoria subjúnior na competição estadual de aritmética de velocidade no estado de Andhra Pradesh.Sua atuação levou o pai às lágrimas. “Não foi a medalha, foi o que me levou até lá que mexeu com meu pai”, conta.

Desde então, Bhanu garantiu muitas vitórias, incluindo a da categoria aberta na Competição Nacional de Aritmética de Velocidade de 2011 da Índia.

Desde os 13 anos, ele vem representando o país em competições internacionais, quebrando quatro recordes mundiais de cálculo humano mais rápido, multiplicação de potências, super subtração e matemática mental: potências de 2 e 3.

Ele também quebrou 50 recordes no Limca, ganhando comparações com o lendário matemático indiano Shakuntala Devi.

“Quando estou tentando bater um recorde mundial, é quase como se o mundo ao meu redor desacelerasse”, explica Bhanu, fazendo uma comparação com um super-herói da DC Comics.

“É mais ou menos como ‘The Flash’ – quando ele corre tudo ao redor fica borrado. É claro que é uma sensação boa e é extremamente libertador fazer esses cálculos complexos neste ritmo”.

“Assim, os neurônios disparando no cérebro nos levam a fazer de conta que somos capazes de fazer coisas que não imaginamos. Pois é, acho que quase me sinto como um super-herói. Quase”.

Menino calculadora com fratura no crânio

A lesão no crânio de Bhanu o deixou com uma cicatriz, mas ele se propôs a não deixar que isso o definisse.

Foto: Asim Patel/CNN
 

Tornando matemática legal

Bhanu diz que é apaixonado por seu objetivo de “erradicar a fobia da matemática”, os sentimentos de medo que muitos de nós temos em relação à matemática, que podem nos levar a evitar situações nas quais temos que fazer cálculos e impactar negativamente nossas escolhas de vida.

De acordo com um estudo de 2002 publicado na revista Current Directions in Psychological Science,  “indivíduos altamente ansiosos por matemática são caracterizados por uma forte tendência a evitar a matemática, o que acaba prejudicando sua competência nessa habilidade e impedindo que carreiras importantes se desenvolvam”.

Em 2018, o indiano fundou a organização de educação Exploring Infinities (Explorando Infinitos), que visa tornar a matemática interessante, desafiadora, interessante e envolvente, rastreando o desenvolvimento de habilidades cognitivas por meio de jogos aritméticos.

“Minha experiência começou no dia em que fui para uma escola pública rural (na Índia) e percebi que as crianças de lá não sabiam que multiplicação é soma repetitiva”, explica Bhanu. "Foi isso que me alertou e foi quando comecei minha empresa."

A organização, que tem meio milhão de assinantes, trabalha na educação de base na Índia. Antes da pandemia do coronavírus, organizou treinamentos de matemática em Bangladesh e na Indonésia. Seu programa de aprendizagem digital também tem alunos do Reino Unido e dos Estados Unidos.

“Bhanu dominou o Campeonato Mundial de Cálculos Mentais e terminou 65 pontos à frente de todos os outros”, relatou Etan Ilfeld, CEO da Mind Sports Olympiad.

“Ele continua a inspirar através de seu trabalho de divulgação, incluindo palestras TEDx e pela startup Exploring Infinities, que enfatizam que qualquer pessoa pode melhorar suas habilidades matemáticas e tornar o mundo um lugar melhor”.

Neelakantha Bhanu Prakash ajudando duas crianças com matemática

Bhanu faz as contas com dois aspirantes a matemáticos

Foto: Cortesia de Neelakantha Bhanu Prakash

O sucesso recente de Bhanu chamou a atenção do presidente da Índia, Ram Nath Kovind e do vice, M. Venkaiah Naidu, que o parabenizaram por sua vitória na MSO.

Depois de anos lutando por financiamento estatal para participar de competições internacionais, ele espera que sua vitória dê início a uma nova era de apoio aos futuros matemáticos da Índia, para competir em nível mundial.

“Para qualquer país se desenvolver e prosperar globalmente, a matemática é uma habilidade tão importante quanto a alfabetização”, explica.

“Três em cada quatro alunos que estudam nas escolas públicas da Índia têm problemas para entender matemática básica”.

Bhanu diz que sua vitória na MSO logo em sua estreia também pode ser a última no torneio, já que ele quer se concentrar em seu trabalho filantrópico.

“Não sei se vou participar de mais competições. Não acho que devia. Já mostrei que sou mais rápido. Estou em uma posição que as pessoas me ouvem, portanto acho melhor usar isso”.

“Não quero ser a cara da matemática – há caras suficientes e elas são excepcionais. Eu quero representar a luta contra a fobia de matemática. Simples assim.”

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).