A empresa silenciosa por trás da corrida espacial

O IPO da SpaceX mobilizou investidores no mundo inteiro. Não apenas pelo seu tamanho, mas porque pode representar a primeira vez em que a indústria espacial deixará de ser vista como um segmento incipiente e passará a ser percebida como uma indústria real, estratégica e investível. Mas será que a SpaceX é o único veículo para um investidor se expor à tendência secular de crescimento dessa indústria? A resposta é não.
Hoje, já existe um ecossistema relevante de empresas listadas em bolsa que fazem parte da cadeia de valor do espaço, de fabricantes de foguetes a empresas que produzem componentes críticos para satélites, como sistemas de comunicação, sensores e placas de energia solar. Entre elas, há uma que, à primeira vista, parece não ter relação com a indústria espacial: a Linde, líder global em gases industriais, com mais de 35% de market-share mundial na produção de gases como hidrogênio, nitrogênio e argônio, insumos essenciais para diversas indústrias, como as de óleo & gás, semicondutores, alimentos & bebidas, farmacêutica e saúde.
A Linde não é uma “empresa da moda”. Fundada em 1879, possui receita anual de US$ 33,9 bilhões, cresceu em média 3,3% ao ano nos últimos anos e opera com margem líquida de aproximadamente 20,3%. Suas demonstrações financeiras dificilmente sugerem qualquer exposição relevante ao setor espacial, mas estamos falando de uma empresa que detém aproximadamente 90% de market-share no fornecimento de combustíveis para foguetes, um mercado altamente dependente de oxigênio e hidrogênio líquidos.
Esse segmento ainda representa menos de 5% da receita total da companhia, mas a Linde vem se posicionando agressivamente para manter a liderança nesse mercado e já cresce receita em dois dígitos nessa frente. Em 2025, a empresa anunciou dois investimentos estratégicos: uma nova planta de US$ 100 milhões em Brownsville, no Texas (ao lado de uma base de lançamentos da SpaceX), e a expansão da sua unidade em Mims, na Flórida, próxima ao Cabo Canaveral, região que concentra o maior polo de lançamentos espaciais do mundo.
E por que a Linde está tão bem posicionada para capturar o crescimento da indústria espacial? É preciso primeiro compreender a dinâmica estrutural do seu core business. Gases industriais “viajam mal”. Acima de aproximadamente 100 quilômetros de distância, o custo logístico passa a comprometer a viabilidade econômica do produto. Como consequência, a indústria se desenvolveu ao redor de quase monopólios locais: empresas de gases industriais normalmente constroem suas plantas próximas aos clientes e operam sob contratos de longo prazo — geralmente “take-or-pay” com duração de 15 a 20 anos —, que garantem volumes mínimos de consumo.
Portanto, quando a Linde constrói plantas em regiões como Brownsville e Cabo Canaveral, consolida uma posição praticamente intransponível nessas regiões para o fornecimento de combustível de foguete, tornando-se quase a única “ExxonMobil do espaço”. Isso gera visibilidade para seus investidores sobre duas das variáveis mais importantes para a criação de valor no longo prazo: market-share e ROIC (Return on Invested Capital).
Além disso, quando colocamos valuation na equação, a assimetria entre Linde e SpaceX é um ponto de atenção. Enquanto a Linde negocia atualmente próxima de 24x EV/EBITDA (o equivalente a aproximadamente 6x EV/Receita), a SpaceX alcança quase 95x de EV/Receita. O ponto aqui não é discutir se a SpaceX está cara ou barata (inclusive empresas excepcionais frequentemente parecem caras quando analisadas apenas por múltiplos). A questão é: aos preços atuais, a Linde parece oferecer uma relação risco-retorno mais interessante para o investidor de longo prazo.
Se a indústria espacial crescer abaixo das expectativas mais otimistas, a Linde ainda continua dona de um excelente core business — resiliente, altamente rentável, protegido por barreiras de entrada relevantes e com histórico consistente de geração de caixa e retorno sobre capital investido. Um negócio que, mesmo sem expansão relevante do mercado espacial, já possui atributos para potencialmente entregar retornos acima do S&P 500 ao longo do tempo.
Por outro lado, caso a indústria espacial realmente entre em um ciclo de crescimento acelerado nas próximas décadas, a Linde parece estar muito bem posicionada para capturar esse movimento. E essa opcionalidade positiva ainda não está refletida no valuation atual da companhia.
Há também uma diferença importante em termos competitivos. A Linde é há décadas praticamente a fornecedora dominante de oxigênio e hidrogênio líquidos para foguetes, enquanto a SpaceX compete em um mercado que deve atrair volumes crescentes de capital e novos entrantes ao longo dos próximos anos. A Blue Origin, de Jeff Bezos, é apenas um dos exemplos mais evidentes desse movimento.
É difícil prever exatamente como a indústria espacial irá se desenvolver nas próximas décadas — e, principalmente, se a SpaceX será um bom investimento. Mas, olhando para os diferentes cenários, a Linde parece ocupar uma posição particularmente rara: uma empresa com downside relativamente protegido por um core business de altíssima qualidade e, ao mesmo tempo, com exposição relevante a uma das tendências seculares mais importantes da nossa geração.
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