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Pedro Prádanos

Pedro Prádanos- CEO da Veolia Brasil

A energia que vem do lixo

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Diante da insuficiência da matriz energética global, motivo de preocupação entre os setores da economia e da sociedade, as fontes renováveis começam a ganhar notoriedade. Dados da Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA) mostram que apesar das incertezas globais, essas novas fontes de energia continuam crescendo e ganhando impulso. Até o final de 2021, a capacidade global de geração renovável totalizou 3.064 GW, aumentando o estoque do insumo em 9,1%.

Quando falamos em energia renovável, o Brasil se torna um dos melhores exemplos. Recentemente li que o país lidera a geração de energia limpa entre os membros do Brics (Brasil, Rússia, África do Sul, Índia e China). Segundo um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em 2019 a matriz energética brasileira foi formada por 45% de fontes renováveis e 54% de fontes fósseis. Em relação aos países que compõem o bloco, estamos muito à frente, já que as energias fósseis na África do Sul chegam a 97%, na Rússia a 94%, na Índia a 92% e na China a 87%.

No entanto, é preciso não apenas aumentar esses bons índices como também diversificar cada vez mais nossa contribuição na matriz energética para fazer frente aos fenômenos climáticos, como a escassez de água, as secas e outras intempéries que têm ocorrido com mais frequência.

Diante disso, chegou a hora de olharmos também para outras possibilidades que vão além da energia eólica ou solar. Uma opção ainda pouco explorada no Brasil, mas que vem ganhando espaço é a geração de energia limpa através dos resíduos.  Adotado por grandes potências, como Japão, Estados Unidos, China e Europa, o reaproveitamento do “lixo” ajuda não só a poupar a nossa matriz energética como resolve um problema constante de todas as sociedades urbanas atuais: a produção desenfreada de resíduos sólidos e seu descarte inadequado.

Segundo a Abrelpe (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais), cerca de 3.000 dos 5.570 municípios do país mantêm lixões a céu aberto, e quase metade estão em locais ambientalmente inadequados.

Além disso, o reaproveitamento de resíduos no país ainda é baixo, em torno de apenas 4%. Isso evidencia o quanto o nosso modelo econômico atual é linear, retrógrado e ineficiente, por isso gera tanto desperdício. Os resíduos são uma matéria prima valiosa, a partir da qual poderão ser desenvolvidas cadeias e mercados. Temos pela frente o desafio de reduzir a geração de lixo e prever estratégias para sua valorização e reaproveitamento energético.

Poucos veem o lixo como, de fato, deveria ser visto: como uma matéria prima valiosa. Resíduos geram valor, movimentam a economia e transformam vidas. A partir dos resíduos, criamos novas cadeias produtivas e mercados. E dentre tantas possibilidades, cito aqui a valorização energética.

Outro levantamento feito pela Associação Brasileira de Recuperação Energética de Resíduos (Abren) aponta que as 28 regiões metropolitanas do Brasil com mais de 1 milhão de habitantes têm potencial para transformar anualmente mais de 38 milhões de toneladas de lixo em energia.

Em dezembro de 2022, a Comissão de Meio Ambiente aprovou um Projeto de Lei que estimula a produção de biogás, biometano e energia elétrica a partir do aproveitamento de resíduos sólidos em aterros sanitários. A proposta permite que empresas que geram energia através dessa forma possam receber incentivos fiscais da União, do estado ou do município.

De acordo com o texto, a geração de energia elétrica, térmica e o armazenamento de biogás ou biometano poderá ser aplicado no abastecimento de usinas termelétricas, de veículos automotores e aquecimento de caldeiras em processos industriais.

Até 2040, o Brasil deverá gerar cerca de 100 milhões de toneladas de lixo a cada ano. O Plano Nacional de Resíduos Sólidos estima que 34% desse total seja reciclado e receba tratamento biológico. Já os outros 66% poderiam ser destinados à recuperação energética. No Brasil, é preciso termos um mix de soluções, incluindo os aterros, para aportar valor aos resíduos. Sendo assim, aterros sanitários ainda são necessários no país, principalmente quando possuem tecnologias para viabilizar a recuperação do lixo, seja por meio de reciclagem ou geração de energia. Mas é sempre bom lembrar que aterro é diferente de "lixão".

Na Veolia, por exemplo, estamos caminhando para transformar nossos Centros de Gerenciamento de Resíduos (CGR) em parques tecnológicos ambientais, com o objetivo de reciclar mais, produzir energia circular e aterrar menos. Já iniciamos esse processo com a valorização do biogás, transformando o gás que é emitido durante a decomposição dos resíduos em energia elétrica. Em três de nossos CGRs aqui no Brasil operamos usinas termelétricas de valorização energética de biogás, que somam aproximadamente 12,4 MW de potência instalada, o equivalente ao abastecimento de cerca de 40 mil habitantes. Esse projeto evita a emissão de 1,2 milhão de toneladas de CO2 por ano.

As soluções não são apenas para aterros ou setores públicos, para as indústrias, uma tendência ambientalmente e financeiramente sustentável é a geração própria de energia que permite a troca do custo variável no mercado de energia pelo custo fixo, oferecendo maior previsibilidade. Em uma indústria alimentícia, desenvolvemos uma solução que produzirá energia elétrica a partir da valorização de 95 mil toneladas por ano de casca de arroz. Isso significa que os resíduos que seriam destinados para aterros sanitários serão valorizados para contribuir com  uma matriz energética limpa e aportando nas metas de descarbonização. Outra  fonte potencial de energia provém dos lodos das estações de tratamentos de efluentes municipais, que ainda hoje é pouco explorado. Na Veolia, por exemplo, já realizamos este aproveitamento em duas grandes estações de tratamento de efluentes em Santiago, no Chile, conhecidas como Biofactorías de Águas Andinas.

Como podemos perceber, o caminho está na junção e participação de diferentes setores da economia, incluindo o público, o privado e as organizações não governamentais. Somente por meio de uma estratégia multifacetada será possível alcançar o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável da ONU (Organização das Nações Unidas), que busca garantir acesso à energia barata, confiável, sustentável e renovável para todos.

 

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