A guerra que não se vê: cabos, dados e poder em Ormuz

Há uma imagem que os mercados ainda não incorporaram adequadamente ao preço do risco: no fundo do Estreito de Ormuz, a menos de trinta quilômetros de largura em seu ponto mais estreito, repousam dezenas de cabos de fibra ótica que sustentam uma parcela significativa da internet global. Não é apenas petróleo o que passa por ali. São dados. São os modelos de linguagem, os serviços de computação em nuvem, as transações financeiras em tempo real, a infraestrutura invisível sobre a qual a economia digital do século XXI foi construída.
A discussão sobre Ormuz costuma girar em torno do barril de petróleo. É uma discussão legítima, mas incompleta. O conflito em curso no Oriente Médio introduziu uma nova dimensão de risco sistêmico que vai muito além da oferta de energia, e que afeta diretamente as grandes empresas de tecnologia, os mercados de capitais e qualquer economia que dependa de conectividade digital para operar. Ou seja, todas.
A escala do problema é concreta. Pelo menos 17 sistemas de cabos de fibra ótica submarinos percorrem o Golfo Pérsico e o Estreito de Ormuz, incluindo os sistemas AAE-1, FALCON, Gulf Bridge International, EPEG e SMW5. Juntamente com as rotas que atravessam o Mar Vermelho, eles respondem por uma parcela estimada entre 17% e 30% do tráfego global de internet nos corredores que conectam Ásia, Europa e África. Esses cabos não transportam apenas mensagens e vídeos: sustentam os serviços de cloud da Amazon, do Google e da Microsoft, os sistemas financeiros internacionais e os projetos de inteligência artificial que florescem nos grandes centros de dados dos Emirados Árabes Unidos e da Arábia Saudita, duas das economias que mais investiram em infraestrutura de IA nos últimos anos.
A ameaça não é hipotética. Com semanas de conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, o risco de dano a essa infraestrutura tornou-se suficientemente concreto para paralisar projetos bilionários. A Meta suspendeu parte do 2Africa, sistema planejado com 45 mil km de extensão. A Alcatel Submarine Networks interrompeu a instalação do mesmo projeto por falta de segurança operacional. As obras dos sistemas Sea-Me-We 6 e FIG também estão paralisadas. Não se trata de precaução marginal, trata-se de decisões de empresas que medem risco com precisão e que estão, neste momento, redesenhando a geografia da internet global para contornar o Oriente Médio.
A resposta estratégica das big techs é reveladora. A Meta anunciou o Projeto Waterworth, um cabo de mais de 50 mil quilômetros, maior que a circunferência da Terra, conectando Estados Unidos, Brasil, Índia e África do Sul, deliberadamente roteado para evitar os gargalos do Mar Vermelho e do Golfo Pérsico. É um investimento de vários bilhões de dólares motivado, em parte, pela instabilidade geopolítica de uma região onde a guerra tornou-se variável de engenharia. Quando uma empresa recalibra sua infraestrutura global para desviar de um conflito, o mercado deveria ler esse movimento pelo que ele é: uma precificação concreta do risco.
Mas há uma pergunta que os analistas de risco raramente fazem: o que sinalizou, antes da guerra, que essa região caminhava para a instabilidade que hoje ameaça a infraestrutura digital global?
A resposta existe, e tem sido sistematicamente ignorada.
Não é coincidência que as regiões que hoje concentram os maiores riscos para a infraestrutura digital global sejam as mesmas onde o discurso de eliminação do outro foi normalizado por décadas, nas escolas, nas mesquitas, nos meios de comunicação estatais e nos currículos. Esse não é um julgamento moral retrospectivo. É uma observação estrutural: sociedades que normalizam o ódio contra minorias não desenvolvem, simultaneamente, as instituições, os freios e os contrapesos que tornam possível a previsibilidade de longo prazo. E previsibilidade de longo prazo é exatamente o que cabos submarinos, data centers e projetos de inteligência artificial exigem para ser viáveis.
Foi Ahmed Shaheed, Relator Especial da ONU sobre Liberdade de Religião ou Crença, muçulmano, das Maldivas, sem qualquer vínculo com o Estado de Israel, quem formulou com maior precisão esse encadeamento: o crescimento da intolerância e antissemitismo costuma sinalizar a erosão dos valores democráticos.
Não é uma afirmação moral, é uma constatação empírica com décadas de evidência histórica. O antissemitismo raramente precede apenas a perseguição aos judeus. Ele precede, de forma recorrente, a ruptura institucional, o colapso das garantias democráticas e a instabilidade que torna regiões inteiras imprevisíveis para o investimento e para a operação de infraestrutura crítica.
Mercados operam sobre previsibilidade. Inteligência artificial opera sobre infraestrutura. E infraestrutura opera sobre estabilidade institucional. Quando o antissemitismo se expande, nas ruas, nas universidades, nas redes sociais, nos discursos que encontram audiência respeitável em seminários acadêmicos e governamentais, ele não está apenas ameaçando uma minoria. Está corroendo o substrato sobre o qual economias modernas funcionam.
Esse encadeamento tem implicações diretas para a análise de risco corporativo e para as decisões de investimento. Os modelos ESG evoluíram significativamente na última década, incorporaram risco climático, risco de governança, risco social. Mas ainda tratam a intolerância estrutural, como o antissemitismo, como variáveis morais, e não como indicadores econômicos.
Esse é um erro analítico com consequências práticas. Uma região que normaliza o discurso de ódio contra minorias é uma região que sinaliza, antecipadamente, a fragilidade de suas instituições. E instituições frágeis não protegem contratos, não garantem a operação de infraestrutura crítica e não oferecem o ambiente de previsibilidade que investimentos de longo prazo, como cabos submarinos, data centers e projetos de IA, exigem para ser viáveis.
O custo dessa cegueira analítica está sendo contabilizado agora, em bilhões de dólares de projetos paralisados, em rotas de cabos que precisam ser redesenhadas por continentes inteiros, em meses de potencial interrupção de serviços que a economia digital global simplesmente não pode se dar ao luxo de perder.
Para o Brasil, a leitura desse cenário tem uma dimensão estratégica própria. O país está posicionado para se tornar um dos principais pontos de aterrissagem da nova geografia digital. Fortaleza, capital do Ceará, já abriga 16 cabos submarinos internacionais e é candidata natural a receber o Projeto Waterworth. A instabilidade em Ormuz, paradoxalmente, acelera esse movimento, porque redireciona investimentos em infraestrutura para rotas alternativas que passam pelo Atlântico Sul.
Mas capturar essa oportunidade exige mais do que infraestrutura portuária e incentivos fiscais. Exige que o Brasil ofereça, como ativo intangível, aquilo que a região de Ormuz não consegue mais garantir: previsibilidade institucional, respeito ao Estado de direito e intolerância zero com os discursos que, historicamente, precedem a ruptura. Isso inclui nomear o antissemitismo com clareza, não como pauta de uma comunidade, mas como indicador precoce de instabilidade democrática que qualquer investidor de longo prazo deveria ter no seu radar.
O Estreito de Ormuz sempre foi um gargalo de poder. Durante décadas, o mundo calibrou esse risco em barris por dia. Está na hora de calibrá-lo também em terabits por segundo, e de aprender a ler, nas manifestações de intolerância que antecedem os conflitos, o sinal que os modelos de risco insistem em ignorar.
Guerras têm custos visíveis e invisíveis. Os cabos no fundo do mar pertencem à segunda categoria. Mas os sinais que anunciam as guerras são sempre visíveis, para quem decide enxergá-los.
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