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Valmir Dias

Valmir Dias- Gerente Nacional de Energia e Descarbonização na Embaixada Britânica no Brasil

A nova disputa global por energia limpa passa pelo Brasil

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A corrida global por tecnologias de baixo carbono deixou de ser apenas uma agenda ambiental para se consolidar como um vetor central de competitividade econômica, segurança energética e reposicionamento geopolítico. Em um contexto de intensificação de eventos climáticos menos previsíveis e mais extremos — associados ao aquecimento global já superior a 1,1°C em relação aos níveis pré-industriais — e de crescente fragmentação das cadeias produtivas, países capazes de produzir energia limpa em larga escala passaram a ocupar posição estratégica na economia mundial. Nesse cenário, o Brasil amplia sua relevância geopolítica e econômica ao fortalecer a cooperação internacional para acelerar a transição energética e alcançar sua meta de reduzir entre 59% e 67% das emissões de gases de efeito estufa até 2035.

Poucos países reúnem condições tão favoráveis para liderar essa transformação. Dados do Balanço Energético Nacional de 2025 (BEN) indicam que cerca de 88,2% da geração de eletricidade no Brasil provém de fontes renováveis, um patamar superior à medida das economias da OCDE, embora ainda enfrente desafios importantes relacionados à infraestrutura e à redução de emissões associadas ao desmatamento e ao uso da terra. Soma-se a isso o peso diplomático brasileiro nas negociações internacionais sobre clima e sustentabilidade, consolidando o país como parceiro estratégico para nações que buscam acelerar seus processos de descarbonização, como o Reino Unido.

Essa aproximação entre Brasil e Reino Unido reflete uma convergência de interesses econômicos, climáticos e industriais. Formalizado através da Parceria Estratégica Reino Unido–Brasil 2026–2030, o governo britânico tem direcionado investimentos e cooperação técnica para apoiar projetos voltados à economia de baixo carbono no Brasil, ao mesmo tempo em que busca fortalecer cadeias globais ligadas às tecnologias limpas.

Um dos principais instrumentos dessa parceria é o UK PACT (Parceria para a Transição Climática Acelerada), iniciativa que já apoia dezenas de projetos no país em áreas como hidrogênio de baixo carbono, descarbonização industrial, eficiência energética, bioeconomia e monitoramento climático, contribuindo diretamente para a implementação da NDC brasileira, compromisso oficial no âmbito do Acordo de Paris para redução dos Gases do Efeito Estufa (GEE). O programa busca acelerar iniciativas já existentes por meio de capacitação técnica, apoio regulatório e recursos financeiros, em articulação com órgãos como o Ministério de Minas e Energia e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.

No campo do financiamento climático, destaca-se o Climate Investment Funds (CIF), um dos maiores fundos multilaterais de financiamento climático do mundo. A chamada pública lançada em 2024 para polos industriais de hidrogênio viabilizou R$ 6 bilhões em investimentos para hubs de hidrogênio e outros R$ 3 bilhões destinados a projetos ligados à agricultura sustentável e à economia verde.

Entre as tecnologias estratégicas para a descarbonização global, o hidrogênio de baixo carbono desponta como uma das maiores apostas brasileiras. Produzido a partir da eletrólise da água utilizando energia renovável, o chamado hidrogênio verde é visto como alternativa promissora para substituir combustíveis fósseis em setores de difícil eletrificação, como siderurgia, transporte pesado e produção de fertilizantes.

Além de permitir armazenamento e transporte de energia limpa, o hidrogênio pode abastecer veículos por meio de células a combustível e substituir carvão, gás natural e derivados de petróleo em processos industriais intensivos em energia. Trata-se de uma peça-chave na construção de uma economia global de baixo carbono.

O Brasil apresenta vantagens estruturais relevantes para o desenvolvimento do setor, incluindo alta disponibilidade de recursos renováveis, fator de capacidade elevado em fontes eólica e solar e potencial para produção a custos competitivos. A cooperação internacional, agregando a indústria e sociedade civil, tem sido um vetor importante para catalisar o aperfeiçoamento regulatório, infraestrutura de transporte e armazenamento, integração com mercados internacionais e acesso a financiamento de longo prazo. Nesse cenário, o Programa Nacional do Hidrogênio (PNH2) representa um passo importante para estruturar o setor e ampliar a competitividade brasileira no mercado internacional de energia limpa.

Outro eixo estratégico da cooperação entre Brasil e Reino Unido está no avanço das eólicas offshore. Estudos do Banco Mundial estimam que o Brasil possua mais de 1.200 GW de potencial técnico para geração eólica em alto-mar, incluindo tecnologias de base fixa e flutuante. Em cenários mais ambiciosos, a capacidade instalada pode atingir até 96 GW até 2050, contribuindo de forma significativa para a diversificação da matriz elétrica e para a redução da variabilidade hidrológica.

Desde 2024, o governo federal segue avançando na regulamentação da indústria ao estabelecer regras para cessão de áreas marítimas, etapa fundamental para viabilizar leilões e atrair investimentos. Além de ampliar a oferta de energia renovável, a expectativa é que essa nova cadeia produtiva impulsione a infraestrutura portuária, a fabricação de equipamentos e o desenvolvimento tecnológico.

Apesar dos avanços, a transição energética nacional ainda enfrenta desafios estruturais importantes não exclusivos do Brasil. O principal deles está na infraestrutura necessária para conectar novas fontes de energia aos centros de consumo e às cadeias industriais. Grande parte do potencial de geração renovável do país está distante dos principais polos industriais, exigindo investimentos robustos em transmissão de energia e logística.

Além disso, o perfil brasileiro de emissões apresenta características distintas de outras grandes economias. Dados do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) mostram que a maior parte das emissões nacionais ainda está associada ao desmatamento e à agropecuária, enquanto os setores de energia e indústria têm participação proporcionalmente menor. Esse cenário reforça a necessidade de instrumentos de abordagem integrada, como a Estratégia Nacional de Descarbonização da Indústria (ENDI), capitaneada pelo MDIC e lançada na COP30 com apoio do Governo Britânico.

Em um ambiente internacional marcado por competição tecnológica, políticas industriais verdes e pressão por segurança energética, o Brasil reúne condições raras: abundância de recursos naturais, matriz elétrica amplamente descarbonizada e capacidade de articulação internacional. Transformar esse potencial em liderança econômica atravessa a aceleração de investimentos, fortalecimento de marcos regulatórios e consolidação de parcerias internacionais, necessários para impulsionar uma nova economia de baixo carbono.

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