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Monica Kruglianskas

Monica Kruglianskas- diretora de Sustentabilidade e Parcerias da FIA Business School

A transição não cabe mais dentro das empresas

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A agenda da sustentabilidade corporativa avançou rapidamente nos últimos anos. Saiu da periferia e passou a influenciar decisões centrais de investimento, financiamento e posicionamento competitivo. Hoje, variáveis como custo de capital, acesso a mercados, segurança energética e resiliência operacional já refletem, de forma concreta, como empresas lidam com clima, recursos naturais e suas cadeias produtivas.

Mas há um ponto menos evidente, e mais estrutural: a transição deixou de ser apenas um desafio empresarial. Tornou-se um problema de poder, coordenação e governança.

O que está em curso não é apenas uma agenda ambiental. É uma reorganização profunda da economia global, em torno de energia, terra, água, minerais e tecnologia. Uma transição de recursos que redefine cadeias produtivas, relações comerciais e posições de poder entre países e empresas.

Nesse contexto, decisões críticas para os negócios (regras de comércio, padrões regulatórios, acesso a financiamento e tecnologias) são definidas em arenas fragmentadas, muitas vezes desconectadas da realidade de implementação.

O resultado é um desalinhamento crescente.

Empresas são cobradas por metas climáticas, rastreabilidade e transparência, mas operam em um ambiente marcado por instabilidade regulatória, tensões geopolíticas e ausência de coordenação entre política pública, financiamento e infraestrutura.

Esse desalinhamento revela um problema mais profundo: o modelo atual de governança - climática e econômica - não reflete quem de fato executa a transição.

Estados continuam sendo os principais agentes formais de decisão. Mas a implementação, e seus custos, recai sobre empresas, cadeias produtivas e territórios. Ainda assim, não existe um espaço estruturado onde esses atores possam participar legitimamente da construção dessa agenda.

A própria COP30, sob liderança do Brasil, sinalizou esse descompasso ao se apresentar como uma COP voltada à implementação e ao buscar maior integração com o setor privado. No mesmo sentido, iniciativas no âmbito dos BRICS vêm reconhecendo a necessidade de articular capital público e privado para viabilizar a transição, com destaque para o papel de bancos de desenvolvimento e novos instrumentos financeiros.

Esses movimentos são relevantes porque mostram que o problema já começou a ser reconhecido. Mas ainda operam mais no plano do reconhecimento do que no da resolução.

A COP30 reconheceu o problema, mas não o resolveu.

Esse vazio já começa a ser ocupado, ainda que de forma imperfeita. Empresas atuam politicamente o tempo todo: influenciam regulamentações, moldam mercados, ajudam a definir padrões e direcionam capital. Mas fazem isso de forma fragmentada, muitas vezes reativa e sem mecanismos claros de coordenação ou accountability.

É aqui que emerge uma distinção essencial. Há diferença entre captura de agenda (quando interesses privados moldam regras em benefício próprio) e agência política responsável, quando empresas atuam coletivamente para viabilizar soluções que não podem ser resolvidas individualmente. Essa segunda forma de atuação se manifesta em espaços pré-competitivos.

No transporte marítimo internacional, por exemplo, a agenda de descarbonização ajuda a ilustrar essa dinâmica. A Organização Marítima Internacional continua sendo o espaço formal no qual as regras são definidas. Ao seu redor, no entanto, diferentes iniciativas vêm ganhando relevância, reunindo empresas, especialistas e organizações internacionais para discutir rotas tecnológicas, padrões e infraestrutura necessários para a transição do frete global.

Esses arranjos não substituem a governança formal, mas ajudam a tornar viável o que, de outra forma, permaneceria apenas no plano das metas: antecipam soluções, reduzem incertezas e constroem algum grau de convergência entre atores que operam sob interesses distintos.

O que se forma, na prática, não é uma arquitetura formal, mas um campo de interação em que soluções são testadas antes de se tornarem regra, e em que parte relevante da coordenação já ocorre fora dos mecanismos tradicionais.

Ao mesmo tempo, esse avanço traz riscos evidentes. A crescente concentração de poder em grandes empresas, especialmente em setores como tecnologia, levanta questionamentos legítimos sobre transparência, accountability e legitimidade. Sem esses elementos, o risco não é apenas de ineficiência, mas de substituição de uma governança pública insuficiente por uma governança privada sem contrapesos.

O desafio, portanto, não é ampliar ou reduzir abstratamente o papel das empresas, mas estruturá-lo de forma legítima.

A transição não está travada apenas por falta de tecnologia ou capital. Está limitada por um déficit de governança capaz de integrar interesses, alinhar incentivos e distribuir responsabilidades.

Países como o Brasil ocupam posição singular nesse cenário. Com ativos estratégicos (energia, biodiversidade, terras e capacidade produtiva), podem exercer papel relevante na reorganização global.

Em um ambiente marcado por fragmentação geopolítica e crescente interdependência econômica, países com esse perfil têm a capacidade de operar entre diferentes interesses e agendas, contribuindo para viabilizar soluções em contextos onde a coordenação tradicional já não é suficiente.

Esse papel tem sido cada vez mais reconhecido em debates internacionais que apontam para a necessidade de maior articulação entre política pública, sistema financeiro e setor produtivo, ainda que os mecanismos para isso permaneçam incipientes.

Mas transformar esse potencial em liderança depende menos dos recursos disponíveis e mais da capacidade de participar, e influenciar, a arquitetura que define como essa transição acontece.

O que começa a se tornar evidente é que a transição não será organizada apenas pelas estruturas existentes, e tampouco apenas pelos atores tradicionais.

Novos arranjos, ainda em formação, começam a ocupar esse espaço de coordenação entre política, capital e execução. Alguns desses espaços surgem em iniciativas internacionais; outros começam a ser construídos a partir de contextos nacionais, conectando empresas, formuladores de política e sistema financeiro em torno de desafios concretos da transição.
A questão não é mais se eles vão emergir, mas sob quais princípios – e com quais mecanismos de legitimidade.

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