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Telmo Ghiorzi

Telmo Ghiorzi- Presidente da ABESPetro (Associação Brasileira das Empresas de Bens e Serviços de Petróleo)

A Verdeplexidade e “o Brasil é pobre, mas é limpinho”

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O Brasil é pródigo em ditados populares e bordões. Um dos mais conhecidos, famoso na voz de Sirene, personagem de Claudia Rodrigues no seriado "Sai de Baixo", é o “sou pobre, mas sou limpinha”. A expressão tem origem controversa e significa algo próximo de: a dignidade, a higiene e outros cuidados não dependem da renda das pessoas.

O Brasil, no que se refere à sua economia e à sua matriz energética, encarna com precisão a contradição deste bordão. Entre as grandes economias continentais, ocupamos posição invejável na participação das renováveis. Nos indicadores de produtividade e renda, porém, nossa posição é muito menos confortável. Somos pobres. Mas somos limpinhos.

A experiência histórica sugere que países continentais e populosos dificilmente alcançam desenvolvimento sustentado sem uma base produtiva sofisticada, na qual a indústria desempenha papel central. Uma economia fortemente baseada em recursos naturais pode sustentar elevada renda em países pouco populosos e excepcionalmente dotados desses recursos. O Brasil tem abundância de recursos naturais, mas sua população de mais de 210 milhões de habitantes dificulta superar sua pobreza socioeconômica com estrutura produtiva excessivamente concentrada na extração e exportação de bens primários.

Temos abundância de recursos energéticos, mas nossa renda é baixa, em parte associada à nossa baixa complexidade produtiva e industrial. Até mesmo a energia, recurso abundante no Brasil, é cara em relação à renda média do brasileiro. O que nos leva ao curioso paradoxo de abundância e preço de escassez para os mesmos recursos.

A China, ao contrário do Brasil, tem matriz energética com cerca de 88% proveniente de fontes fósseis, conforme dados da plataforma Our World in Data. Mas já ultrapassou o Brasil em indicadores relevantes de renda e desenvolvimento e, simultaneamente, tornou-se o principal polo industrial de várias tecnologias necessárias à transição energética.

Entre outras maneiras de explicar este cenário, aparece o conceito de Verdeplexidade. Tradução livre do conceito de Greenplexity, criado pelo GrowthLab, da Harvard Kennedy School.

A Verdeplexidade busca responder à pergunta: como um país pode crescer contribuindo para a descarbonização do mundo?

A instituição criou um indicador de Verdeplexidade, que captura a diversidade e a complexidade da estrutura produtiva de um país com relação às cadeias produtivas associadas à transição energética.

O indicador mostra a China na posição 5, mantendo-se estável no período 2018-2023. E mostra o Brasil na posição 71, tendo caído 10 posições no mesmo período. Ou seja, o Brasil permanece entre os países com matriz energética mais limpa do mundo. Mas vem perdendo complexidade e poder industrial. Estamos ficando cada vez mais limpos e cada vez mais pobres em capacidades produtivas.

O cenário reflete escolhas que caracterizam o Brasil há séculos. O problema não é produzir petróleo, gás, minérios ou produtos agropecuários. O problema é não transformar essas vantagens em tecnologia, engenharia, equipamentos e fornecedores competitivos. No caso da energia, faltam ao Brasil estratégias explícitas para dominar a capacidade de produzir painéis solares, turbinas eólicas, baterias e outras tecnologias da transição energética.

Não há aqui contradição insuperável. Ao contrário, no caso do Brasil é possível, desejável e quase inevitável que, se avançarmos em Verdeplexidade, avancemos também na fração de renováveis em nossa matriz energética. O desafio brasileiro, portanto, não é deixar de ser limpinho. É transformar nossa vantagem energética em capacidades tecnológicas, complexidade industrial e renda. Podemos ser limpos e ricos.

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