Bacen: Além da Vanguarda

Julho de 1994 foi marcante para nós, brasileiros, por dois motivos. No dia 17, o dramático triunfo sobre a Itália, nos pênaltis, devolveu-nos a hegemonia do futebol mundial, depois de 24 anos de jejum, com cinco dolorosos fracassos em Copas do Mundo. Outra importantíssima vitória do Brasil ocorreu no dia primeiro. A entrada em circulação do Real sacramentou o sucesso na luta contra a hiperinflação crônica que nos assombrava há mais de uma década.
Desde então, muita coisa aconteceu. Nos gramados, estivemos nas duas finais de Copa seguintes, ganhando uma delas. Depois disso, colecionamos, novamente, cinco fracassos, incluindo um dos maiores vexames da nossa história futebolística. No front da política monetária, acumulamos, nesses quase 29 anos, cerca de 670% de inflação. Pode parecer muito, mas é uma grande conquista da autoridade monetária quando consideramos os 757% registrados, apenas, no primeiro semestre de 1994. Enquanto o nosso futebol perdeu o status de outrora, nosso Banco Central galgou um lugar entre os mais prestigiados do mundo, e isso vai além de sua atuação no controle da inflação.
Um grande caso de sucesso foi o lançamento do PIX, em outubro de 2020. O sistema de transferências e pagamentos instantâneos caiu no gosto da população. Em março de 2023, com quase 600 milhões de chaves cadastradas, foram registradas 2,5 bilhões de transações, somando 1,3 trilhão de reais movimentados. Diversos outros bancos centrais têm buscado aprender sobre o PIX para replicá-lo localmente.
Mas o nosso Banco Central não parou por aí. Em 2022, foram anunciadas as diretrizes do Real Digital, a CBDC (sigla em inglês para moeda digital do banco central) brasileira. Esse ano, além do lançamento do projeto-piloto, no último dia 6 de março, foram apresentados mais detalhes sobre a visão do Bacen para a nova moeda digital. O modelo escolhido foi uma blockchain permissionada, inspirada no Ethereum e compatível com seus smart contracts. Nas apresentações, fica claro como o Banco Central entende o valor da tecnologia blockchain e vislumbra uma economia tokenizada. Inclusive, no escopo do projeto, está prevista a tokenização do mercado de títulos públicos federais.
Outro campo no qual o nosso Banco Central se destaca é na gestão de reservas internacionais, tendo sido eleito o melhor nessa categoria do Central Banking Awards 2023. O prêmio foi um reconhecimento pela gestão inovadora, com a inclusão de novos instrumentos financeiros e classes de ativos, entre outros aprimoramentos.
Não há dúvidas que o Banco Central do Brasil está na vanguarda mundial, mas é possível ir além. Por um lado, nosso Bacen enxerga as potencialidades da tecnologia blockchain e suas aplicações. Por outro, tem um viés de inovação na gestão das reservas internacionais. Por que não unir as duas vertentes e alocar uma pequena parcela das reservas internacionais em
criptoativos? Do ponto de vista regulatório, não há impedimentos, uma vez que a Resolução 175 da CVM classifica os criptoativos como ativos financeiros.
Porém, há outras questões a serem sanadas. Quais criptoativos deveriam ser considerados? Um candidato natural é o Bitcoin, por ser o mais antigo, mais seguro (em termos de custo de ataque à rede), maior em capitalização de mercado, mais líquido e menos volátil representante dessa classe, além de ser o único entre os mais relevantes cujo principal caso de uso almejado é como reserva de valor.
Apesar de ter a menor volatilidade dentre os ativos digitais, o Bitcoin é muitas vezes mais volátil que os ativos que tradicionalmente compõem reservas internacionais. Isso nos leva à questão do risco. Quanto poderíamos adicionar de Bitcoin às nossas reservas sem alterar o seu perfil de risco? Para responder a essa pergunta, podemos recorrer ao Relatório de Gestão das
Reservas Internacionais de março de 2023, que contém informações que nos permitem reconstituir com boa precisão a carteira das reservas ao final de 2022.
Com base nela, podemos concluir que, diluindo-se todos os constituintes na mesma proporção, poderíamos adicionar 0,80% de Bitcoin mantendo a mesma volatilidade observada no ano passado. Se a decisão fosse por diluir somente as parcelas em dólar australiano ou ouro, poder-se-ia acrescentar 0,86% e 1,03% de Bitcoin, respectivamente. Independentemente da classe escolhida para ceder espaço, caberia, pelo menos, 0,70% do ativo digital sem aumento da volatilidade. Esse pode ser considerado um nível seguro para a inclusão de Bitcoin nas reservas internacionais brasileiras.
Além de ser um ativo de alto potencial de valorização, o Bitcoin possui outros apelos para fins de reservas internacionais. De acordo com Matthew Ferranti, economista de Harvard, o Bitcoin pode funcionar como um seguro contra sanções. O exemplo recente do confronto entre Rússia e Ucrânia, no qual os russos tiveram centenas de bilhões de dólares de reservas congeladas e perderam acesso ao sistema de pagamentos internacionais Swift, alerta para a importância dessa questão. Os bancos centrais mundo afora têm aumentado a participação do ouro em suas reservas. No caso do Brasil, as reservas em ouro triplicaram nos últimos seis anos. O Bitcoin pode desempenhar um papel semelhante, com custos substancialmente menores de estocagem e de transferência.
É difícil argumentar que o valor ótimo de Bitcoin nas reservas internacionais do Brasil seja zero. O nosso Banco Central está em uma condição privilegiada de dar esse passo e tornar-se pioneiro global também nesse aspecto.
De volta ao futebol, nossa seleção terá, em 2026, a chance de repetir a história, encerrando o jejum de cinco Copas do Mundo jogando na América do Norte. Ainda paira a dúvida sobre quem será o técnico a comandar o nosso escrete nessa jornada. Já o Bacen tem seu comandante definido até o final de 2024. Roberto Campos Neto já tem tudo para deixar o legado de um legítimo craque da função. Se, além disso, inovar adicionando Bitcoin às nossas reservas internacionais será um verdadeiro gol de placa.
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