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Camila Funaro Camargo Dantas

Camila Funaro Camargo Dantas- CEO da Esfera Brasil e do Instituto Esfera de Estudos e Inovação

CARDE como metáfora: o museu onde o Brasil acelera com arte

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Ao subir a Serra da Mantiqueira em direção a Campos do Jordão, o visitante se depara com um edifício que dialoga com a paisagem e anuncia o convite: uma imersão na história do Brasil pela lente da arte, do design e da inovação. O CARDE — Carros, Arte, Design e Educação — criado pela Fundação Lia Maria Aguiar e conduzido por Luiz Goshima, assume posição simbólica e concreta nesse panorama.

Logo no Grande Hall, o visitante encontra um automóvel Brasinca Uirapuru suspenso por um cajueiro metálico, cujos galhos são cobertos por folhas de crochê produzidas por artesãs do Instituto Proeza. A instalação concebida pelo artista indígena Rudá Jenipapo subverte o carro industrial e o transforma em símbolo de ancestralidade e delicadeza. É ali que a metáfora se inicia: o Brasil pode acelerar, sim, mas com raízes, sensibilidade e arte.

Ao longo das nove salas temáticas, que estruturam o percurso curatorial, o museu combina ícones da indústria automotiva mundial com obras emblemáticas da arte brasileira. Em uma delas, o Duesenberg Model J (1930) contracena com uma série de murais de Cândido Portinari. A justaposição não é acidental: remete à modernização desigual do país, à convivência entre a opulência mecânica e a luta social expressa nas mãos calejadas que Portinari imortalizou.

Mais adiante, a geometria construtiva de Tarsila do Amaral encontra eco na elegância de um Porsche 356. Em outra sala, a visceralidade de Frans Krajcberg, marcada por esculturas de troncos carbonizados, reflete-se ao lado de modelos que simbolizaram a virada ecológica na engenharia automotiva — criando um contraponto estético e ético que atravessa o espaço expositivo.

A visita é fluida e intergeracional. Crianças e jovens exploram simuladores como o da Ferrari 512 TR, descobrindo a complexidade da engenharia. Adultos e idosos revivem memórias de um país que já sonhou com seu próprio automóvel nacional — como o Gurgel Itaipu E-400 ou o FNM JK — e agora o reencontra como patrimônio cultural.

Essa integração entre arte, tecnologia e educação não é casual. Segundo a UNESCO, países que investem em cultura e criatividade ampliam significativamente sua capacidade de inovação e seus índices de crescimento sustentável. O Banco Mundial aponta que a economia criativa já responde por mais de 3% do PIB global, gerando 30 milhões de empregos. Cultura é também política de desenvolvimento.

No CARDE, essas premissas ganham forma. A Escola de Restauro, instalada dentro do museu, qualifica jovens da região para atuar em conservação automotiva — da tapeçaria à funilaria, da carpintaria ao motor. É um ciclo completo: preservação da memória, geração de renda e formação técnica.

Na Esfera, temos trabalhado com a convicção de que cultura e progresso são forças indissociáveis. Nosso esforço está voltado à construção de pontes entre o setor privado e propostas que contribuam para uma economia mais sofisticada, inclusiva e criativa. O CARDE é exemplo vivo desse horizonte: um espaço onde passado e futuro conversam por meio da beleza, da educação e da sensibilidade.

Ao final da visita, num momento de silêncio orientado por acelerações visuais e sonoras, compreendemos que o CARDE não é apenas um museu. É metáfora de um Brasil que encontra na arte — e na sua própria história — o impulso para acelerar com inteligência, justiça e imaginação.

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