Como ficam os investimentos distressed no atual cenário econômico?

O cenário político e macroeconômico no mundo, após três anos de uma crise sanitária e uma extensa guerra, sacudiu a cadeia de suprimentos global e gerou questões inflacionárias preocupantes. Ainda é cedo para dizer, mas começam a aparecer indicadores na direção de uma recessão moderada em vez de uma depressão econômica nas economias desenvolvidas, apesar de esta situação estar longe de ser descartada.
O quadro que se desenha para 2023 é desafiador. O cenário no Brasil desde o ano passado, prévio às eleições, tem sido marcado por muitas incertezas, mudanças de marcos regulatórios, juros insistentemente altos, um crescimento menor, dúvidas fiscais e uma redução mais lenta do que o esperado da inflação. Para se ter ideia, de acordo com o Boletim Focus, do Banco Central, a expectativa para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu para 5,74% em 2023, para 3,90% em 2024, nos dois casos acima da meta.
Especificamente para os investimentos alternativos focados em distressed e special situations, temos a maior inadimplência da história no varejo, chegando ao Middle Market e, talvez, ao Upper Middle, que somados a um endividamento no mais alto patamar histórico gera um quadro difícil para o Brasil, mas muito oportuno para esse tipo de alocação. Juros em patamares altos favorecem os fundos de crédito; por outro lado, a permanência extensa de juros nesses níveis aumenta a inadimplência e, portanto, podem impactar negativamente os investimentos nesses fundos.
Especialmente os investimentos distressed, que compram créditos inadimplidos e buscam sua recuperação muitas vezes através de investigação patrimonial, são um importante “hedge” natural e descorrelacionados com outros investimentos. A maioria esmagadora das empresas sofreu financeiramente durante a pandemia causada pela covid-19 e muitas vão precisar de soerguimento da sua estrutura de capital. Empresas que jamais tinham enfrentado cenários de renegociação de suas dívidas, pela primeira vez, precisaram de reestruturação neste setor.
Recentemente, houve uma melhoria substancial do Marco Regulatório da Insolvência, com alterações importantes na Lei de Recuperação Judicial (RJ) e Falências, com destaque para o plano dos credores, no caso da RJ, e da velocidade de leiloar os bens antes de sua depreciação, no caso da falência. Em ambos os casos com o efeito prático do aumento da recuperabilidade dos créditos.
Essa modernização do arcabouço jurídico no que diz respeito à insolvência, combinada com o recorde no provisionamento no balanço dos bancos — que deve seguir persistente nos próximos anos — e com um aumento na qualidade das empresas devedoras pelo estrago causado pela covid-19, faz com que a perspectiva dos investimentos alternativos focados em distressed seja de retornos consistentes e em níveis elevados. Além de apresentarem um comportamento independente e descorrelacionado das principais modalidades de investimento tradicionais, os fundos de ativos estressados e em situações especiais têm o papel importante de prover liquidez em um cenário desafiador para nossa sociedade e mercado.
Já estamos assistindo o desafio que este cenário representa na crise no mercado de crédito, ainda que cada nome tenha sua peculiaridade, que atinge empresas como Americanas, Marisa, Light e mesmo a recente decretação da falência da Livraria Cultura.
Como ainda é cedo para dizer até onde a inadimplência recorde vai levar a crise no mercado de crédito, e sobre outro aspecto quais serão as oportunidades para 2023, afinal, onde há crise, há riscos e oportunidades.
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