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    • Augusto Licks - Jornalista e músico
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    • Augusto Licks - Jornalista e músico

      Augusto Licks é jornalista e músico gaúcho, radicado no Rio de Janeiro.

      Foi guitarrista da banda Engenheiros do Hawaii, editor e colunista de veículos de comunicação do Rio Grande do Sul e São Paulo.

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    opinião

    Consequência, causa, e agravantes

    Aqui vai uma rápida análise, me baseando em tudo que já vi e conheço, e pautada sempre no discernimento entre fatos e contexto.

    A equação lógica da grande catástrofe de 2024 no RS se mede em 3 aspectos: as consequências, as causas, e fatores agravantes. Essa inversão cronológica se justifica pela urgência imediata de a sociedade socorrer a si mesma, e nesse sentido convergem ações do poder público com iniciativas voluntárias de cidadãos.

    É o cenário típico após um evento extremo da natureza, que é a causa, impossível de evitar. Os cientistas saberão explicar com autoridade como ele acontece, a configuração rara que envolve parâmetros como, por exemplo, o fenômeno El Niño. Igual, algo assim não pede licença, já aconteceu antes, e arrisco supor que acontecerá de novo daqui a mais de meio século ou menos.

    Restam então os fatores agravantes, que compreensivelmente não são assunto imediato diante dos esforços para se administrar as consequências da destruição geral e para atender o sofrimento humano.

    A pauta, porém, já está consolidada para o futuro próximo, não há como escapar. As perguntas serão feitas, precisam ser feitas. Haverá respostas, que inevitavelmente irão transitar entre acusações e justificativas. O Relatório Brasil 2040, elaborado em 2015 alertando sobre enchentes mais graves, terá que ser reexaminado e não mais ignorado pelo poder público.

    É incontestável, o estado do RS, como qualquer outro estado brasileiro, não estava preparado para tamanha força da natureza. Nos perguntamos então: seria possível preparar-se ? Em uma canetada administrativa, evidentemente que não.

    Penso na cidade norte-americana de San Francisco que sofre cronicamente com atividade sísmica e vive a permanente perspectiva de que qualquer dia desses ocorra o “Big One”, um terremoto devastador como já aconteceu. Por isso, as edificações em San Francisco substituíram alvenaria por materiais flexíveis.

    No caso de regiões onde ocorrem grandes enchentes, o que deveria ser feito para se precaver para a próxima ? A resposta é lógica: em áreas atingíveis, a maioria das edificações deveriam ser demolidas e substituídas por um modelo de construção civil que inclua não apenas altura mas também solidez nas fundações, alguma coisa como é feito em estruturas de pontes com sustentação submersa.

    Leio que o ecólogo Marcelo Dutra da Silva vai mais além, sugere que cidades inteiras terão que mudar de lugar. Não há como não se antecipar aí uma mudança no tempo verbal. O futuro “terão” inclina-se mais para o condicional “teriam”. E por quê ? Porque não existe um compromisso formal da sociedade brasileira em preparar-se devidamente para uma catástrofe assim. Um compromisso assim já deveria ter sido gradativamente construído pelo poder público ao longo das muitas décadas que se passaram desde o sério antecedente de 1941, quando aconteceu a mesma coisa.

    Chega-se à segunda pergunta inevitável: teria havido dinheiro nos cofres públicos para bancar tal perspectiva preventiva ? Se há denúncias de descaso do poder público com a manutenção do sistema de escoamento de águas em Porto Alegre, colapsado, que dirá investimentos para uma política habitacional mais segura. Isso, aliás, envolve menos a capital gaúcha e mais a sua periferia e o interior do estado, pois é lá a grande tragédia, é lá que morreram mais de uma centena de pessoas e é lá que foi perdida a imensa quantidade de moradias.

    Alguém poderá arriscar dizendo “basta vontade política”. Certo, mas vontade política não se resume a discursos, precisa ser traduzida em ações na área econômica. O poder público já destina verbas elevadas para remediar as perdas da calamidade. Teria “bala” suficiente para adotar uma política de reconstrução habitacional sem sacrificar outras prioridades?

    E isso é pensar-se no geral, sem derivar para a esfera partidário-eleitoral, que sabemos é inevitável, e irá contrapor narrativas diferentes, e perspectivas diferentes para o futuro desse sofrido estado do Rio Grande do Sul, que ainda tem a lhe prejudicar a difícil e confusa compreensão do que é política e administração pública, e de como essas coisas funcionam. Nossos cidadãos e cidadãs, em grande parte, seguem vulneráveis e à mercê de meros estímulos de convencimento publicitário eleitoral, sem saber como se situar politicamente.

    Voltamos então à raiz de muitos males do Brasil e também de outros países: educação, a falta dela.

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