Desenvolvimento sustentável é a verdadeira arma contra o crime na Amazônia

O crime organizado se tornou um dos principais vetores de destruição da floresta, e essa não é apenas minha opinião. É uma realidade em destaque, inclusive, no último relatório de avaliação da Amazônia, elaborado pelo Painel Científico para a Amazônia.
Os dados incluíram, pela primeira vez, a pauta da criminalidade nas discussões climáticas globais – um reconhecimento de que não existe sustentabilidade sem segurança e sem desenvolvimento econômico para quem vive no território amazônico.
Segundo o relatório, cerca de 40% da cocaína mundial passa pela Amazônia, transformando a região em um corredor estratégico para facções criminosas. Mais de 77% das áreas de garimpo no Brasil operam de forma ilegal, ocupando 2.600 km² e movimentando até US$ 2,8 bilhões em ouro sem controle fiscal.
São mais de 4 mil pontos de mineração ilegal espalhados por terras indígenas e unidades de conservação, e milhares de hectares grilados que, depois de invadidos, se convertem em pastagens para gado irregular. Esses números revelam o que há anos os amazônidas já sabem: onde o Estado e a economia formal não chegam, o crime preenche o vazio.
Essas redes criminosas – que conectam garimpo, narcotráfico, extração ilegal de madeira e grilagem – fragmentam ecossistemas, destroem comunidades e minam as bases da governança ambiental. Não há floresta em pé onde não há prosperidade. O combate à ilegalidade, portanto, precisa ser econômico, social e produtivo.
É por isso que o desenvolvimento sustentável da Amazônia é, antes de tudo, uma estratégia de segurança pública. Incentivar e criar mecanismos para que a economia formal avance, significa gerar renda, emprego e dignidade para a população. Essa não é uma utopia, mas uma realidade comprovada por números: a bioeconomia na Amazônia, sozinha, tem potencial de somar R$ 45 bilhões ao PIB brasileiro e criar mais de 830 mil empregos até 2050, segundo pesquisa da WRI Brasil.
Mas esse potencial só será destravado se houver investimento em infraestrutura, capacitação técnica e suporte a negócios locais. É preciso fazer o dinheiro da Faria Lima chegar a projetos verdes que realmente parem em pé, e que mantenham a floresta em pé, garantindo a segurança e a governança exigidas pelo mercado financeiro.
A Amazônia não precisa de mais diagnósticos sobre o problema, precisa de soluções que cheguem à ponta. O relatório do Painel Científico para a Amazônia reforça o que o território já vem dizendo: a ausência de oportunidades é a maior aliada do crime e a pior inimiga da floresta.
A COP 30 realizada no Brasil deixou claro que proteger a Amazônia é proteger as pessoas que vivem nela. É dar a cada comunidade a chance de prosperar dentro da legalidade, com base em conhecimento, inovação e negócios sustentáveis. Nosso desafio, mais do que nunca, é garantir que a visibilidade global que tivemos não fique no passado. E que resulte em investimentos e em olhares atentos às tantas oportunidades de negócio e de geração de renda que a floresta oferece quando é mantida em pé.
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