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Eduardo Abreu

Eduardo Abreu- vice-presidente de Novos Negócios da Visa Brasil

Digitalizados, mas sem banco: o novo desafio da inclusão financeira

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A América Latina está mais digital do que nunca, mas ainda não é totalmente inclusiva. Os chamados tech-savvy unbanked, usuários digitais que dominam a tecnologia, mas seguem fora do sistema financeiro formal, simbolizam um dos maiores paradoxos da região.
Dados do relatório “Tech-Savvy but Unbanked: Exploring Financial Gaps and Opportunities in Latin America’s New Digital Age”, realizado pela Visa em parceria com a Payments and Commerce Market Intelligence, revelam uma contradição importante: a inclusão digital avançou muito mais rápido que a inclusão financeira. Hoje, nove em cada dez adultos latino-americanos têm um smartphone e mais de 70% possuem algum tipo de conta financeira. Mesmo assim, cerca de 100 milhões de pessoas continuam fora do sistema bancário, apesar de estarem plenamente conectadas ao mundo digital.
Essas pessoas participam ativamente das redes sociais, usam aplicativos, fazem parte de comunidades online e compram em marketplaces, mas ainda dependem de dinheiro em espécie para o dia a dia. O que falta, muitas vezes, não é tecnologia. É relevância, confiança e conveniência.
O estudo mostra que os produtos financeiros, em seu formato atual, não são percebidos como úteis ou práticos por uma parcela significativa da população digitalmente conectada. Para muitos, o problema não é o custo, e sim a inconveniência: processos burocráticos, linguagem técnica, excesso de etapas e a sensação de que “não é pra mim”.
Enquanto isso, o uso de aplicativos de mensagens instantâneas na região chega a 90%, e a comunicação digital já faz parte da rotina de todos os perfis socioeconômicos. O futuro da inclusão financeira talvez passe por encontrar as pessoas onde elas já estão, dentro das plataformas e canais que fazem parte do seu cotidiano digital.
Iniciativas que integrem pagamentos, atendimento e educação financeira em ambientes familiares, como aplicativos de mensagens, redes sociais e assistentes de voz, têm alto potencial de engajamento, justamente porque eliminam barreiras psicológicas e práticas.
Outro desafio central é a falta de confiança. Segundo o relatório, 60% dos usuários digitalmente ativos que não utilizam serviços financeiros apontam o medo de fraudes e a desconfiança nas instituições como os principais motivos para se manterem à margem.
Essa barreira emocional é tão poderosa quanto qualquer obstáculo técnico. E, em uma região onde golpes digitais estão em crescimento, oferecer segurança e transparência é tão importante quanto oferecer crédito ou conveniência. As pessoas querem clareza sobre taxas, previsibilidade nas regras e a certeza de que têm controle sobre o próprio dinheiro. Isso exige mais do que tecnologia: exige design centrado no usuário, comunicação simples e marcas que transmitam empatia.
A educação financeira continua sendo uma das ferramentas mais poderosas de inclusão, mas precisa evoluir. Entre os entrevistados com forte presença digital, 35% afirmaram não ter interesse em treinamentos tradicionais, mesmo gratuitos. Por outro lado, 58% disseram preferir aprender por meio das redes sociais. Esse dado mostra que o problema não está na falta de interesse, e sim na forma como o conteúdo é apresentado. Educação financeira eficaz precisa ser prática, intuitiva e integrada ao cotidiano.
Fechar a lacuna entre o digital e o financeiro é um desafio coletivo. Nenhuma empresa, fintech ou banco pode resolver isso sozinha. É preciso um esforço conjunto entre instituições financeiras, reguladores, educadores, governos e provedores de tecnologia. Com o avanço do Pix por aproximação, do Open Finance, da tokenização e da IA aplicada à personalização, o ecossistema de pagamentos nunca esteve tão preparado para oferecer soluções híbridas que unam tecnologia, inclusão e confiança.
Quando design, dados e empatia caminham juntos, o resultado é mais do que acesso: é pertencimento. A inclusão financeira sustentável não é apenas uma questão de infraestrutura, é uma questão de design e relevância. Projetar produtos simples, intuitivos e ajustados à realidade de quem está à margem do sistema é o que realmente transforma o acesso em uso.

Essas pessoas não estão desconectadas, estão apenas subtendidas. E enxergar esse público como protagonista, e não como exceção, é o primeiro passo para um futuro financeiro mais inclusivo, digital e humano.

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