
Do Nobel à Cop, passando pelo divã
A inovação verde como política econômica: o que vencedores de Prêmio Nobel ensinam, o Brasil já tem; e, na COP, é preciso afirmar em voz alta

Os dois últimos vencedores do Nobel de Economia tentam responder por que algumas nações crescem e outras não. Em comum, um ponto: a dinâmica de inovação interna.
O que pouco se destacou é a conexão entre a visão deles e a sustentabilidade, particularmente o papel da chamada inovação verde no crescimento. Há um excelente - e quase desconhecido - paper de 2023 que uniu dois dos então futuros laureados, Daron Acemoglu (Nobel 2024) e Philippe Aghion (Nobel 2025), para tratar do tema: “Green Innovation and the Transition Toward a Clean Economy”. Aghion, aliás, é um dos teóricos mais influentes do debate sobre como a Europa deve conduzir sua revolução de competitividade, com a sustentabilidade entre os três pilares do crescimento — ao lado da inovação e da defesa.
A mensagem é clara: a economia verde induz crescimento de longo prazo, mas as inovações limpas não cairão do céu. Elas só florescem em países com instituições fortes e democráticas, políticas públicas ativas que premiam o novo em detrimento do velho e incentivos coordenados entre Estado e o mercado de capitais.
O Brasil está próximo, bem próximo, das condições descritas pelos dois laureados para atingir o crescimento sustentável, mas ainda temos a aprender com eles e o governo brasileiro ainda precisa fazer correções de rota menos tímidas para aproveitar essa janela histórica de desenvolvimento.
Com base na minha experiência de quem vive em Londres há uma década, e observa o Brasil de fora, uma reflexão: nosso mau-humor nacional e o foco excessivo em nossos erros têm ofuscado nossa capacidade de comunicar o que fazemos bem.
A COP30 pode - e deve - ser o momento de superar essa autocrítica paralisante e afirmar, ou reafirmar, o papel central do Brasil na solução da crise climática e alimentar, convertendo o que é ativo ambiental em capital político e econômico.
As lições do Nobel e onde está o Brasil
Com a experiência que me permite arriscar uma síntese, os dois últimos Prêmios Nobel de Economia convergem em três pilares fundamentais do crescimento:
1. Instituições democráticas sólidas e inclusivas;
2. Posicionamento certo nas encruzilhadas históricas, com escolhas pelo novo;
3. Ambiente fértil para a inovação - nesse caso, a verde, impulsionada por políticas econômicas ativas e incentivos substanciais.
No primeiro pilar, o Brasil vem surpreendendo. Num mundo de democracias vacilantes, consolidamos instituições resilientes. E, apesar de continuarmos entre os países mais desiguais do mundo, os indicadores de inclusão começam a mudar. Segundo o IBGE, a renda média do brasileiro hoje é a mais alta da série histórica e a pobreza caiu para 24% em 2024, ante 37% em 2021 – o número, convém destacar, ainda é muito alto – a grosso modo, um a cada quatro brasileiros está na faixa de pobreza. Mas o país saiu do Mapa da Fome da ONU, e empresas brasileiras vêm contribuindo para a redução da desigualdade por meio de inovação e treinamento da força de trabalho, um atalho complementar à educação formal (FGV Social).
O segundo pilar é sobre fazer as escolhas certas nas encruzilhadas da história. Não é questão de sorte, mas, desta vez, tivemos alguma: o Brasil está melhor posicionado do que nunca. Num mundo multipolar, estamos no centro de duas crises e soluções: a climática e a alimentar.
A FAO projeta que a demanda global por alimentos crescerá 60% nas próximas duas décadas. Enquanto concorrentes se aproximam do limite físico de expansão, o agro brasileiro pode crescer sem desmatar, graças à tecnologia e produtividade.
No campo ambiental, somos igualmente singulares: maior biodiversidade do planeta, segunda maior floresta tropical, liderança em biocombustíveis, agricultura de precisão e insumos biológicos – sob a liderança da premiada Embrapa, matriz energética 50% renovável (contra 14% da média mundial) e segunda maior reserva de terras raras, ainda pouco explorada.
Com essa combinação de ativos naturais e tecnologia, o Brasil pode se tornar pivô das novas cadeias produtivas verdes, unindo segurança alimentar, clima e estabilidade geopolítica.
O terceiro pilar trata do “como”, as condições para concentrar e acelerar a inovação, com políticas que viabilizem o novo em detrimento do velho.
Como destaca Aghion, “não existe transição do velho para o novo sem garantir algo especial ao novo”. A inércia precisa ser quebrada pelo Estado — um capitalismo regulado a serviço de uma inovação quase obsessiva.
Nesse ponto entra o governo brasileiro. Num mundo de restrição fiscal, trata-se de falar de prioridade de Estado, não de ausência dele. E, se aproveitarmos nossas vantagens e as lições dos vencedores do Prêmio Nobel, poucas áreas justificam tanto investimento público quanto o financiamento à inovação verde. Iniciativas como o Tropical Forest Finance Facility (TFFF), o EcoInvest e a Plataforma Brasil de Investimentos Climáticos e para a Transformação Ecológica (BIP) mostram caminhos criativos e bem-sucedidos de mobilizar capital internacional com apoio governamental.
Mas sejamos claros: ainda é muito pouco. O ecossistema brasileiro de financiamento sustentável avança timidamente diante da magnitude das oportunidades abertas por esta janela histórica. Está ainda à margem do financiamento tradicional, quando deveria estar no centro. Para se ter um parâmetro de comparação, na Europa, de todos os ativos investidos, quase 60% (quase USD 7 trilhoes) já são atrelados a atributos de sustentabilidade. (Morningstar, Jun25, SFDR). Lá, a regulação redirecionou esses investimentos em um espaço recorde de 3 anos. Portanto, é possível. Hora da regulação brasileira acelerar o passo.
O divã e a COP – a hora da alta
Quando migrei minhas responsabilidades de compliance da América Latina para a área de Conduta na Europa de um banco global, imaginei encontrar um mundo mais previsível, com fronteiras claras entre o certo e o errado. Encontrei o oposto: um ambiente tão humano quanto o que havia deixado no Brasil, repleto de dilemas e contradições sutis.
Foi então que percebi algo essencial, uma armadilha que também me pegava. Há um tipo de mau-humor nacional, uma ironia persistente que nos impede de ver o que fazemos bem e amplifica nossos defeitos. “Só no Brasil mesmo” virou bordão inconsciente, como se o erro fosse destino e o acerto, acaso.
Mas viver fora ensinou-me o contrário: o erro não é só no Brasil; e o acerto também nos pertence.
Trabalhar com ética e cultura corporativa mostrou-me que maturidade não é ausência de falhas, mas a capacidade de corrigi-las sem destruir a confiança coletiva.
Falamos alto sobre nossos defeitos e sussurramos nossas virtudes.
Como dizia Darcy Ribeiro, “o Brasil é uma nova civilização em gestação, um povo mestiço, tropical e generoso, que ainda não se reconheceu”. Ele via em nós o embrião de algo maior: “seremos, se quisermos, uma das matrizes de um novo mundo.”
Hoje, estamos mais perto desse novo mundo.
E é aqui que entra a COP - e o mundo, para falar a verdade.
Essa mensagem precisa ecoar para além de nossas fronteiras, para atrair recursos compatíveis com nossa relevância.
Se o Brasil está no centro das soluções para a crise climática e alimentar, deve estar também no centro do financiamento de ambas. Não existirá solução para essas crises globais sem capital global.
E estamos longe, muito longe disso. Isso precisa ser dito. Dos US$ 6 trilhões globais em dívida sustentável (climática e outros itens), o Brasil responde por apenas US$ 60 bilhões - cerca de 1% do total. Entre os cinquenta maiores países destinatários desses recursos, em proporção do PIB, ocupamos a 48ª posição, atrás de Chile, Belize, Uruguai e Gabão (Environmental Finance Data, ago. 2025, cálculos da autora).
Segundo o Climate Policy Initiative (2025), o financiamento climático ao Brasil vem crescendo e chegou a US$ 4 bilhões anuais nos últimos anos. Mas ainda é muito aquém do necessário. A London School of Economics (2024) estima que os países emergentes precisarão de US$ 2 a 3 trilhões anuais para financiar uma transição efetiva .
Se fizermos nossas lições, abandonarmos o script fácil do mau-humor e falarmos alto sobre nossas virtudes e demandas nesta COP, poderemos, enfim, viver a hora da alta.
E a alta do divã é a metáfora que revela uma das mais insidiosas barreiras — a crença de que “não dá”. Agora, dá.
