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Grégore Moreira de Moura

Grégore Moreira de Moura- Desembargador e professor de Direito Penal e Criminologia

Grafite transgressor e criminologia cultural

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O Centro Cultural do Banco do Brasil de Belo Horizonte nos brinda com a exposição "OSGEMEOS: Nossos Segredos", que teve início em 22 de fevereiro deste ano e acaba em 22 de maio.

Nas salas do lindo prédio do CCBB, projetado pelo arquiteto Luiz Signorelli e com construção iniciada em 1926, a outrora secretaria de Estado se transforma em um verdadeiro deleite de cultura.

Inspirados em música, vinil, sprays, roupas extravagantes, break, gramofones, desenhos, rascunhos, psicodelia, Banksy, ironia, frases de efeito, mensagens fortes, história, transgressão, luta, reconhecimento, família, objetos pessoais, intimidade e, claro, muitos grafites, impossível não se encantar e viajar na alma do estilo inigualável e “brazuca” do modo meio Simpsons das figuras amarelas desconformes.

E essa é sua veia: ser discordante, diferente, adverso, enfim, um tapa na cara do status quo. Um quotidiano inverso derivado de reflexões internas, fantasia exótica e muita criatividade.

Gustavo e Otávio (os gêmeos) sem querer nos fazem transversais, universais, conhecidos e introspectivos.

Se a arte imita a vida, sua transgressão nos liga à contestação dos valores, da realidade, do domínio de classe e, por óbvio, nos faz refletir sobre a criminalização de culturas, músicas, gentes e vertentes.

Caminhar pela exposição OSGEMEOS é lembrar de Durkheim, da funcionalidade do crime, da teoria da rotulação ou etiquetamento, da criminologia crítica e da criminologia cultural.

Durkheim porque dizia que transgredir pode evoluir a sociedade, mudar valores e transformar leis.

Funcionalidade, porque a arte transgressora pode gerar anomia com intensas transformações sociais em simbiose, ou seja, causam o caos em ausência de regras, como o crime em excesso (ou o grafite em excesso, outrora criminalizado).

Rotulação ou etiquetamento, porque o status quo gosta de rotular, etiquetar, estereotipar o diferente, o que não se adequa à sua verdade. Quem dança break é de subúrbio, quem escuta funk é criminoso, que tem tatuagem é propenso à criminalidade e quem é artista é outsider.

Criminologia crítica pela politização da reação social a tudo que acontece na sociedade. O controle social é moldado pela forma como a sociedade reage a determinados fatos, hoje, em uma volatilidade incrível impulsionada por redes sociais, internet e tecnologia. Pelo menos, o lado bom disso é viralizar a antiga obra dos gêmeos. Grafite e política são indissociáveis.

Criminologia cultural, pois vê o crime e o processo de criminalização como produções criativas, ou seja, a interação social é o cerne do seu estudo com foco em regras quebradas, ditadas, inovação, política, capital, empreendedorismo e, por óbvio, transgressão.

E por que não lembrar também da Criminologia da não-cidade e a mania que temos de “territorializar” o crime, rotular de pichação o que é arte do subúrbio ou direcionar policiamento para o que não se encaixa no nosso “way of life”?

Em OSGEMEOS podemos ver tudo isso de uma maneira leve, mas com lentes críticas e ácidas como à “maré cinza” de Doria em São Paulo que cobriu com tinta cinza diversos grafites pela cidade. No grafite na parede do CCBB destaca-se a seguinte frase: “nestas paredes “cinza” existiam obras de arte”!

Em suma, a arte transforma. E o grafite é um exemplo disso. Da rotulação criminosa como vandalismo ao renascimento como street art. Imagina se os pichadores de outrora tivessem desistido?

A limpeza dos metrôs de Nova York como profilaxia das pichações de efeito modulador de comportamentos considerados criminosos e do resgate de espaços públicos com cor cinza muda radicalmente a reação social em torno das mesmas condutas, ao rodar pelo mundo e ver obras primas de Kobra, Banky, os gêmeos e outros adornando arranha-céus.

Enfim, o crime, a conduta desviante ou o que quer que seja é uma construção social, normalmente engendrada pela classe social dominante para manter seu status quo e perpetuar seus valores, mas a arte tem fator disruptivo nesse processo, pois abre espaço para o não apagar, o não cancelar e o não criminalizar, ou seja, materializa a frase da canção de Belchior, Como nossos pais: “o novo sempre vem”.

E esse novo vem na exposição OSGEMEOS e na arte em geral, mudar é preciso e quem faz isso é a sabedoria subversiva. A “sub versão” passa ser a nova versão.

Como diria Emicida: “Nossa cultura é rica e sem igual, já dei o meu recado, ponto final!”.

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