O Brasil está preparado para ser indutor da transição energética

O Brasil reúne condições únicas para ser protagonista da economia de baixo carbono no mundo. Poucos países combinam uma matriz elétrica majoritariamente limpa com potencial de crescimento econômico, industrial e social. Hoje, cerca de 90% da eletricidade brasileira já vem de fontes renováveis, frente a uma média global de cerca de 40%, um ativo estratégico raro no cenário mundial. O desafio, no entanto, não está apenas na origem da energia, mas nas decisões que o país tomará a partir desse ponto.
Essas escolhas estão detalhadas no estudo da Coalizão do Setor Elétrico* com dados, projeções e cenários técnicos que ajudam a responder a uma pergunta central: como usar essa vantagem competitiva para acelerar o crescimento econômico, reduzir emissões e garantir inclusão social?
O primeiro dado estruturante é a própria matriz elétrica brasileira. Além de renovável, ela é competitiva em custo, o que posiciona o país com o chamado “bônus verde”: a capacidade de transformar energia limpa em vantagem econômica, atração de investimentos e geração de empregos. Em um mundo que busca reduzir emissões sem comprometer produtividade, esse diferencial ganha peso estratégico.
O segundo ponto-chave é a eletrificação da economia. O estudo aponta que setores hoje intensivos em carbono, como transporte e parte da indústria, podem substituir processos baseados em combustíveis fósseis pelo uso da eletricidade. Para isso, o consumo elétrico do país tende a dobrar até 2050. Esse movimento é decisivo e o estudo mostra que é possível manter 90% de renovabilidade e contribuir com até 176 milhões de tCO2 ao ano para a descarbonização do Brasil.
Outro dado relevante diz respeito à infraestrutura. As distribuidoras de energia investirão R$ 235 bilhões até 2029. Os investimentos previstos são destinados à modernização e digitalização das redes. O Brasil precisa de redes elétricas mais flexíveis, resilientes e digitalizadas para lidar com eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, garantindo a expansão das fontes renováveis, da geração distribuída e o aumento do consumo. Esse expressivo volume de investimentos evidencia o papel estratégico da distribuição na transição energética e dá dimensão, peso e relevância ao serviço mais universalizado do país, que atende a 99,8% da população brasileira.
A transição, porém, só se sustenta se vier acompanhada de um dever de casa essencial. O estudo aponta dois riscos claros: comprometer a renovabilidade da matriz elétrica ao longo do tempo e ampliar distorções tarifárias.
Manter cerca de 90% da matriz limpa até 2050 é condição fundamental para que a eletrificação gere benefícios climáticos reais. Ao mesmo tempo, é preciso enfrentar um ponto sensível: o peso dos subsídios na conta de luz. Em 2025, esses encargos atingiram um recorde histórico de mais de R$ 58 bilhões, sendo cerca de R$ 16 bilhões destinados à geração distribuída. Hoje, esses custos já representam uma parcela relevante da conta e ajudam a explicar por que a energia elétrica consome, em média, cerca de 18% do orçamento das famílias brasileiras. Corrigir esse desequilíbrio é essencial para garantir que a transição energética seja, de fato, justa e acessível.
Os dados mostram que o Brasil já reúne vantagens concretas, mas também deixam claro que essas vantagens precisam ser sustentadas por escolhas estruturais. Eletrificação em larga escala, expansão e modernização das redes, revisão de subsídios e um ambiente regulatório atualizado são decisões que precisam avançar de forma coordenada para destravar o potencial do país sem ampliar desigualdades.
A transição energética brasileira já começou. O que define seu sucesso agora é a capacidade de transformar dados em decisões e planejamento em implementação. O Brasil tem uma base limpa, competitiva e abundante, transformar esse diferencial em desenvolvimento sustentável, inclusão e competitividade global depende de enfrentar distorções e garantir que os benefícios dessa transição cheguem, de forma equilibrada, a toda a sociedade.
*A Coalizão do Setor Elétrico é uma iniciativa liderada pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), com curadoria técnica da PSR Soluções e Consultoria em Energia. O estudo, apresentado na COP30, em Belém/PA, foi viabilizado com o apoio de seis associações do setor, com patrocínio master da Abradee, e contou com a participação de mais de 70 entidades setoriais reunidas em quatro eixos temáticos: Geração, Transmissão, Distribuição e Consumo.
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