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José Velloso

José Velloso- presidente executivo da ABIMAQ / SINDIMAQ

O impacto real da Reforma Tributária no chão de fábrica

A aproximação do novo modelo tributário com a introdução da CBS a partir de 2027 traz uma onda natural de indagações e receios para o setor produtivo nacional. Diante de uma alíquota inicial estimada pelo TCU em 11,3%, numericamente superior à antiga cobrança de PIS e Cofins, muitos empresários temem um encarecimento imediato da produção e um sufocamento do caixa das indústrias. Contudo, a análise do impacto real sobre a fabricação de máquinas e equipamentos exige ir além das aparências superficiais dos números e compreender a lógica de funcionamento de um Imposto sobre Valor Agregado bem estruturado.

Ao contrário do que a leitura apressada da alíquota destacada na nota fiscal sugere, o novo sistema não significa um aumento automático de custos para o comprador final. Em um modelo de IVA plenamente não cumulativo, o imposto pago ao longo da linha de montagem é neutralizado pelo aproveitamento dos créditos gerados nas etapas anteriores, eliminando a histórica tributação em cascata que pesava sobre o produto brasileiro. Essa mecânica permite prever que, na maioria dos casos, o fim da cumulatividade tornará os bens de capital mais baratos e competitivos no mercado interno. Embora o efeito efetivo dependa do perfil de compras, da concorrência e da capacidade de absorção de créditos de cada empresa, o saldo sistêmico aponta para um ganho estrutural substancial.

Essa transformação de longo prazo, no entanto, imporá desafios operacionais imediatos à gestão financeira das fábricas, especialmente no que tange ao capital de giro. Como a CBS passará a ser recolhida na entrada de insumos importados e a recuperação desses valores só ocorrerá após as vendas tributadas, cria-se um descalçamento temporal entre o desembolso e o crédito. Esse efeito não atingirá todas as indústrias de forma homogênea, mas pressionará de modo particular as empresas que dependem fortemente de componentes estrangeiros e operam sob ciclos de fabricação mais extensos, tornando a velocidade na homologação e no aproveitamento desses créditos um fator crítico de sobrevivência financeira.

A complexidade do novo cenário se estende também à articulação da cadeia de suprimentos local, onde a relação com os fornecedores optantes pelo Simples Nacional emerge como um dos pontos mais delicados do novo regime. Quando a compra de peças e componentes ocorre junto a pequenos fornecedores que geram um crédito tributário inferior ao de uma operação integralmente tributada, o benefício financeiro do comprador é parcialmente reduzido, elevando o custo relativo dessas aquisições. Esse descompasso forçará o setor a promover renegociações comerciais intensas, reorganizar suas redes de parceiros e, em casos pontuais onde a fatia desses fornecedores for relevante, repassar frações desse custo adicional ao preço final dos equipamentos.

Diante desse ecossistema em transformação, o avanço em direção à simplificação tributária se confirma como um passo crucial para o desenvolvimento do parque industrial brasileiro, mas que exigirá prudência estratégica e rigor na gestão de caixa das indústrias durante a fase de transição. O sucesso dessa travessia dependerá da capacidade de adaptação de cada fabricante e do compromisso do poder público em garantir a fluidez no ressarcimento dos créditos, assegurando que o setor de bens de capital continue exercendo seu papel central como motor da produtividade e da modernização da economia nacional.

Por fim, salientamos que o Senado Federal tem a importante missão de calibrar a alíquota de tal forma que seja efetivamente neutra não em relação à arredacadacao de PIS e COFINS que serão extintos, assegurando que não ocorra aumento de carga tributária, ponto fundamental da Reforma quando ela foi proposta.

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