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Antonio Lemos

Antonio Lemos- Presidente da Voith Paper na América do Sul

O que a comitiva alemã que aterrissou no Brasil encontrou

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Uma importante comitiva alemã chegou ao Brasil para, entre outros encontros, estar com o presidente Lula e alguns de seus ministros. O grande destaque da comitiva é, sem dúvida, o primeiro-ministro alemão, Olaf Scholz.

Como presidente de uma empresa alemã instalada no Brasil há 60 anos, quero destacar alguns aspectos dessa visita, de sua importância e oportunidade única ao Brasil.

O primeiro e mais evidente aspecto é o fato de a Alemanha ser um dos primeiros países a enviar seu presidente ou premier para se encontrar com Lula após sua posse, em um claro sinal de interesse no estreitamento diplomático e comercial entre as duas nações. E não é à toa essa intenção alemã.

Além do potencial comercial do Brasil, existem mais de 1.200 empresas de capital ou know-how alemão instaladas no Brasil que geram, diretamente, 250 mil empregos e são responsáveis por cerca de 10% do PIB nacional. São dados da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha (AHK).

Estreitar as relações entre esses dois países é, sem sombra de dúvida, investir no crescimento econômico e social.
Há outros elementos nessa visita que não devem ser ignorados, mas que, talvez, não se tornem tão conhecidos. Além do Brasil, a comitiva irá visitar outros países da América do Sul, como Argentina e Chile e, fazem parte do grupo, altos executivos de importantes empresas alemãs, como o CEO global do Grupo Voith, Dr. Toralf Haag. Dependendo dos resultados desses encontros, podemos ter um avanço nos investimentos dessas companhias no Brasil, o que vai gerar mais empregos de qualidade, inovação e avanços sociais.

Note-se que, segundo último levantamento da AHK, 25% das empresas associadas são do segmento de máquinas e equipamentos, o que reforça a imagem da força da indústria alemã, mas, ao mesmo tempo, acende um alerta. O processo de desindustrialização pelo qual o país passa há décadas pode impactar negativamente nas possibilidades de novos investimentos no Brasil. A participação da indústria de transformação no PIB nacional está em somente 11% e os produtos manufaturados representaram 28% das exportações brasileiras, frente a 59% em 2000.

Nos últimos sete anos assistimos o fechamento de fábricas ícones, com perda de empregos e forte impacto regional. É preciso mais do que palavras, mas sinalizações claras e atitudes de que o novo governo estará empenhado em recuperar o espaço perdido para dar segurança aos empresários, investidores e executivos estrangeiros de que somos uma boa opção para aportar novos recursos tecnológicos e financeiros.

Segundo dados da CNI, as indústrias brasileiras possuem cerca de 20% de ociosidade na capacidade instalada, fato que apresenta dois lados, um negativo e outro positivo. O negativo é o fato de termos perdido espaço no mercado internacional com exportações de produtos de altíssimo valor agregado, fechado vagas de emprego, reduzido recolhimento de impostos e aumentado o custo de vida do brasileiro pela necessidade de se importar muitos equipamentos de ponta. O lado positivo é a capacidade de ampliar a produção com certa rapidez, sem a necessidade de se desenvolver do zero novas estruturas industriais.

Por outro ângulo, enxergo uma oportunidade neste momento que é a orientação favorável do novo governo a soluções ambientais que venham a contribuir com a preservação do meio ambiente e redução de emissões de carbono. A indústria alemã tem se destacado por encontrar caminhos para manter a produtividade com baixo impacto ambiental, a exemplo da Voith Paper com soluções inovadoras e bem estruturadas nesses aspectos.

Existe um velho ditado que diz que cavalo arreado não passa duas vezes no mesmo lugar. Nesse caso, vemos um avião carregado de enorme potencial que aterrissou em terras brasileiras. Cabe aos nossos governantes decidir se vamos deixá-lo partir propenso a estreitar essa relação secular e gerar oportunidades únicas para assumirmos protagonismo mundial não somente no meio ambiente, mas também na indústria de alto valor agregado e baixo impacto ambiental.

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