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Paulo Henrique Fraccaro

Paulo Henrique Fraccaro- CEO da ABIMO (Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médico)

O que o SUS pode aprender com a tragédia que abalou não só o litoral norte de São Paulo?

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Carnaval para os brasileiros, na maioria das vezes, é uma época festiva com lindos desfiles de escolas de samba, blocos nas ruas e pessoas fantasiadas se divertindo. Mas, o deste ano, um fato não tão inesperado assim, foi marcado por uma tragédia no litoral norte de São Paulo, onde, por causa das fortes chuvas, quase uma centena de pessoas morreram ou seguem desaparecidas.

Você deve estar se perguntando por que eu, superintendente da ABIMO – Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos, estou falando sobre isso. Porque todas as vítimas, além de apoio emocional e dos trabalhos de recuperação da infraestrutura, precisaram de atendimento médico de urgência. E a nós cabe refletir se o município, o Estado e o governo federal estavam preparados.

O aumento repentino da demanda traz diferentes desafios para a administração hospitalar, que precisa remanejar suas equipes multidisciplinares e gerenciar seus estoques de suprimentos, como dispositivos intravenosos, para sutura, para imobilização e de medicamentos, entre outros. Nesse momento, cabe ao Ministério da Saúde e às Secretarias locais prover os recursos necessários para a garantia da manutenção dos serviços assistenciais.

De acordo com informações que foram publicadas na mídia, o Ministério da Saúde encaminhou, para o litoral paulista, 20 kits com 13 diferentes insumos e 25 tipos de medicação, material capaz de atender cerca de 4,5 mil pessoas ao longo de um mês. Além disso, a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo também encaminhou, às cidades afetadas, kits para a garantia da assistência.

Essa, talvez, seja uma lição aprendida durante a pandemia de covid-19, quando vivenciamos a escassez de muitos suprimentos básicos. Assim que o novo coronavírus surgiu, vimos que ninguém, em todo o mundo, estava preparado para enfrentar aquela situação. Faltaram equipamentos de proteção individual, medicamentos, respiradores e, quando chegou a vacina, faltaram seringas e agulhas. Aqui, pudemos relembrar como é importante que o Ministério da Saúde atue sempre de forma preventiva, estocando suprimentos fundamentais para a assistência.

Mesmo porque, as empresas não estocam materiais para a entrega, elas se planejam e produzem de acordo com a demanda e a solicitação dos compradores. Além disso, quando uma compra é governamental, existem trâmites burocráticos que tomam tempo. Isso impossibilita os atendimentos emergenciais e faz com que o governo tenha, como única opção, doações por parte das indústrias e da sociedade.

O caso do litoral paulista, por exemplo, é uma situação que pode ser prevista. É sabido que diversos pontos do país sofrem com infraestruturas que não toleram um grande volume de chuva e, no verão, é comum que tenhamos chuvas mais intensas e mais frequentes.

No ano passado, apresentamos um conjunto de nove ideias para o desenvolvimento do setor de dispositivos médicos - chamado Proposta de Política Industrial – com o objetivo de estabelecer diálogo com a sociedade e os diferentes órgãos de governos, bem como com os formuladores de políticas públicas, de agora e do futuro. Entre as propostas, estava o “Uso Inteligente do Poder de Compra do Estado” para estimular a inovação e a economia de escala e de escopo das empresas presentes no Brasil, com isso assegurar o fornecimento (com preços e custos compatíveis) e o fluxo financeiro previsível para as partes.

O que esperamos é que esse novo governo tenha uma visão mais sensível para casos em que podemos estar um pouco mais preparados, afinal a indústria de dispositivos médicos e todo o setor de Saúde atendem as necessidades essenciais das pessoas não apenas no dia a dia, mas também durante as emergências. E estar com um plano de gestão de crises que preveja a formação de um estoque de dispositivos e equipamentos é fundamental para esse processo, já que aumentos repentinos de produção por parte da indústria pressupõe investimentos e adoção de processos produtivos alternativos que demandam tempo para serem feitos. É preciso planejar e estocar os suprimentos mais importantes para crises que possam surgir.

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