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Paulo Skaf Filho

Paulo Skaf Filho- CEO da ComBio

Produção de calor, o ponto cego da transição energética

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Quando falamos em transição energética, a imagem que costuma vir à mente é a de painéis solares, turbinas eólicas, carros elétricos e redes inteligentes. Isso porque a discussão pública, os investimentos e até boa parte das políticas climáticas estão concentrados na eletrificação da economia. Mas a indústria não consome apenas eletricidade. Ela consome calor. E esse é justamente um dos maiores desafios da descarbonização.

A energia térmica que pode ser entregue para a indústria na forma de vapor, água quente, gases quentes ou fluido térmico movimentam fábricas inteiras todos os dias, embora raramente apareçam no centro do debate sobre clima.

O resultado dessa invisibilidade é preocupante. Enquanto o Brasil alcançou, em 2024, 88% de participação de fontes renováveis em sua matriz elétrica, segundo o Balanço Energético Nacional (BEN 2025), a energia utilizada na geração de calor ainda depende majoritariamente de combustíveis fósseis. Esse contraste evidencia o desafio de avançar na descarbonização dos processos térmicos, que permanecem fortemente dependentes de combustíveis convencionais.

Essa discussão ganha relevância justamente em um momento em que a agenda climática se torna uma agenda econômica. Com a regulamentação do mercado brasileiro de carbono em andamento e a crescente adoção de mecanismos internacionais de controle de emissões, como o Carbon Border Adjustment Mechanism (CBAM) da União Europeia, empresas que demorarem a reduzir sua pegada de carbono poderão enfrentar custos mais altos, dificuldades de acesso a mercados e perda de competitividade.

Por isso, a questão deixou de ser se a indústria precisará se descarbonizar. A questão agora é com que velocidade isso acontecerá.

Nesse cenário, o Brasil possui uma vantagem em relação a diversos países, já que possui uma combinação de recursos renováveis capazes de transformar o consumo térmico sem comprometer a produtividade e oferecendo redução de custos. Resíduos agrícolas e agroindustriais em abundância, por exemplo, podem se tornar importantes ativos energéticos. Materiais que muitas vezes seriam descartados, queimados a céu aberto ou destinados inadequadamente deixam de ser um problema ambiental para integrar uma solução de escala.

O caso de Barcarena, no Pará, ilustra bem esse potencial. Na região, o caroço de açaí, resíduo gerado em grande volume pela cadeia produtiva da fruta e apontado pelo poder público local como um desafio ambiental relevante, passou a ser utilizado como biomassa para geração de energia térmica destinada à indústria da mineração. Ou seja, a iniciativa acabada criando uma solução de duplo impacto.

O desafio agora é ampliar a percepção sobre onde realmente estão as emissões da indústria.

Durante décadas, o calor foi tratado como uma utilidade operacional, algo tão básico que raramente despertava atenção estratégica. Mas a economia de baixo carbono está
mudando essa lógica. O vapor que movimenta uma fábrica passa a ter impacto direto sobre sua competitividade, seu acesso a financiamento e sua inserção em cadeias globais de valor.

A boa notícia é que as soluções já existem. A má notícia é que o tempo para as implementar é menor do que parece. Projetos de transformação da matriz térmica
demandam planejamento, investimentos e anos de execução. Com as novas exigências regulatórias se aproximando, especialmente no contexto da implementação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), esperar até o último momento pode significar perder oportunidades importantes de adaptação.

A transição energética não será vencida apenas pela expansão das fontes renováveis de eletricidade. Ela dependerá também da capacidade de transformar a forma como produzimos calor. Enquanto continuarmos discutindo apenas os fios da tomada, estaremos ignorando uma parte decisiva da equação. E talvez a mais urgente delas.

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