Quem tem medo da matemática?

Matemática: taí uma palavra capaz de dar calafrios até em pessoas adultas, formadas e bem-sucedidas! A apreensão que a simples menção a essa ciência pode causar vem sendo estudada mundo afora e tem nome: ansiedade matemática. Essa aversão à disciplina causa impactos profundos na aprendizagem e, por consequência, na sociedade. Visando diminuir esses impactos e aproximar as pessoas da matemática, a Unesco oficializou o 14 de março como Dia Internacional da Matemática, data na qual diversas atividades relacionadas à disciplina são promovidas.
Dados do PISA, com 65 países, mostram que pelo menos um a cada três estudantes relatou ter medo do nível de dificuldade das aulas de matemática. Os países com maiores níveis de ansiedade matemática são também aqueles com pior desempenho. É o caso do Brasil: apenas 20% dos alunos que completam o 9° ano do Ensino Fundamental em escolas públicas chegam a um nível adequado de aprendizagem em matemática.
A péssima performance nacional em matemática talvez seja o sintoma mais claro da deficiência estrutural na educação, com efeitos diretos na economia do país. Conforme estudo recente da Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o Brasil deixa de ganhar, todo ano, dois pontos percentuais de PIB por conta da baixa qualidade da educação, mensurada por provas internacionais como o PISA.
Muitos se apressam em apontar o dedo para professoras e professores de educação básica, como se apenas eles devessem ser objeto de mudança. O problema brasileiro, no entanto, é sistêmico. O corpo docente das escolas precisa ser visto como o parceiro mais valioso para mudar esse cenário e realizar todo o potencial de nossas crianças e jovens.
Nos últimos anos, a neurociência e a psicologia têm contribuído imensamente para entendermos melhor como desenvolver o real potencial do cérebro humano e os mecanismos do processo de aprendizagem.
As duas ciências se unem para derrubar o mito de que existem “pessoas de Humanas” e “pessoas de Exatas”, rompendo assim com crenças limitantes de que a matemática seria apenas para alguns poucos escolhidos. Nosso cérebro é o HD mais avançado e mais barato que existe no mundo. É personalizável, portátil, possui capacidade criativa ilimitada e se autorrenova a cada minuto.
Pesquisadores da Universidade de Stanford (Califórnia) aplicaram todo esse atualizado arcabouço teórico para revolucionar os níveis de aprendizado em matemática. A partir desses estudos, desenvolveram uma nova abordagem de ensino baseada em práticas de sala de aula inovadoras que trazem mensagens poderosas para estudantes e professores. Um dos focos é valorizar o papel do erro, do esforço e da persistência.
Batizada de Mentalidades Matemáticas no Brasil, a abordagem vem sendo implementada por algumas secretarias municipais de educação, a partir da iniciativa do Instituto Sidarta, com resultados expressivos. Em 2020, um curso de férias de 10 dias, realizado em Cotia (SP) com alunos dos 4º e 5º anos, foi responsável pela diminuição da ansiedade matemática e por um salto equivalente a 1 ano e 3 meses em escolaridade matemática, calculado pelo desempenho na avaliação MARS (Mathematics Assessment Resource Service).
Resultados como este provam que combater o medo e a ansiedade relacionados a traumas passados com a disciplina e inovar as práticas em sala de aula, trazendo componentes visuais e colaborativos, são mecanismos fundamentais para impulsionar a aprendizagem.
A matemática é essencial para o exercício da cidadania na sociedade brasileira. Ninguém deveria ter medo dela, muito menos criar esse medo durante a vida escolar. É urgente ressignificar o papel dessa ciência e mostrar que todo mundo pode e deve aprender matemática. Celebrar o Dia Internacional da Matemática ajuda, sem dúvidas – mas é necessário que o Estado, as famílias, as professoras e os professores, com a colaboração da sociedade civil, se juntem para construir novas possibilidades ao longo de todo o ano.
Será salutar não só para a economia brasileira como também para os propósitos nacionais enquanto sociedade: aumentando os níveis qualitativos de aprendizado, será possível trazer diversidade e desenvolver novas perspectivas para a educação e para a ciência matemática no Brasil, com mais meninas, mais mulheres e mais pessoas negras numa disciplina hoje excludente.
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