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Hélio Bruck Rotenberg

Hélio Bruck Rotenberg- Presidente da Positivo Tecnologia

Redata aproxima o Brasil da soberania na infraestrutura digital

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A sanção do Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, o Redata, criou condições para acelerar projetos represados e ampliar a capacidade brasileira de processamento. Essa medida gerou uma oportunidade industrial de alcance. Chegou no momento em que a inteligência artificial exige mais servidores, memória, energia e capacidade de rede.

O novo modelo tributário destrava bilhões em aportes paralisados diante da corrida pela computação de alto desempenho. Mais de 106 megawatts foram entregues no primeiro semestre de 2026 e outros 134 megawatts estão previstos até dezembro. Cerca de 56% do estoque de data centers em construção no país já apresentava contratos de pré-locação consolidados antes mesmo da aprovação parlamentar e da sanção presidencial. Havia uma demanda latente. O Redata catalisou um mercado preexistente ao eliminar a trava tributária que adiava decisões urgentes. O marco regulatório canaliza e multiplica essa força.

A norma alcança dois atores fundamentais. Um deles é a empresa habilitada, responsável por operar o data center. O outro é a coabilitada, que fabrica os equipamentos para essa infraestrutura de TI. Em troca das isenções federais, o operador reserva ao menos 10% da capacidade instalada ao mercado interno e aplica 2% do valor dos equipamentos adquiridos em inovação. O formato operacional dessas contrapartidas, os critérios de sustentabilidade e os trâmites de coabilitação ainda dependem de regulamentação complementar do Executivo. A direção estratégica, contudo, já está dada. Esse percentual ganha corpo ao lado dos 5% injetados compulsoriamente pelas fabricantes de servidores por meio da Lei de Informática. Essa união de cifras constrói a maior transferência de recursos já destinada à pesquisa e desenvolvimento no país.

O ponto central do marco legal, previsto no artigo 11-C da Lei 11.196/2005, com redação dada pela Lei nº 15.504/2026 e que instituiu o Redata, revela uma engenharia regulatória inteligentíssima. A desoneração da contribuição ao PIS-Pasep e da Cofins alcança de forma horizontal toda cadeia produtiva. A manutenção da cobrança do Imposto de Importação para equipamentos com produção nacional equivalente e do IPI para os equipamentos produzidos na Zona Franca de Manaus, cria as travas de proteção essenciais. Incentivo fiscal para tecnologias inexistentes no país constitui política industrial coerente e responsável. Desonerar importações predatórias de máquinas já fabricadas internamente causa desindustrialização subsidiada. A regra atual protege quem produz no Brasil, seja qual for a origem do capital investido. Empresas globais de

hardware mantêm fábricas aqui ao lado de companhias brasileiras, sob o mesmo rigoroso critério.

O mercado nacional de servidores ganha uma expansão sem precedentes com essa barreira inteligente. Permitir a importação isenta de um equipamento pronto anularia a competitividade das operações industriais instaladas no país e destruiria cadeias inteiras de fornecedores. O Redata evitou essa armadilha. A legislação assegura a previsibilidade necessária para as fábricas investirem pesado em novas linhas de produção e contratarem mais talentos para a engenharia local.

O parque fabril no nosso país superou, definitivamente, a fase de mera linha de montagem. A realidade das fábricas expõe uma maturidade densa e o domínio prático de uma etapa decisiva. Engenharia de ponta, arquitetura térmica, integração complexa, testes exaustivos e suporte contínuo ocorrem no território nacional. Fabricar a infraestrutura da inteligência artificial exige calibração milimétrica de energia e certificações rigorosas que consomem meses de dedicação exclusiva de times altamente especializados.

Nos últimos anos, a título de exemplo, entregamos sucessivos sistemas de supercomputação para o setor de óleo e gás, com integração nacional completa. Construímos sólida tradição tecnológica nesse segmento, e essas máquinas operam hoje entre as maiores do mundo em capacidade de processamento de dados. As placas aceleradoras vêm de fora, mas toda a inteligência da integração ganha forma, escala e excelência aqui.

A repatriação veloz de cargas de trabalho tem impulsionado a demanda por hardware local. Em paralelo, os custos financeiros para treinar modelos computacionais aumentaram exponencialmente. Faturas forçam as organizações a transferir operações complexas das nuvens públicas para ambientes locais blindados. Diretores de tecnologia encontram na escolha de um servidor nacional a convergência exata entre eficiência de custos e segurança de dados. Esses líderes corporativos valorizam a vantagem estratégica de ter o fabricante do hardware fisicamente próximo. Essa proximidade garante a customização ágil da arquitetura, viabiliza manutenções críticas em tempo recorde e assegura a continuidade das operações sem o risco atrelado à dependência de um suporte técnico estrangeiro distante.

A soberania digital do Brasil ganha uma dimensão muito concreta com o Redata. O país dispensa a fantasia da autossuficiência em semicondutores para desenvolver uma indústria real de inteligência artificial. Nós podemos importar GPUs e processadores e, ainda assim, dominar a engenharia que transforma esses componentes isolados em sistemas capazes de processar dados, sustentar aplicações críticas e receber suporte local.

Os próximos cinco anos serão decisivos para essa estratégia. O Brasil reúne mercado vigoroso, matriz elétrica favorável, conectividade internacional e uma indústria de servidores totalmente preparada para acompanhar o aumento expressivo da demanda. O avanço dependerá, essencialmente, da coordenação entre política tributária, energia, infraestrutura, ciência e regulamentação tecnicamente precisa. O Redata cria oportunidade rara de converter novos investimentos estrangeiros em produção fabril, engenharia aplicada e capacidade computacional instalada no país.

Ao final desse ciclo, o sucesso do programa aparecerá naquilo que permanecer conosco. Servidores industrializados aqui, pesquisa financiada, profissionais superqualificados, capacidade de processamento e conhecimento incorporado à economia. A expansão da inteligência artificial assume valor definitivo quando amplia a nossa habilidade para projetar, integrar, operar e aperfeiçoar a infraestrutura que a sustenta.

O Brasil consolida a união entre os componentes produzidos nas cadeias globais e o domínio interno sobre a engenharia dos sistemas. Soberania digital se mede pela capacidade de compreender, adaptar e sustentar a própria infraestrutura tecnológica. Um hardware tem vida útil determinada. O conhecimento acumulado para desenvolver o projeto seguinte, entretanto, atravessa gerações de equipamentos. O avanço acontecerá quando cada nova capacidade computacional instalada no país realmente multiplicar a competência brasileira de construir a próxima.

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