Três anos de CAR-T: lições e barreiras para expandir essa terapia no país

Nos últimos três anos e meio, muita coisa mudou na oncologia brasileira, felizmente, para melhor. Com o avanço da engenharia genética, começamos a ver na prática o que até pouco tempo parecia ficção científica. Um dos protagonistas dessa transformação é, sem dúvida, a terapia celular CAR-T, uma abordagem que não apenas inova, mas redesenha o futuro do tratamento contra o câncer.
Com a capacidade de reprogramar células do próprio sistema imunológico do paciente para reconhecer e atacar células neoplásicas com precisão, a terapia CAR-T inaugura uma nova era na medicina personalizada. Menos efeitos colaterais, mais precisão, melhores resultados. É o tipo de abordagem que marca o início de uma nova era na medicina e exige também uma nova forma de pensar o cuidado oncológico.
Desde antes da aprovação pela Anvisa, acompanho de perto o desenvolvimento dessa terapia e posso afirmar com segurança: estamos diante de um cenário muito promissor. Em julho deste ano, realizamos no A.C.Camargo Cancer Center a 50ª infusão de células CAR-T, em um paciente com câncer hematológico participante de um de nossos estudos clínicos. Esse número representa muito mais do que uma marca estatística. Ele traduz uma trajetória de aprendizado, dedicação e inovação. Reforça o comprometimento com uma medicina altamente personalizada e a capacidade do Brasil de aplicar, com excelência, uma das terapias mais disruptivas da oncologia moderna.
Até aqui, realizamos infusões em pacientes adultos e pediátricos com neoplasias hematológicas em que todas as linhas terapêuticas anteriores haviam falhado. Assim como em pacientes participantes de estudos clínicos em indicações mais precoces, o que vislumbramos ser o futuro da terapia. Mesmo assim, conseguimos respostas consistentes: nossas taxas de sobrevida e resposta clínica acompanham os resultados publicados pela literatura internacional. A longo prazo, cerca de 40% a 45% dos pacientes tratados com CAR-T alcançam a cura. Nesse contexto, “cura” não é só um conceito técnico, mas a chance real de retomar a rotina, a autonomia e a qualidade de vida.
É natural se encantar com a ideia de uma terapia capaz de reprogramar células do próprio corpo para destruir o câncer. Mas é importante entendermos que a tecnologia CAR ainda é uma técnica indicada apenas para um grupo muito específico de pacientes: aqueles que apresentaram falha em todas as alternativas terapias anteriores e que, mesmo assim, mantêm condições clínicas favoráveis para receber a infusão. Aprendemos, com o tempo, que a seleção criteriosa é tão importante quanto a aplicação da terapia em si.
Também ganhamos maturidade no manejo dos efeitos adversos, que antes geravam receios. Hoje, contamos com protocolos bem estabelecidos, e uma equipe multiprofissional altamente especializada — hematologistas, intensivistas, farmacêuticos, enfermeiros e muitos outros profissionais atuando de forma coordenada em todas as etapas do tratamento. A expertise acumulada tem nos permitido oferecer esse cuidado com segurança e excelência.
A tecnologia de CAR tem potencial para ser um verdadeiro divisor de águas no tratamento do câncer. E não estamos sozinhos nessa visão: na Europa, mais de 10 mil pacientes já foram tratados, enquanto nos Estados Unidos esse número ultrapassa os 40 mil. No Brasil, esse número ainda é modesto, pouco mais de 100 pacientes tratados, somando tanto os tratamentos comerciais quanto os estudos clínicos. A principal barreira? O acesso.
O tratamento com células CAR-T é complexo e de alto custo. Cada dose precisa ser produzida individualmente, a partir do material biológico do próprio paciente em parceria com centros farmacológicos internacionais. Isso encarece o processo e dificulta a incorporação da técnica ao sistema de saúde como um todo. O resultado é que, mesmo sendo promissora, essa terapia ainda está fora do alcance da maioria, disponível apenas na rede privada.
Diante desse contexto, a pesquisa clínica tem sido um dos caminhos mais eficazes para ampliar o acesso. Estudos multicêntricos com CAR-T, que contam, inclusive, com a colaboração de instituições brasileiras, trabalham não apenas para buscar caminhos mais sustentáveis para expandir a implementação dessa terapia, como também explorando possíveis novas indicações.
E a inovação não para por aí. Novas gerações da tecnologia já estão em desenvolvimento, com engenharia genética mais sofisticada, capazes de reconhecer múltiplos alvos tumorais ou modular sua atividade para reduzir riscos. Também ganham força as terapias chamadas “off-the-shelf” (com células prontas para uso imediato), o que pode representar uma revolução logística e de custo.
O futuro aponta para uma ampliação importante das indicações: não apenas para neoplasias hematológicas, mas também para tumores sólidos, doenças autoimunes e infecções crônicas. Acreditamos, com convicção, que essa é uma das frentes mais promissoras da oncologia contemporânea, e que estamos apenas no começo dessa transformação.
Fórum CNN
Os artigos publicados pelo Fórum CNN buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo.
Os textos publicados no Fórum CNN não refletem, necessariamente, a opinião da CNN.
