A essencialidade do reator multipropósito para o futuro da medicina nuclear

Em artigo à CNN Infra, Flávia Dornelas Kurkowski defende que reator reduzirá dependência externa de insumos usados em exames e tratamentos na medicina nuclear

* Por Flávia Dornelas Kurkowski
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A Medicina Nuclear (MN) é uma especialidade médica que utiliza radiação para diagnosticar e tratar doenças, além de auxiliar determinados procedimentos cirúrgicos. Enquanto grande parte dos métodos de imagem revela principalmente a anatomia, a MN permite observar o funcionamento do organismo, avaliando processos fisiológicos, metabólicos e moleculares. Assim, alterações funcionais podem ser identificadas antes mesmo que modificações estruturais se tornem visíveis.

Na oncologia, um dos avanços mais relevantes dos últimos anos é a teranóstica, conceito que integra diagnóstico e tratamento. A estratégia consiste em identificar, por meio da imagem, um alvo presente nas células tumorais e utilizar esse mesmo alvo para conduzir a terapia até o tumor.

Para que exames e tratamentos como esses sejam possíveis, existe uma complexa cadeia de produção e distribuição de radiofármacos (RFs), ainda pouco conhecida fora do setor da saúde e, no Brasil, parcialmente dependente do mercado internacional.

Uma logística determinada pelo tempo

Os RFs são substâncias que contêm um radionuclídeo, geralmente associado a uma molécula capaz de interagir com determinado processo biológico. Uma vez administrados ao paciente, sua distribuição pelo organismo pode ser identificada por equipamentos específicos, como a gama-câmara e a tomografia por emissão de pósitrons associada à tomografia computadorizada (PET/CT), também conhecida como PET-Scan.

Há, porém, uma característica que diferencia esses produtos dos medicamentos convencionais: sua radioatividade diminui continuamente. Cada radionuclídeo possui uma meia-vida física, período necessário para que sua atividade radioativa seja reduzida à metade.

O tecnécio-99m, radionuclídeo mais utilizado em exames diagnósticos de MN, possui meia-vida de aproximadamente 6 horas e é empregado na avaliação de diferentes órgãos e sistemas. Nos serviços de MN, é obtido a partir de geradores de molibdênio-99/tecnécio-99m. Produzido em reatores nucleares, o molibdênio-99 tem meia-vida de aproximadamente 66 horas e, ao decair, origina o tecnécio-99m utilizado nos exames.

O tempo, portanto, é um componente fundamental dessa cadeia. Produção, processamento, controle de qualidade, transporte e distribuição precisam ser cuidadosamente coordenados enquanto a atividade radioativa diminui. Quando o material depende de produção internacional, atrasos ou interrupções, por exemplo, no transporte, podem comprometer o atendimento de pacientes a milhares de quilômetros do local de origem.

Por isso, a produção nacional de radionuclídeos ultrapassa os limites de uma discussão tecnológica: é também uma questão de segurança e planejamento em saúde.

Da imagem à terapia

A importância dos radionuclídeos produzidos em reatores aumentou com a expansão das terapias direcionadas. Entre eles está o lutécio-177, empregado no tratamento de determinados tumores neuroendócrinos e do câncer de próstata avançado.

No câncer de próstata, uma das estratégias utiliza como alvo o antígeno de membrana específico da próstata (PSMA), proteína frequentemente expressa pelas células tumorais. O PET/CT com PSMA permite identificar se as lesões apresentam esse alvo. Em pacientes selecionados, o PSMA funciona como um “endereço molecular”, orientando a chegada do lutécio-177 às células doentes.

A eficácia dessa estratégia foi demonstrada no estudo de fase III VISION. Em pacientes com câncer de próstata metastático resistente à castração e tumores positivos para PSMA, o tratamento com lutécio-177-PSMA-617, associado ao cuidado padrão, proporcionou ganho de sobrevida. Mais recentemente, a Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora norte-americana, ampliou sua indicação para uma etapa mais precoce da doença metastática.

A demanda potencial é significativa. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 77.920 novos casos de câncer de próstata por ano no Brasil no triênio 2026–2028. Parte desses pacientes poderá necessitar de PET/CT com PSMA ou terapias com lutécio-177 ao longo da evolução da doença. Somam-se a eles homens diagnosticados anteriormente que permanecem em acompanhamento e podem apresentar recorrência ou progressão. Dimensionar a necessidade de MN, portanto, exige considerar toda a trajetória da doença, e não apenas os novos casos anuais.

O Reator Multipropósito Brasileiro

É nesse cenário que se insere o Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), sob responsabilidade da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), em Iperó, no interior de São Paulo. A infraestrutura será estratégica para o país, o projeto reúne diferentes finalidades, entre elas a produção de radionuclídeos, a pesquisa científica, o desenvolvimento tecnológico e a formação de profissionais especializados.

Na saúde, uma de suas principais contribuições será ampliar a capacidade brasileira de produzir radionuclídeos importantes para a MN, como o molibdênio-99, precursor do tecnécio-99m, o iodo-131 e o lutécio-177.

Segundo a Cnen, o RMB foi projetado para produzir radionuclídeos destinados a mais de 30 tipos de RFs. A instituição estima ainda que o empreendimento poderá ampliar significativamente a oferta de procedimentos de MN e gerar economia superior a US$ 15 milhões anuais em importações.

Um investimento para o futuro

O alcance do RMB vai além da produção de radionuclídeos. Um reator multipropósito constitui uma plataforma para pesquisa, inovação e formação de recursos humanos, capaz de estimular o desenvolvimento de novos RFs e tecnologias e aproximar universidades, hospitais, centros de pesquisa e empresas.

Essa infraestrutura torna-se especialmente relevante diante do envelhecimento da população brasileira e do avanço de uma medicina cada vez mais orientada pelas características moleculares das doenças. Câncer, enfermidades cardiovasculares e doenças neurodegenerativas estão entre as condições que ganham importância nesse cenário e nas quais a MN possui aplicações diagnósticas e terapêuticas.

O RMB deve, portanto, ser compreendido como parte de uma estratégia de longo prazo para a ciência e a saúde brasileiras. Produzir radionuclídeos no país significa reduzir a vulnerabilidade diante de uma cadeia internacional sujeita ao tempo e a interrupções logísticas, ampliar a autonomia tecnológica, estimular a pesquisa e criar condições para que os avanços da MN cheguem aos pacientes com maior segurança, previsibilidade e sustentabilidade.

* Flávia Dornelas Kurkowski é Médica Nuclear no Instituto do Cérebro do Rio Grande do Sul

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