A transição energética precisa chegar à ponta

Em artigo ao CNN Infra, Aurelio Bustilho de Oliveira diz que a modernização da infraestrutura e novas tecnologias precisam avançar sem perder de vista custos, eficiência e acesso do consumidor 

* Por Aurelio Bustilho de Oliveira
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O Brasil tem uma vantagem que poucos países possuem quando o assunto é transição energética. Em 2025, 86,8% da matriz elétrica brasileira foi composta por fontes renováveis, segundo o Balanço Energético Nacional, da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Temos abundância de recursos naturais e condições para ampliar ainda mais essa participação. Mas produzir energia renovável não basta. A transição só estará completa quando seus benefícios econômicos chegarem, de fato, a quem está na ponta.

Mais demanda exigirá mais infraestrutura

Essa discussão ganha importância em um momento em que o sistema elétrico brasileiro exige investimentos relevantes. Precisamos modernizar redes de distribuição, ampliar a transmissão, incorporar armazenamento e preparar a infraestrutura para uma economia cada vez mais eletrificada.

Os órgãos do setor elétrico projetam crescimento médio de 4% ao ano na demanda de energia do país entre 2026 e 2030, com o avanço dos data centers entre os fatores considerados no planejamento.

Tudo isso exigirá investimentos. E haverá custos que precisarão ser distribuídos de forma eficiente e equilibrada.

A questão é como fazer essa transformação sem perder de vista quem paga a conta: famílias, pequenos negócios, produtores e empresas. É nesse ponto que a geração distribuída precisa fazer parte da discussão sobre o futuro do setor, ao lado da expansão da transmissão, da modernização das redes e do armazenamento.

O consumidor passa a participar da geração

A micro e minigeração distribuída chegou a 45 GW de capacidade instalada em 2025 e já alcança 7,2 milhões de consumidores no Brasil, segundo a EPE. O crescimento mostra uma mudança importante na relação dos brasileiros com a energia. O consumidor deixou de ser apenas o último elo de uma cadeia e passou a participar dela.

A geração compartilhada, que não chega a 10% do total da geração distribuída no Brasil, leva essa transformação ainda mais longe. Não é necessário ter um telhado disponível, comprar painéis solares ou investir em uma usina própria. A energia é produzida em fazendas solares e compartilhada com consumidores da mesma região atendida pela distribuidora. É um modelo que permite a famílias e pequenos negócios acessar os benefícios da energia renovável sem imobilizar capital.

Em um país desigual e de dimensões continentais, democratizar a energia passa por reduzir barreiras de entrada. Se os benefícios da transição estiverem disponíveis apenas para quem tem capital, escala ou conhecimento para investir em geração própria, teremos uma matriz mais renovável, mas não necessariamente uma transição mais inclusiva.

Para um pequeno negócio, a economia na conta de energia pode liberar recursos para equipamentos, estoque ou contratação. Para uma família, significa renda disponível para outras despesas.

Quando esse efeito alcança milhares de consumidores, surge uma dimensão ainda pouco explorada da geração distribuída: seu impacto sobre as economias locais. O recurso economizado pode voltar ao comércio, aos serviços e aos investimentos da região.

O modelo também precisa evoluir

Os desafios que a expansão da geração distribuída trouxe ao sistema elétrico existem e precisam ser enfrentados. O modelo também terá de evoluir. Custos de rede, equilíbrio entre os agentes, previsibilidade regulatória e sustentabilidade da expansão precisam fazer parte dessa discussão. Esse ambiente também é importante para dar segurança aos investidores.

O desafio é construir um desenho regulatório que reconheça esses custos sem perder de vista os benefícios que a geração próxima ao consumo pode oferecer.

O Brasil continuará precisando de grandes projetos de geração, novas linhas de transmissão, redes de distribuição mais robustas e investimentos em infraestrutura. Mas também faz sentido produzir energia perto de onde ela será consumida. Em um país do tamanho do nosso, colocar essas soluções em lados opostos é criar uma falsa escolha.

Tecnologia será parte da próxima etapa

A geração distribuída também terá de evoluir nas próximas décadas. Seu futuro passará por armazenamento, gestão inteligente do consumo, digitalização, sinais de preço e novos serviços. As empresas terão de estar mais próximas dos consumidores, ajudando-os não apenas a pagar menos pela energia, mas a consumi-la melhor.

Há ainda uma barreira mais básica. Apesar do crescimento da geração distribuída, muitos consumidores ainda associam energia solar exclusivamente à instalação de painéis no próprio imóvel.

O debate sobre a transição energética brasileira não deveria, portanto, se resumir a quantos gigawatts renováveis conseguiremos adicionar à matriz. Precisamos discutir quem terá acesso aos ganhos dessa transformação. 

Se conseguirmos fazer com que energia mais competitiva chegue à pequena empresa, ao produtor rural e às famílias de diferentes regiões do país, a transição energética terá feito mais do que transformar nossa matriz. Terá ajudado a ampliar competitividade, renda e oportunidades onde elas são mais necessárias.

Porque uma transição energética que muda a matriz, mas não amplia o acesso aos seus benefícios, será renovável, mas ainda não será democrática.

* Aurelio Bustilho de Oliveira é CEO da Órigo Energia, empresa que atua no segmento de geração distribuída de energia renovável no Brasil

Os artigos publicados pelo CNN Infra buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo. Os textos publicados neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião da CNN Brasil.