A transmissão de energia na era dos extremos climáticos
Em artigo à CNN Infra, Talita Porto lista ações das transmissoras para lidar com fenômenos adversos, ampliando a resiliência dos ativos

Quando tempestades severas e ventos acima de 100 km/h derrubam dezenas de torres de transmissão ou enchentes sem precedentes alagam cidades inteiras, a sociedade sente na pele a gravidade da nova realidade climática.
A queda de uma torre de transmissão é uma artéria do sistema elétrico que se rompe, desligando subestações e paralisando serviços essenciais, interrompendo o cotidiano de milhares de famílias e negócios. O impacto é amplo e imediato porque o Brasil depende de uma rede continental integrada para levar energia de onde ela é gerada até onde é consumida.
A maioria dos projetos elétricos em operação no país foi concebida sob premissas do passado, com base em séries estatísticas longas que já não capturam a intensidade nem a frequência dos eventos extremos de hoje. Rajadas de vento fora do padrão, queimadas severas, temporais e alagamentos históricos passaram a exigir um novo nível de preparação das redes elétricas.
Diante desse cenário, as empresas de transmissão atuam com agilidade e responsabilidade. Ampliamos a resiliência dos ativos ao incorporar sensores IoT, Inteligência Artificial e modelos de previsão meteorológica para apoiar decisões rápidas no campo. Ao mesmo tempo, reforçamos ações essenciais do dia a dia, como a limpeza rigorosa das faixas de servidão para prevenir incêndios e a inspeção contínua de linhas de difícil acesso.
Trata-se de uma verdadeira corrida de modernização da infraestrutura, mas ela não pode depender apenas de iniciativas operacionais isoladas. Garantir a resiliência do Sistema Interligado Nacional (SIN) exige coordenação e previsibilidade regulatória. Como grande parte dos contratos vigentes não refletia esses novos riscos climáticos, precisamos debater tecnicamente e com transparência a justa alocação de riscos e a regulamentação de forma a dar segurança jurídica aos contratos de concessão de transmissão.
O Brasil possui um dos maiores ativos energéticos do mundo, com quase 190 mil km de linhas e uma geração verificada nos últimos anos acima de 90% de fontes renováveis. Segundo o PDE 2035 da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), estima-se a necessidade de mais de 40 mil km de novas linhas e um investimento de R$ 120 bilhões para os próximos 10 anos. Para acompanhar esse crescimento com estabilidade, o planejamento de longo prazo, o ambiente regulatório seguro e a inovação tecnológica precisam caminhar juntos. A resiliência da transmissão representa a garantia da própria segurança energética do país.
* Talita Porto, presidente-executiva da Abrate (Associação Brasileira das Empresas de Transmissão de Energia Elétrica)
