Construção regenerativa: a infraestrutura além da sustentabilidade
Em artigo à CNN Infra, Luigi Scianni Romano afirma que com setor responsável por parcela significativa das emissões e do consumo de recursos, conceito propõe que edifícios não apenas reduzam impactos, mas também contribuam para o ambiente e o bem-estar dos ocupantes

Durante décadas, a discussão sobre os impactos ambientais da construção civil esteve concentrada em uma ideia central: como construir causando menos danos. A busca por eficiência energética, redução de resíduos, economia de água e uso de materiais de menor impacto transformou projetos e processos.
Agora, uma nova abordagem começa a ampliar essa discussão: a construção regenerativa. A mudança parte de uma diferença de perspectiva. Em vez de considerar suficiente a redução dos impactos provocados por uma obra, a construção regenerativa propõe que edifícios sejam pensados para contribuir positivamente com o ambiente e com as pessoas que os ocupam. A discussão ganha relevância diante da dimensão dos impactos do setor.
Segundo o Global Status Report for Buildings and Construction 2025-2026, do PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), a construção civil e a operação dos edifícios respondem por cerca de 37% das emissões globais de CO₂ e 28% do consumo mundial de energia, além de representarem quase metade da extração de materiais do planeta. Em 2024, as emissões operacionais dos edifícios cresceram 1%, alcançando 9,9 gigatoneladas de CO₂.
Nesse cenário, a sustentabilidade passa a ser vista como parte de uma transformação mais ampla. A lógica regenerativa considera o ciclo de vida dos materiais, a relação da edificação com o entorno, o consumo de recursos, a eficiência energética e as condições oferecidas aos ocupantes.
Do impacto ambiental à experiência de quem ocupa A construção regenerativa também amplia o debate sobre o desempenho dos ambientes. Características como conforto térmico, qualidade do ar e composição dos materiais deixam de ser exclusivamente questões técnicas e passam a ser relacionadas à experiência cotidiana dos usuários. Um exemplo é a preocupação com os compostos orgânicos voláteis (COVs), substâncias presentes em determinados materiais e produtos utilizados em ambientes internos.
A escolha de materiais com menor emissão desses compostos pode integrar estratégias voltadas à qualidade do ar interior. O mesmo vale para o conforto térmico. Projetos que consideram orientação solar, ventilação, materiais e isolamento podem reduzir a dependência de sistemas artificiais de climatização, ao mesmo tempo em que buscam proporcionar condições mais confortáveis aos ocupantes.
A mudança também interfere na maneira como os materiais são especificados.
Não existe construção regenerativa se a escolha dos materiais continua seguindo apenas a lógica do acabamento. A regeneração precisa começar naquilo que colocamos dentro da obra.
A Alphaz Concept atua nesse segmento por meio de soluções voltadas a materiais, revestimentos e pisos, além de iniciativas relacionadas à qualidade e à salubridade dos ambientes, como o Selo Casa Saudável.
A atuação da empresa ilustra uma tendência de incorporar critérios de saúde e desempenho à especificação de produtos para além de sua função estética. No mercado de alto padrão, essa demanda se encontra com uma valorização crescente de atributos que não necessariamente são percebidos apenas pela aparência do imóvel. Conforto, desempenho térmico, qualidade do ar e materiais utilizados nos ambientes passam a integrar a percepção de qualidade de uma construção. Decisões que permanecem por décadas A urgência da discussão está também relacionada à velocidade com que novas edificações são construídas.
De acordo com o PNUMA, cerca de 12,7 milhões de metros quadrados de área construída são adicionados diariamente no mundo. O relatório estima ainda que aproximadamente metade dos edifícios que existirão em 2050 ainda não foram construídos. Isso significa que as escolhas feitas hoje, desde os materiais empregados até as estratégias de eficiência e integração com o ambiente, terão efeitos durante décadas.
Nesse sentido, a construção regenerativa não representa apenas uma mudança de terminologia em relação à construção sustentável.
O conceito propõe ampliar o objetivo dos projetos: de reduzir impactos para buscar benefícios ambientais e humanos ao longo do ciclo de vida das edificações.
A transformação, porém, depende de decisões que vão desde o planejamento arquitetônico até a seleção dos materiais e a forma como os espaços são utilizados. Se a construção civil ocupa uma posição central no consumo de recursos e nas emissões globais, o debate que se abre agora é sobre como transformar os próprios edifícios em parte da solução e não apenas em estruturas que causem menos impacto.
Luigi Scianni Romano é especialista em construções regenerativas e CEO da Alphaz Concept*
