CPFL admite interesse em compra da Enel SP se ativo for colocado à venda
Empresa controlada pela chinesa State Grid diz que mantém estratégia de crescimento por aquisições e afirma que seria candidata caso a distribuidora paulista seja colocada no mercado
A CPFL Energia confirmou que teria interesse em disputar uma eventual aquisição da concessão da Enel Distribuição São Paulo caso a empresa italiana decida vender o ativo. A declaração foi feita pelo CEO da companhia, Gustavo Estrella, em entrevista ao programa Alta Voltagem, da CNN Brasil.
Segundo o executivo, a CPFL mantém uma estratégia de crescimento baseada tanto no aumento dos investimentos em seus ativos atuais quanto em novas aquisições, o que coloca a companhia como potencial interessada em qualquer distribuidora relevante que venha a ser colocada à venda.
"Somos um dos maiores grupos de energia do Brasil com estratégia de crescimento dos nossos negócios atuais por aumento de investimentos, como temos feito nos últimos anos, mas também por aquisições. É claro que, assim como este ativo de São Paulo ou qualquer outro ativo que venha para o mercado, nós somos potenciais compradores", afirmou.
Questionado diretamente se a CPFL seria candidata caso a Enel optasse por vender a concessão paulista, Estrella respondeu que tem interesse em continuar crescendo, “especialmente agora com a perspectiva renovada das concessões", disse, em referência à renovação dos contratos das distribuidoras CPFL Paulista, CPFL Piratininga e CPFL RGE.
A declaração ocorre em um momento em que a concessão da Enel São Paulo segue no centro do debate sobre o futuro da distribuição de energia no estado. A empresa enfrenta uma forte crise institucional após sucessivos apagões que deixaram milhões de consumidores sem energia.
No episódio mais recente, mais de 4 milhões de imóveis foram afetados. Uma das principais causas foi a queda de árvores sobre a rede elétrica, problema que evidenciou as dificuldades não apenas da concessionária em fazer frente a eventos climáticos extremos, como também a questões relacionadas ao manejo da vegetação nas áreas urbanas, responsabilidade das prefeituras.
A distribuidora da Enel atende cerca de 8,5 milhões de unidades consumidoras em 24 municípios da Região Metropolitana de São Paulo, incluindo a capital, sendo considerada o maior ativo de distribuição de energia elétrica do país.
Atualmente, a empresa enfrenta um processo que pode levar à caducidade da concessão, caso ocorra a recomendação por parte da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) para o MME (Ministério de Minas e Energia), representando a União como poder concedente.
Cenários para a concessão
Embora a Enel tenha reiterado que não pretende vender a operação paulista, o mercado passou a especular sobre potenciais compradores diante da pressão política e regulatória intensificada após os apagões. Atualmente, quatro possibilidades são discutidas para o futuro da concessão da Enel São Paulo.
A primeira é a caducidade, processo em que a Aneel recomenda a extinção da concessão e a decisão final cabe ao Ministério de Minas e Energia, representando a União como poder concedente.
Outra hipótese é a intervenção, na qual o poder concedente nomeia um interventor para administrar temporariamente a distribuidora.
Também é considerada uma troca de controle societário, com a venda da operação para outro grupo empresarial.
Por fim, existe a possibilidade de uma relicitação da concessão, cujo contrato atual vence em 2028.
Histórico de interesse
Não seria a primeira vez que a CPFL demonstra interesse em ativos da Enel. Em 2023, a companhia participou da disputa pela aquisição da Enel Ceará (antiga Coelce), processo que acabou não sendo concluído após a controladora italiana desistir da venda.
Na época, outras empresas, como Equatorial, também entraram na disputa pelo ativo. Hoje, novos “playes” também são colocados como interessados, como Neoenergia e Âmbar, dos irmãos Batista.
Controlada pela chinesa State Grid, a CPFL possui uma das estruturas financeiras mais sólidas entre as grandes distribuidoras brasileiras. No último balanço divulgado pela companhia, a relação entre dívida líquida e Ebitda era de 2,31 vezes, nível considerado confortável pelo mercado para suportar novos investimentos ou eventuais aquisições.
Ao comentar os desafios do setor, Estrella ressaltou que as distribuidoras operam em um ambiente cada vez mais complexo em razão da intensificação dos eventos climáticos extremos e da necessidade de melhor gestão da vegetação nas áreas urbanas.
Segundo ele, as condições de operação têm se tornado mais severas, com tempestades mais frequentes e intensas, além das dificuldades relacionadas ao manejo inadequado da arborização nas grandes centros urbanos, fatores que aumentam os riscos para a continuidade do fornecimento de energia.
Em nota, a Enel disse que reafirma o interesse na renovação da concessão em São Paulo e nega especulações sobre negociações ou discussão envolvendo a troca de controle da distribuidora. A companhia disse ainda que reforça seu compromisso de longo prazo com o Brasil, País que é e sempre foi estratégico para a Enel, um dos maiores grupos econômicos de energia do mundo.
"A distribuidora seguirá trabalhando para demonstrar firmemente, em todas as instâncias, que tem cumprido integralmente com todos os indicadores previstos em contrato e no plano de recuperação apresentado em 2024 ao regulador."