Data centers: Brasil precisa resolver o gargalo da infraestrutura elétrica
Em artigo à CNN Infra, João Carlos de Oliveira Mello alerta que, se conexão à rede demorar, investimentos podem procurar outros destinos

A inteligência artificial colocou os data centers no centro de uma disputa global por investimentos. Países capazes de oferecer energia competitiva, segurança de suprimento, conectividade e regras previsíveis terão vantagem na economia digital. O Brasil reúne atributos importantes nessa corrida, em especial uma matriz elétrica predominantemente renovável. Porém, hoje há um descompasso entre a velocidade dos investimentos digitais e a expansão da infraestrutura necessária para atendê-los.
Um data center pode entrar em operação em cerca de dois anos. Os reforços na estrutura do sistema de transmissão podem exigir de cinco a sete anos. Para projetos que disputam capital em escala global, essa diferença é decisiva. Se a conexão à rede demora, o investimento procura outro destino.
O problema não está na falta de energia. O Brasil dispõe de grande potencial de geração renovável, mas enfrenta restrições na rede, tanto para escoar a produção quanto para conectar novas cargas. A chegada de empreendimentos que demandam centenas de megawatts e alta confiabilidade exige que o planejamento elétrico incorpore uma realidade que muda rapidamente.
O país passou a adotar regras mais rigorosas para o acesso ao sistema de transmissão. O objetivo é legítimo: impedir que agentes sem projetos consistentes reservem uma capacidade escassa para fins especulativos. A questão é encontrar o equilíbrio. Garantias financeiras elevadas, exigidas quando ainda existem definições importantes sobre o empreendimento, podem afastar também investidores com projetos sólidos.
A regulação precisa ser capaz de distinguir essas complexidades e diferenças. Critérios como maturidade do projeto, capacidade financeira, experiência de investidores e consistência técnica podem contribuir para a seleção de empreendimentos com condições reais de implantação sem impor a todos o mesmo nível de exigência.
A tributação é outra questão que pode se tornar outro obstáculo. Equipamentos representam parcela relevante do investimento em um data center, e a diferença de custos em relação a outros mercados reduz a competitividade brasileira. Medidas tributárias capazes de corrigir essa desvantagem são importantes, mas precisam fazer parte de uma estratégia mais ampla e holística.
A agenda digital deve estar alinhada ao planejamento do setor elétrico, à política tributária e às regras para infraestrutura tecnológica e tratamento de dados. O país não pode tratar cada uma dessas questões de forma isolada. A conexão entre elas é crucial.
Também é necessário aproximar os horizontes de planejamento. O setor elétrico trabalha com obras de longa maturação por razões técnicas, ambientais e regulatórias. A economia digital opera em ciclos muito mais curtos. Essa diferença não desaparecerá, entretanto, a adoção de processos mais eficientes, planejamento antecipado e soluções de transição podem reduzir seus efeitos.
Data centers são parte da infraestrutura que sustentará computação em nuvem, serviços digitais e aplicações de inteligência artificial. Os países que atraírem esses investimentos ampliarão sua capacidade de processamento e sua inserção nas cadeias tecnológicas globais.
O Brasil ainda pode ocupar uma posição relevante nesse mercado. Para isso, precisa oferecer um caminho previsível entre a decisão de investir e a conexão à rede. Regras devem afastar a especulação sem transformar a falta de infraestrutura em uma barreira adicional. A corrida global por capacidade computacional já começou. Se a rede elétrica brasileira não acompanhar a velocidade dessa transformação, o investimento encontrará outro destino.
* João Carlos de Oliveira Mello é CEO e fundador da Thymos Energia
