Dragagem emergencial do Tapajós é importante para a economia e a população

Em artigo à CNN Infra, Ricardo Alban pede ação urgente do governo para atenuar os efeitos do "Super El Niño" e preservar a navegabilidade do rio

* Ricardo Alban
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Um dos pilares essenciais para a competitividade da indústria brasileira é uma infraestrutura eficiente que permita o escoamento das cargas de forma segura, rápida e com preço competitivo. Nosso país carece de uma logística adequada para essa finalidade e a situação fica ainda pior quando o poder público veta ou interrompe obras essenciais sem justificativas plausíveis. É o que está acontecendo no Rio Tapajós, que precisa com urgência de dragagem emergencial para que o assoreamento não prejudique a navegação e a consequente movimentação de cargas e passageiros. 

O setor produtivo espera que o governo autorize a dragagem emergencial e necessária de trechos do Tapajós considerados fundamentais para a navegação, e não leve em consideração pressões contrárias de lideranças locais que carecem de fundamentação técnica adequada. 

A experiência recente demonstra que a falta de medidas preventivas pode gerar consequências severas. Durante a seca extrema de 2024, a navegação na Bacia do Tapajós foi drasticamente reduzida, comprometendo o transporte de cargas, provocando desabastecimento na Região Norte e isolando mais de nove mil famílias ribeirinhas. Diante da previsão de um novo período de estiagem intensa, agravado pela possibilidade de um “Super El Niño”, ignorar esse histórico significa correr o risco de repetir um problema que poderia ser evitado. 

A importância da Hidrovia do Tapajós para o Brasil vai muito além do transporte de grãos. Com aproximadamente 280 quilômetros entre Itaituba e Santarém, ela conecta a produção do Centro-Oeste ao Arco Norte e garante o abastecimento de comunidades ribeirinhas e indígenas, além de assegurar o deslocamento de passageiros e o acesso a serviços essenciais. Em 2025, a hidrovia movimentou 16,8 milhões de toneladas de cargas, um crescimento de 14,3% em relação ao ano anterior. Soja e milho representam a maior parte desse volume, mas fertilizantes, combustíveis e outros produtos indispensáveis também dependem desse corredor logístico. 

Caso a dragagem não seja realizada, os impactos econômicos serão significativos. Estima-se que até 5,5 milhões de toneladas de grãos deixem de ser escoadas em 2026, gerando custos logísticos adicionais da ordem de R$ 500 milhões. Além disso, a necessidade de transferir essas cargas para rotas rodoviárias mais longas elevará os custos de transporte e aumentará a emissão de cerca de 55 mil toneladas de dióxido de carbono (CO₂), tornando a decisão prejudicial também do ponto de vista ambiental. 

É importante destacar que a proposta de dragagem não prevê uma intervenção ampla no rio. Trata-se de uma operação emergencial e pontual, limitada à retirada de sedimentos em apenas sete trechos críticos, que representam menos de 2% da extensão navegável entre Miritituba e Santarém. A execução foi planejada para ocorrer em cerca de 90 a 100 dias, e empresas do setor se dispuseram a custear integralmente os trabalhos, cabendo ao poder público fiscalizar sua realização e garantir o cumprimento das normas ambientais. 

Qualquer intervenção dessa natureza respeitará rigorosamente as salvaguardas ambientais e sociais, assegurando o diálogo com povos indígenas e comunidades tradicionais. Essas responsabilidades, porém, não podem justificar inação diante de um risco previsível e iminente. Por isso, a CNI, as federações das indústrias e o segmento produtivo fazem um apelo ao governo federal para que passe a coordenar, com transparência, segurança jurídica e celeridade, as medidas necessárias para preservar a navegabilidade do Tapajós, mitigando riscos à população, ao abastecimento regional e à economia brasileira. 

A CNI tem acompanhado atentamente a questão do Tapajós, por meio de seu Conselho de Infraestrutura, que inclusive já manifestou preocupação junto ao governo quanto a urgência da dragagem. O Coinfra pede que decisões sejam tomadas com celeridade para que os impactos do El Niño não paralisem o escoamento de cargas nessa região tão importante para o país. 

A ação do governo mostra-se necessária e urgente. Autorizar a dragagem emergencial do Tapajós significa preservar um dos principais corredores logísticos do país, proteger milhares de brasileiros que dependem diretamente do rio e evitar prejuízos econômicos e ambientais que poderiam ser minimizados por meio de uma ação responsável, transparente e baseada em critérios técnicos. Mais do que uma obra de infraestrutura, trata-se de uma decisão estratégica para o desenvolvimento e para o interesse público. 

* Ricardo Alban é empresário e presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria)

 

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