Gargalo na transmissão trava novos projetos de energia
Hitachi Energy afirma que expansão da geração não foi acompanhada pela rede e já limita novos investimentos

O rápido avanço da geração de energia no Brasil, impulsionado sobretudo por subsídios a fontes renováveis, começa a expor um novo ponto crítico no setor elétrico: a transmissão. Em entrevista ao programa Alta Voltagem, da CNN, o presidente da Hitachi Energy para a América Latina Sul, Glauco Freitas, afirmou que o país saiu de uma escassez de oferta para um cenário em que o principal gargalo está na capacidade de escoar essa energia.
Segundo o executivo, o Brasil ampliou de forma significativa sua capacidade de geração nos últimos anos, o que reposicionou o país no cenário internacional. Entretanto, a expansão da transmissão não acompanhou esse ritmo.
“Desde a pandemia, crescemos em 30% nossa capacidade de geração. Isso é fantástico e tornou o Brasil referência mundial. O gargalo virou a transmissão de energia, que também é uma referência internacional, pois interliga todos os estados da federação, mas precisamos de uma rede mais robusta, inteligente, interconectada e resiliente”, afirmou.
Apesar de o sistema brasileiro ser reconhecido pela sua abrangência e integração, o avanço da infraestrutura de transmissão ainda ocorre em velocidade inferior à necessária para suportar a nova demanda.
Dados da EPE (Empresa de Pesquisa Energética) indicam que os investimentos em transmissão devem somar cerca de R$ 96 bilhões entre 2023 e 2026. Ainda assim, o executivo pondera que, embora os leilões estejam acontecendo, há um descompasso em relação às necessidades do sistema. “Está no ritmo certo? Não, mas começou a acontecer”, disse.
O planejamento atual dos empreendimentos no Brasil, que prevê entregas entre 42 e 60 meses, está dentro da capacidade de execução das empresas. Porém,em projetos renováveis, como eólicas e solares ficam prontos, muitas vezes em até 24 meses.
O impacto dessa limitação da infraestrutura de transmissão já começa a afetar decisões de investimento em setores intensivos em energia. Freitas cita indústrias como a de veículos elétricos, data centers, projetos de descarbonização e produção de hidrogênio verde como exemplos de atividades que demandam grande volume de energia, mas enfrentam dificuldades para se conectar à rede. “A gente vê todo dia um caso diferente de empreendimentos que querem se instalar no Brasil e não conseguem”, afirmou.