Governo avalia usar R$ 800 mi do bônus de Itaipu para segurar conta de luz

Reajuste da conta de luz vem acendendo alerta no Palácio do Planalto em meio ao ano eleitoral

Robson Rodrigues, Danilo Moliterno, da CNN Brasil, São Paulo e Brasília
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O governo estuda utilizar cerca de R$ 800 milhões da Conta de Comercialização de Energia de Itaipu para conter a alta das tarifas de energia elétrica em 2026, apurou a CNN. A medida é discutida internamente como alternativa para aliviar o impacto da conta de luz para os consumidores em um cenário de pressão sobre preços e inflação.

A iniciativa ocorre em paralelo a um movimento antecipado pela reportagem quando o MME (Ministério de Minas e Energia), que enviou ofício à Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) solicitando o adiamento dos processos de reajuste tarifário ao longo de março, sob o argumento de que ainda avalia alternativas para mitigar os aumentos.

O reajuste da conta de luz passou a preocupar ainda mais o Palácio do Planalto em meio à crise no Oriente Médio e aumento do preço dos combustíveis, segundo fontes próximas ao assunto.

Além de evitar um desgaste duplo em ano eleitoral, com preços mais altos na energia e no combustível, o governo passou a se preocupar com o efeito das altas no IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo).

Caso os preços ameacem levar o índice para fora da tolerância da meta de inflação, o ciclo de corte na taxa de juros poderia ser adiado.

 

De onde vem o dinheiro

A estratégia em análise prevê a utilização do saldo positivo da chamada “Conta Itaipu”, administrada pela ENBPar, estatal que controla a  parte brasileira da usina. Embora leve o nome da hidrelétrica binacional, trata-se de um mecanismo financeiro que concentra todos os créditos e débitos decorrentes da comercialização da energia, incluindo valores pagos por distribuidoras, compensações e ajustes tarifários acumulados ao longo do tempo. Procurada, a ENBPar não retornou o contato.

Segundo fontes, o montante atualmente disponível é resultado da soma de recursos acumulados em 2024 e 2025, além de valores mais recentes, incluindo devoluções feitas por distribuidoras de energia em razão de diferimentos tarifários. Esses diferimentos correspondem a valores que deixaram de ser repassados integralmente às tarifas em períodos anteriores e que, posteriormente, retornam à conta.

Essa não é a única alternativa. O MME tentou também articular com o BNDES a abertura de uma linha de crédito com juro equivalente à Selic, sem spread, para viabilizar diferimentos tarifários em distribuidoras que devem enfrentar reajustes de dois dígitos em 2026. A apuração é do portal de notícias Megawhat.

Na prática, o governo avalia transformar esse saldo em um novo “bônus de Itaipu”, mecanismo já utilizado em anos anteriores para devolver recursos aos consumidores. A ideia é que o crédito seja concedido nas faturas de energia a partir de julho, funcionando como uma espécie de abatimento direto na conta de luz.

Importante lembrar que o chamado “bônus de Itaipu” é usado para aliviar as tarifas dos consumidores de energia residencial e rural com consumo de até 350 quilowatts-hora (kWh) por mês. Dentro desse limite, o valor do bônus deve variar conforme o consumo individual, de forma que consumidores que utilizam mais energia recebam um crédito proporcionalmente maior.

Apesar de levar o nome de “bônus”, não se trata, tecnicamente, de um benefício, e, sim, da devolução na forma de desconto na conta de energia de recursos que foram cobrados a mais dos consumidores face à variação do câmbio e da geração de energia.