Governo estuda até onde é possível agregar valor aos minerais críticos
Executivo federal ainda tem dúvidas sobre como formular uma política industrial que não limite investimentos estrangeiros, mas permita ao país avançar em etapas mais valorizadas da cadeia de minerais críticos

Entre visões mais protecionistas e outras mais voltadas à abertura de mercado, o governo federal ainda tenta entender até que ponto é possível colocar em prática o discurso de agregação de valor aos minerais críticos.
Esse — além das diferentes visões de mundo que existem dentro do próprio governo — é um dos principais motivos para o Executivo ter pedido, mais uma vez, o adiamento da apresentação do relatório final da política nacional dos minerais críticos, relatada pelo deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP).
O deputado, que já apresentou uma espécie de versão prévia do seu texto final, deixou claro que não há espaço, dentro do Congresso Nacional, para propostas como a criação de uma nova estatal ou a restrição de exportações, ideias defendidas por uma ala minoritária do governo, mas com influência junto ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O marco legal, que vai definir o arcabouço de incentivos para o setor nos próximos anos, deve seguir uma linha mais voltada à atração de investimentos internacionais e à abertura de mercado, mas com menções e incentivos, inclusive tributários, à agregação de valor em território nacional.
O governo, por outro lado, que faz questão de reforçar que quer agregar valor e não será um “exportador de matéria-prima” sempre que trata do tema publicamente, ainda não sabe exatamente como e até que ponto é possível avançar nessa direção.
De fato, é uma discussão complexa. Existem diferentes opções quando o assunto é agregação de valor, e isso depende muito de qual mineral está sendo tratado, já que os minerais críticos formam um grupo de dezenas de minérios, com diferentes aplicações, complexidades e cadeias produtivas.
Nas terras raras, por exemplo, a cadeia começa com a extração e o beneficiamento inicial, passa pela produção de um concentrado misto — que reúne vários elementos em um único material — e pode avançar para etapas mais complexas, como a separação dos óxidos e, depois, a fabricação de ímãs permanentes.
A extração básica e a exportação de minério bruto, no caso das terras raras, sequer são uma alternativa para os projetos no Brasil.
Na prática, o que se prevê é a exportação desse concentrado misto, um produto intermediário que ainda precisa passar por etapas industriais mais avançadas, mas que já requer certa capacidade industrial e tecnológica.
O que o governo tenta entender é como, e se é possível, avançar para fases como a separação dos óxidos, a fabricação de ímãs e, eventualmente, até produção de baterias em território nacional.
Mineradoras afirmam que é possível avançar ao menos até a etapa de separação, mas que isso exigirá incentivos do governo, não só tributários, mas também condições de financiamento e segurança regulatória.
Já a fabricação de ímãs, ou de baterias, é vista como mais distante. Na maioria dos casos, as mineradoras não são responsáveis pela produção dos produtos finais em que esses minerais são utilizados.
O lítio, por exemplo, é matéria-prima fundamental para baterias de veículos elétricos e dispositivos eletrônicos, mas a fabricação dessas baterias ocorre em indústrias químicas e tecnológicas, e não nas próprias mineradoras.
A Companhia Brasileira de Lítio, por exemplo, já opera no país uma refinaria capaz de produzir compostos de lítio com grau de pureza de até 99,5%, padrão conhecido como “battery grade”, utilizado na fabricação de baterias.
A produção de compostos de lítio com esse padrão já representa uma das etapas mais avançadas da cadeia mineral.
A partir daí, porém, o processo entra em outra indústria: a de materiais catódicos, células e baterias, mais intensiva em tecnologia e manufatura do que propriamente em mineração.
É aí que está uma das maiores dificuldades do governo na formulação da política industrial: trata-se de uma outra indústria, mais complexa, intensiva em tecnologia e hoje concentrada em poucos países, que vai além do escopo tradicional da mineração.
Ou seja, o desafio não é apenas produzir o mineral ou refiná-lo, mas criar condições para atrair ao país etapas industriais mais avançadas, hoje concentradas no exterior e dominadas por grandes grupos com escala, tecnologia e mercado.
Por isso, representantes do setor defendem que, se o Brasil quiser avançar de fato na industrialização desses minerais, será necessário tratar o tema como uma estratégia de Estado, à semelhança do que já fazem países como Austrália e Estados Unidos, com incentivos fiscais, financiamento público e políticas industriais voltadas aos minerais críticos.


