ICTSI faz novo apelo ao Cade contra operação entre MSC e Maersk em Santos

Operadora filipina pede freio do órgão antitruste ao compromisso de desinvestimento das duas armadoras na BTP para participar do leilão de novo terminal de contêineres

Daniel Rittner, da CNN Brasil, Brasília
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O grupo filipino ICTSI fez um novo pedido ao Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) contra a operação apresentada pela suíça MSC e pela dinamarquesa Maersk para reorganizar o controle da BTP (Brasil Terminal Portuário) no âmbito da intrincada disputa em torno das regras para o leilão do Tecon Santos 10.

Em manifestação complementar à Superintendência-Geral do Cade, protocolada na quinta-feira passada (13), a ICTSI alega que um desinvestimento da MSC ou da Maersk na BTP seria "impossível" de ocorrer até a assinatura do contrato do Tecon Santos 10 e levaria de dois a três anos.

Dessa forma, o cronograma de saída de uma ou de outra coincidiria com a própria entrada em funcionamento do novo terminal de contêineres, o que garantiria a operação simultânea de contêineres pelas duas empresas enquanto o Tecon Santos 10 estiver em construção, segundo o grupo filipino.

O porto paulista tem hoje três terminais de contêineres operando. Um deles é a BTP, no qual MSC e Maersk são sócias por meio de suas subsidiárias, com 50% cada. Os outros dois terminais são da Santos Brasil (controlada pela francesa CMA CGM) e pela DPW (Dubai Ports World).

A MSC e a Maersk apresentaram ao Cade um compromisso pelo qual uma venderia sua parte à outra em caso de vitória na disputa pelo Tecon 10.

As regras do certame ainda estão indefinidas e o leilão já foi adiado pelo menos oito vezes desde a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

No atual governo, a modelagem inicialmente proposta foi um leilão em duas fases, no qual a primeira etapa ficaria restrita a novos entrantes no porto. Os incumbentes só poderiam participar em caso de falta de interessadas na rodada preliminar.

A Casa Civil propõe um certame em fase única, mas quer condicionar a entrada dos atuais operadores de contêineres em Santos à venda de seus ativos antes da assinatura do contrato, caso arrematem o Tecon 10.

A ICTSI, que é a maior operadora independente (sem uma companhia de navegação marítima no mesmo grupo), sustenta que não há tempo suficiente para isso.

"O prazo de 180 dias [estimado até a assinatura do contrato] é insuficiente, impossível e impraticável", argumentam os advogados Gabriel Nogueira Dias e Yi Shin Tang, que representam a empresa filipina, em petição ao Cade.

Eles anexaram trechos de entrevista de um executivo da APM (braço da Maersk que opera terminais de contêineres) estimando em dois a três o período necessário para um eventual desinvestimento na BTP.

"As requerentes sempre reconheceram que um desinvestimento efetivo, apto a introduzir terceiro independente no mercado, não se compatibiliza com solução instantânea, rápida ou simples, enfatizando a complexidade do negócio e a importância de tempo hábil e razoável", afirma a ICTSI.

De acordo com o grupo filipino, o cronograma de dois a três coincidiria com o prazo para construir o Tecon Santos 10, de modo que "uma protegeria a outra [em referência à MSC e à Maersk] até que ambas tivessem seu próprio ativo no mais pleno funcionamento".

Procuradas pela CNN, a MSC e a Maersk preferiram não fazer comentários.

Na semana passada, o jornal Folha de S. Paulo publicou que a Superintendência-Geral do Cade deve dar aval prévio à operação, fortalecendo a tese de fim às restrições para a participação delas no leilão do Tecon Santos 10.

A ICTSI, por sua vez, pede que a decisão não seja objeto de um rito sumário -- com definição pela Superintendência-Geral -- e ganhe um rito ordinário, indo para análise do Tribunal do Cade.

O grupo filipino pleiteia ainda a suspensão da análise até que o edital do leilão seja publicado e a instauração de um processo sancionador para investigar suposta "conduta coordenada" entre as duas gigantes da navegação.

Segundo os advogados, a proposta de desinvestimento trata-se de "acordo entre concorrentes destinado a dividir mercado e a fraudar a entrada de novos competidores" em Santos.