No CNN Talks, governo e setor privado debatem conselho de minerais críticos

Relator diz que governo já prepara regulamentação, enquanto representantes do setor cobram critérios claros para evitar que colegiado vire gargalo

Gabriel Garcia, da CNN Brasil
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A criação de um novo conselho para coordenar a política nacional de minerais críticos e estratégicos concentrou parte dos debates desta terça-feira (30) no CNN Talks: Nova Era da Mineração.

O tema aparece no projeto aprovado pela Câmara dos Deputados que cria a PNMCE (Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos). A proposta ainda precisa ser analisada pelo Senado, mas já mobiliza governo, Congresso e setor privado em torno dos poderes e dos limites do novo colegiado.

O texto aprovado cria o CIMCE (Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos), vinculado à Presidência da República. O órgão terá papel na definição de prioridades, no acompanhamento de projetos estratégicos e na orientação de instrumentos de apoio ao setor.

Na prática, o conselho também terá poder para analisar e barrar operações consideradas sensíveis, o que aumentou a preocupação de empresas sobre o grau de intervenção do governo em projetos, contratos e decisões empresariais.

Relator da proposta na Câmara, o deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP) afirmou que o governo federal já trabalha na regulamentação do conselho, mesmo antes da conclusão da análise pelo Senado.

“Posso revelar que o governo está trabalhando nessa regulamentação. O fato de o projeto estar no Senado não significa que está parado. A regulamentação está caminhando e está sendo feita”, disse Jardim.

Pelo texto aprovado na Câmara, a regulamentação deverá ocorrer em até 90 dias após a aprovação definitiva da proposta. Segundo Jardim, a intenção é que o conselho se concentre em grandes projetos, e não na análise de operações menores ou rotineiras do setor.

Do lado do setor privado, a principal demanda é por critérios objetivos. Presidente do conselho da AMC (Associação de Minerais Críticos), Marisa Cesar afirmou que a proposta ainda precisa deixar claro quais minerais serão tratados como críticos e quais tipos de projetos deverão passar pelo crivo do colegiado.

“Dentro da política, não está definido quais são os minerais críticos, e todos vão passar pelo crivo do conselho. Ao mesmo tempo, qual é o tipo de projeto que teremos para ser aprovado no conselho?”, questionou Marisa.

Ela argumentou que a discussão não é sobre a existência ou não do conselho, mas sobre os filtros que serão aplicados.

Para a AMC, o modelo precisa evitar que contratos menores, estruturas de offtake e operações sem risco estratégico relevante sejam submetidos a uma análise excessiva.

Marisa citou experiências internacionais, como Austrália e Canadá, onde políticas para minerais críticos usam critérios ligados ao valor da operação, ao perfil do investidor e a riscos geopolíticos.

No caso australiano, segundo ela, nem todas as operações passam pelo crivo do governo. A análise considera, por exemplo, participação de países considerados hostis e valores mais elevados, na casa de bilhões de dólares.

A executiva também mencionou o Canadá como exemplo de país que adota restrições mais claras à entrada de determinados investidores estrangeiros em ativos estratégicos. A lógica, afirmou, é proteger cadeias sensíveis sem travar todo o fluxo de capital privado para o setor.

Presidente do Simineral-PA (Sindicato das Indústrias Minerais do Estado do Pará), Anderson Baranov, também defendeu uma discussão menos genérica sobre minerais críticos.

Para ele, o Brasil precisa avaliar mineral por mineral antes de definir onde quer apenas exportar matéria-prima e onde há espaço real para agregação de valor.

“Temos maturidade para viver o que estamos vivendo hoje como sociedade? Sabemos o que queremos? Por que não discutimos uma coisa maior: o que queremos? Quais minerais têm vocação apenas para exportação? Quais vamos agregar valor?”, disse.

A fala resume uma das principais preocupações do setor privado: evitar que a política de minerais críticos seja tratada como uma regra única para cadeias muito diferentes entre si.

Empresas defendem que a estratégia nacional leve em conta vocação geológica, demanda interna, capacidade industrial, competitividade, escala dos projetos e possibilidade real de processamento no Brasil.

O governo, por outro lado, argumenta que a criação do conselho é necessária para organizar prioridades nacionais em um momento de disputa global por minerais usados em baterias, energia renovável, defesa, fertilizantes, semicondutores e equipamentos de alta tecnologia.

A avaliação dentro do Executivo é que o Brasil precisa deixar de atuar apenas como fornecedor de matéria-prima e ampliar sua presença nas etapas de maior valor agregado, como beneficiamento, refino, transformação industrial e fabricação de componentes.

“Discordo da avaliação de que o projeto excede nos poderes outorgados ao conselho”, disse o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, ao argumentar que o colegiado precisa ter instrumentos para coordenar a política nacional de minerais críticos e estratégicos.

O debate também passou pela capacidade do Brasil de transformar potencial geológico em projetos concretos. O diretor-presidente do SGB (Serviço Geológico do Brasil), Vilmar Simões, afirmou que a retomada de levantamentos de geofísica aérea ajuda a reduzir riscos para investidores e melhora o conhecimento sobre áreas com potencial mineral no país.

“Geofísica aérea estava parada no país há décadas. A partir de 2025, voltamos a utilizar esse método, aliado à geoquímica, e disponibilizar esses dados à sociedade”, disse Simões.

Segundo ele, a produção de dados geológicos, geofísicos e geoquímicos pré-competitivos é uma forma de dar mais segurança ao setor. Essas informações ajudam empresas, governos e pesquisadores a identificar regiões promissoras antes da fase de pesquisa mineral mais detalhada, reduzindo incertezas em um setor de alto risco e longo prazo de maturação.

A previsibilidade também foi defendida pelo CEO da Belo Sun, Clóvis Torres. O executivo afirmou que o Brasil tem ambiente favorável para mineração, mas citou a complexidade do licenciamento ambiental como um dos principais desafios para transformar projetos em operação.

“O Brasil é um país extremamente propício para a mineração. Ouvimos isso direto no Canadá, como é difícil licenciar no Canadá. Realmente, hoje temos um ambiente organizado e fácil. As leis brasileiras são pro business na mineração”, afirmou Torres.

Apesar dos elogios, o executivo disse que a multiplicidade de órgãos envolvidos nos processos de licenciamento pode gerar incertezas.

Ele também afirmou que a empresa tem dialogado com comunidades locais e que o avanço da mineração formal pode ajudar a organizar áreas pressionadas pelo garimpo ilegal, atividade que, segundo ele, opera sem a mesma fiscalização exigida de empreendimentos licenciados.

A discussão ocorre em um momento em que o Brasil tenta transformar sua vantagem geológica em protagonismo econômico e diplomático.

O país tem reservas relevantes de diferentes minerais, mas ainda enfrenta desafios em financiamento, licenciamento ambiental, infraestrutura, tecnologia, rastreabilidade e formação de cadeias industriais mais sofisticadas.

O CNN Talks: Nova Era da Mineração reúne autoridades, empresários, especialistas e representantes do setor produtivo para discutir os caminhos da mineração brasileira em uma nova fase de disputa global por minerais críticos, transição energética e segurança das cadeias de suprimento.

O encontro ocorre em um momento em que o Brasil tenta transformar sua vantagem geológica em protagonismo econômico, industrial e diplomático, com debates sobre financiamento, licenciamento ambiental, inovação, sustentabilidade, rastreabilidade, agregação de valor e maior participação do país nas etapas mais nobres da cadeia mineral.