Saneamento avança após seis anos do marco legal, mas meta segue distante

Estudo do Instituto Trata Brasil mostra avanço regulatório e de investimentos, mas revela que desafio de universalizar serviços até 2033 permanece

Rafael Villarroel, da CNN Brasil, São Paulo
Compartilhar matéria

De acordo com um levantamento divulgado nesta quarta-feira (15) pelo Instituto Trata Brasil, o cenário ainda permanece desafiador no país e aponta que o ritmo ainda é insuficiente para universalizar os serviços até 2033, especialmente no caso da coleta e do tratamento de esgoto.

Das 5.570 cidades brasileiras, apenas três (Curitiba, Santo André e Juiz de Fora) têm 100 % de coleta total de esgoto.  Os dados fazem parte de outro levantamento, o "Ranking do Saneamento", divulgado em março pela entidade.

Entre as 27 capitais brasileiras, apenas cinco possuem ao menos 99% de cobertura no abastecimento total de água.

Embora a média do indicador seja de 93,67%, a situação no país é desigual.

Já na coleta total de esgoto, sete capitais têm índice superior a 90% de atendimento. No tratamento de esgoto, apenas sete capitais apresentam ao menos 80% de tratamento.

O Novo Marco Legal estipulou que 99% da população brasileira tenha acesso à água potável e 90% à coleta e ao tratamento de esgoto até 31 de dezembro de 2033.

Segundo o Trata Brasil, os projetos já em curso somam mais de R$ 420 bilhões em investimentos, com potencial de beneficiar mais de 100 milhões de pessoas em 2.460 municípios, enquanto os novos leilões, concessões e parcerias previstas podem adicionar outros R$ 58 bilhões.

Os próximos anos serão decisivos para transformar os avanços observados até aqui em resultados concretos para milhões de brasileiros que ainda não têm acesso adequado à água tratada e à coleta e tratamento de esgoto
Luana Pretto, presidente-executiva do Trata Brasil

Em Rondônia, por exemplo, o leilão dos serviços de saneamento básico em 40 de seus 52 municípios, está marcado para setembro deste ano, mas um impasse político entre o governo local e opositores coloca em risco a realização do certame. A concessão prevê R$ 8,5 bilhões em investimentos e chama a atenção do mercado.

No estado, cerca de 53,5% da população possui abastecimento de água e apenas 10,6% têm acesso ao esgotamento sanitário.

Quando olhado no valor per capita, os investimentos passaram de R$ 90,54/habitante para 137,02/habitante, mas ainda longe do volume médio necessário previsto pelo PLANSAB (Plano Nacional de Saneamento Básico), principal instrumento de planejamento federal para o setor no país, de R$ 225 anuais.

Em nível nacional, o país ainda precisará aplicar cerca de R$ 430 bilhões em saneamento até 2033 — representando uma média de R$ 48 bilhões por ano - valor nunca alcançado nos últimos anos.

O levantamento também mostra preocupação em relação à distribuição dos projetos, que apesar de estarem em estruturação no Nordeste, Norte, Centro-Oeste, Sudeste e Sul, sugerindo a continuidade da disseminação do modelo de concessões e PPPs para além dos primeiros casos emblemáticos do pós-Marco Legal.

Ainda assim, a disposição não elimina o desequilíbrio entre os entes federativos.

"Em várias unidades da federação, a estruturação permanece mais lenta, seja por dificuldades institucionais, por
indefinições sobre regionalização, por limitações regulatórias ou por maior complexidade políticoinstitucional", diz um trecho do estudo.

Em São Paulo, por exemplo, que passa por alta histórica nos investimentos, o governo do estado projeta antecipar a universalização dos serviços para 2029.

Segundo o Executivo, com o novo contrato firmado após a desestatização da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) em 2024, os investimentos em saneamento no estado cresceram 120%.

Ao todo, a companhia paulista atende 368 dos 645 municípios paulistas.

No estado, as metas do período entre 2024 a 2026 já superam 87% para abastecimento de água, 77% para coleta de esgoto e 71% para tratamento.