Transição energética estagnou apesar de investimento recorde, diz relatório

Fórum Econômico Mundial aponta que tensões geopolíticas, gargalos de infraestrutura e piora na capacidade de implementação frearam o avanço da transição energética global, mesmo com US$ 3,3 trilhões investidos em 2025

Robson Rodrigues, da CNN Brasil, em São Paulo
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A transição energética global entrou em uma fase de estagnação, apesar do volume recorde de investimentos realizado no último ano. A conclusão é do estudo Energy Transition Index 2026, divulgado pelo Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês).

Segundo o relatório, o motivo dos sistemas energéticos mais limpos, seguros e acessíveis terem perdido ritmo se deve ao aumento das tensões geopolíticas, restrições de infraestrutura e deterioração das condições necessárias para sustentar a transformação do setor.

Foram investidos US$ 3,3 trilhões em energia em 2025, dos quais US$ 2,3 trilhões acabaram destinados a tecnologias limpas. Ainda assim, o índice aponta que a chamada “prontidão para a transição” caiu pela primeira vez em mais de uma década, indicando que apenas ampliar os investimentos já não é suficiente para acelerar a mudança do sistema energético global.

De acordo com o WEF, o cenário internacional tornou a transição mais fragmentada e orientada por preocupações com segurança energética. A recente interrupção do fluxo de petróleo no Estreito de Ormuz reforçou a vulnerabilidade dos sistemas energéticos, sobretudo em países emergentes dependentes de importações, aumentando a pressão sobre custos, resiliência e sustentabilidade.

"O processo de transição não está retrocedendo, mas está se fragmentando", afirmou Roberto Bocca, diretor do Centro de Energia e Materiais do Fórum Econômico Mundial. “Em um ambiente geoeconômico mais volátil, a segurança, a acessibilidade de custos e a resiliência são fundamentais para sustentar o progresso”, acrescentou.

O levantamento mostra que 60% dos países conseguiram melhorar sua pontuação geral no índice. Entretanto, apenas um em cada quatro avançou simultaneamente nos três pilares avaliados — segurança, sustentabilidade e equidade energética — evidenciando que o progresso se tornou mais desigual.

Brasil permanece entre os líderes

O Brasil manteve posição de destaque no ranking global, ocupando o 17º lugar entre os 120 países avaliados e permanecendo como líder regional na América Latina. Segundo o relatório, o desempenho brasileiro continua sustentado principalmente por sua matriz elétrica predominantemente renovável.

Entretanto, a indústria renovável no Brasil passa por sérias dificuldades. A cadeia de suprimentos segue estrangulada com vários fabricantes parando a produção ou saindo do país. Entre as geradoras, a crise ocorre pelo chamado “curtailment”, que são os cortes de geração impostos pelo ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) por falta de demanda ou restrições em linhas de transmissão.

Entre as economias do G20, apenas seis aparecem entre os 20 primeiros colocados: Alemanha (9º), França (10º), Reino Unido (11º), China (14º), Brasil (17º) e Estados Unidos (19º). A China continuou expandindo investimentos em energia limpa em ritmo recorde, enquanto a Índia registrou um dos maiores avanços em capacidade de transição.

Infraestrutura e financiamento são os gargalos

O estudo destaca que o aumento da demanda global por eletricidade tornou-se um dos principais desafios da transição energética. Em 2025, o consumo mundial de eletricidade cresceu cerca de 3%, enquanto aproximadamente 80% desse aumento ocorreu em economias emergentes, justamente onde persistem maiores dificuldades de acesso a financiamento e infraestrutura.

Outro ponto de atenção é a concentração dos investimentos. Embora os aportes tenham alcançado níveis históricos, cerca de 75% do capital destinado à energia limpa continua concentrado em um número reduzido de países, ampliando a distância entre onde os recursos são aplicados e onde a demanda energética cresce com maior velocidade.