10 momentos marcantes nos 100 anos do Partido Comunista Chinês

Partido fundado em julho de 1921, no distrito de Xangai, tem mais de 95 milhões de membros

Artistas no papel de socorristas se reúnem em torno de uma bandeira do Partido Comunista durante uma apresentação de gala antes do 100º aniversário da fundação do Partido Comunista Chinês em Pequim na segunda-feira, 28 de junho de 2021
Artistas no papel de socorristas se reúnem em torno de uma bandeira do Partido Comunista durante uma apresentação de gala antes do 100º aniversário da fundação do Partido Comunista Chinês em Pequim na segunda-feira, 28 de junho de 2021 Foto: Getty Images (Kevin Frayer)

Ben Westcott, da CNN

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O partido político autoritário mais poderoso do mundo completa 100 anos. O Partido Comunista Chinês (PCCh) foi fundado em julho de 1921 em um pequeno salão no distrito de Xangai – então controlado pela França – com apenas 13 pessoas presentes, de acordo com a história oficial.

Hoje, ele tem mais de 95 milhões de membros – quase 7% da população do país – e coordena a segunda maior economia do mundo, que está a caminho de ultrapassar os Estados Unidos na próxima década. A seguir, listamos dez momentos decisivos dos 100 anos do PCCh.

O nascimento de um partido (1921)

No início da década de 1920, a China estava um caos. Seu primeiro governo republicano desmoronou em menos de dez anos após a subida ao poder e queda do último imperador da dinastia Qing. O país foi dividido por lutas internas entre poderosos senhores da guerra, cada um governando uma região com seus próprios exércitos, e uma fome devastadora matou centenas de milhares de pessoas no norte do país.

Enquanto isso, o Partido Nacionalista, conhecido como Kuomintang (KMT), tentava sem sucesso reunificar o país sob um governo central. Nesse ambiente, pequenos grupos atraídos pela ideologia comunista emergiam por todo o país, inspirados pelo escritor socialista Karl Marx e pelo revolucionário russo Vladimir Lenin.

Os grupos se encontraram pela primeira vez em Xangai em 23 de julho de 1921, quando (de acordo com seu registro oficial) o partido consistia apenas em cerca de 50 pessoas. A pauta? “Derrubar a burguesia por meio do exército revolucionário do proletariado”, segundo a história oficial do partido..

Anos depois, apenas dois homens daquela reunião estariam presentes na fundação da República Popular da China em 1949: Mao Zedong e Dong Biwu. O resto havia morrido, deixado o partido ou caído em desgraça. Na época, o significado do encontro não era conhecido. O partido comemora o aniversário hoje, 1º de julho, porque há anos contesta a data real da primeira reunião.

A Grande Marcha (1934)

A Longa Marcha de 10 mil quilômetros não foi apenas um ponto de virada na história do PCC, mas também resultou no estabelecimento de Mao como o líder indiscutível do partido.

Para os historiadores do PCCh, foi um período heroico no qual o partido perseverou até o fim para emergir triunfante. Para seus críticos, foi um desastre militar que custou dezenas de milhares de vidas. Em 1934, o KMT – sob o comando de Chiang Kai-shek – havia assumido o controle majoritário da China, mas ainda lutava contra as forças de guerrilha do principiante Partido Comunista.

Por fim, o oprimido exército comunista foi forçado a fazer uma longa retirada de sua base no sul para o norte da China. Ao longo do caminho, a antiga liderança do PCC foi derrubada, enquanto Mao liderava as tropas restantes por 18 cadeias de montanhas e 24 rios, constantemente sob ataque do exército nacionalista, de acordo com o partido.

Aproximadamente 100 mil pessoas partiram na Longa Marcha, incluindo 75 mil soldados e 20 mil não combatentes. Apenas 7 mil finalmente alcançaram a segurança na cidade de Yan’an e ali sobreviveram. De Yan’an, o PCCh se reconstruiu sob Mao, dando início de um culto à personalidade no partido – possivelmente renascido hoje sob o atual líder Xi Jinping.

Fundação da República Popular da China (1949)

A invasão japonesa da China às vésperas da Segunda Guerra Mundial interrompeu o plano do KMT de erradicar os insurgentes comunistas. As forças de Mao e Chiang cancelaram sua luta em 1937 para cooperar na vitória da Guerra Sino-Japonesa, mas, com a derrota de Tóquio em 1945, todas os acordos caíram por terra.

Tirando vantagem da corrupção e da incompetência militar do governo nacionalista, as forças comunistas de Mao derrotaram consistentemente a oposição e ganharam o apoio popular prometendo terras à grande classe camponesa da China. Depois de perder uma sangrenta guerra civil, Chiang e suas forças restantes fugiram para Taiwan, começando um impasse entre Taipei e Pequim que permanece até hoje, com o PCCh reivindicando a ilha como seu território.

Em 1º de outubro de 1949, Mao estava no topo de Tiananmen – a “Praça da Paz Celestial” – em Pequim e anunciou a criação de uma “nova China”, a República Popular da China (RPC).

Mao Zedong
Mao Zedong (à esquerda) discursa na cerimônia de fundação da República Popular da China na Praça Tiananmen, em Pequim, em 1º de outubro de 1949.
Foto: Getty Images (Sovfoto/Universal Images Group)

O “Grande Salto Adiante” (1958)

Com muitos países passando por booms econômicos pós-Segunda Guerra Mundial, Mao priorizou o avanço rápido do crescimento econômico da China. Em um discurso aos líderes soviéticos em 1957, ele afirmou que em 15 anos “poderemos alcançar ou ultrapassar a Grã-Bretanha”. No entanto, o plano de Mao de mover a China de uma economia agrária para uma potência industrial foi desastroso.

Alguns fazendeiros foram obrigados a deixar seus campos para fabricar aço, um recurso fundamental para a construção do maquinário necessário à industrialização, enquanto outros foram forçados a viver em comunas de terras improdutivas, que estavam alinhadas com a ideologia comunista, mas que fizeram a produção de alimentos despencar.

Uma grande fome varreu a China, devastando o país. Algumas estimativas colocam o número de mortos em 30 milhões de pessoas. O “Grande Salto Adiante” não é reconhecido como a principal causa da fome na China na história oficial do partido: os desastres naturais são apontados como culpados.

Agricultores chineses trabalham em uma fazenda comunitária na década de 1950
Agricultores chineses trabalham em uma fazenda comunitária na década de 1950, durante o “Grande Salto Adiante”.
Foto: Getty Images (Universal Images Group/Photo 12 colaborador)

A Revolução Cultural (1966)

O fracasso do “Grande Salto Adiante” enfraqueceu o controle de Mao sobre o poder. Então, ele lançou uma campanha para destruir seus rivais políticos e criar lealdade total dentro do partido.

Sem avisar, Mao afirmou que grupos opostos à ideologia comunista haviam se infiltrado no partido e precisavam ser eliminados.

Seus apelos para eliminar “contrarrevolucionários” e “direitistas” saíram rapidamente de controle. Multidões de estudantes, agora conhecidos como Guardas Vermelhos, atacavam qualquer um que acreditava abrigar ideais burgueses ou hábitos imperialistas.

Estudantes de todo o país se voltaram contra seus professores, a quem acusaram de serem capitalistas ou traidores. Qualquer um que caísse em desgraça com as turbas era torturado e humilhado, forçado a confessar publicamente. Outros eram trancados em campos improvisados, alguns morreram como resultado de torturas, e por fim alguns se mataram.

Conforme a situação piorava, diferentes grupos de Guardas Vermelhos começaram a lutar entre si, usando armas do Exército de Libertação Popular. O caos finalmente terminou com a morte de Mao em 1976. A Revolução Cultural é amplamente reconhecida como uma catástrofe que poderia ter resultado em milhões de mortes, segundo algumas estimativas. Em 1981, o Partido Comunista aprovou uma resolução dizendo que a Revolução Cultural “foi responsável pelo retrocesso mais severo e pelas perdas mais graves sofridas pelo partido, pelo Estado e pelo povo desde a fundação da República”.

Reforma e Abertura (1979)

O caminho da China de uma das nações mais pobres do mundo para a segunda maior economia começou com a política de Reforma e Abertura em 1979. Após a morte de Mao, Hua Guofeng, o segundo no comando do partido na época, assumiu o poder como presidente do Partido Comunista, mas foi rapidamente ultrapassado por outro veterano do partido: Deng Xiaoping.

O ex-líder chinês Deng Xiaoping
O ex-líder chinês Deng Xiaoping fuma um cigarro durante uma coletiva de imprensa em Pequim em janeiro de 1979.
Foto: Getty Images (Bettmann)

Hua foi responsável por restaurar as posições de Deng após sua queda em desgraça durante a Revolução Cultural. Mas Deng rapidamente construiu uma base de poder dentro do partido e, em 1980, derrubou Hua.

Uma das principais políticas de Deng foi a Reforma e Abertura, uma abordagem experimental que manteve o sistema político de partido único enquanto afrouxava os controles do governo sobre a economia e certas liberdades pessoais.

Não importa se o gato é preto ou branco, desde que agarre a ratazana

Den Xiaoping, em um discurso à Liga dos Jovens Comunistas

Isso mudou a China de uma economia estritamente planejada para algo mais próximo do capitalismo. No início, os agricultores podiam vender o excesso de produção, depois os empresários podiam abrir negócios. Zonas econômicas especiais foram estabelecidas para permitir o livre comércio.

Mas as políticas de Deng levantaram uma questão importante para o partido: um estado comunista pode desfrutar dos benefícios econômicos do comércio e do capitalismo enquanto mantem um controle rígido do poder?

O Massacre da Praça Tiananmen (1989)

À medida que a economia da China se abriu, a corrupção piorou e algumas pessoas começaram a exigir maiores liberdades. A liberalização econômica estava enriquecendo lentamente a China, mas o partido ainda controlava muitos elementos da vida pública, restringindo a liberdade de expressão e as viagens internacionais.

Em abril de 1989, um popular político liberal chinês desencadeou uma onda de protestos pró-democracia em todo o país, o maior dos quais foi realizado na Praça Tiananmen.

O debate interno sobre a resposta aos manifestantes no alto escalão do partido terminou em 20 de maio, quando a liderança declarou a lei marcial.

Duas semanas depois, em 4 de junho, o exército chinês apontou suas armas para seu próprio povo. O número oficial de mortos do governo foi de 241 pessoas, incluindo soldados, mas grupos de direitos humanos estimam que milhares poderiam ter morrido somente em Pequim.

A repressão do PCCh inicialmente levou a sanções e condenações internacionais, mas as considerações econômicas falaram mais alto e a integração da China na economia mundial foi reiniciada.

Desde o massacre, a liberalização econômica se acelerou na China. No entanto, o partido praticamente silenciou os apelos por democracia e liberdades civis.

China adere à Organização Mundial do Comércio (2001)

A China começou a ter um crescimento rápido, mas seu potencial era limitado por uma peculiaridade: o país não era membro da Organização Mundial do Comércio (OMC).

A OMC regula o comércio entre os países membros, que podem chegar a melhores acordos com outros países dentro do território nacional. Mas, na década de 1990, apesar de suas novas políticas, a China ainda estava longe de ser uma economia de mercado.

Foram 15 anos de negociações antes da autorização de entrada na OMC, com a bênção do governo dos Estados Unidos. Em troca, a China teve que concordar com uma maior liberalização de sua economia, incluindo a remoção de certas tarifas e uma promessa de proteger a propriedade intelectual.

Depois que a China aderiu oficialmente em dezembro de 2001, a economia do país começou a crescer. Em 2000, o crescimento anual do PIB da China foi de 8,5%; em 2007, havia subido para quase 15%.

Jogos Olímpicos de Pequim (2008)

Nos Jogos Olímpicos de 2008, a China saltou para o palco mundial como potência mundial. Alguns diplomatas ocidentais e ativistas de direitos humanos fizeram lobby para boicotar o evento por causa do histórico de abuso dos direitos humanos do país, especialmente sua repressão no Tibete e despejos forçados para abrir caminho para os Jogos.

Outros esperavam que dar a Olimpíada à China pudesse levar o país ainda mais em direção a uma ordem internacional baseada em regras, encorajando uma maior liberalização política e econômica. Os Jogos correram conforme o planejado e foram espetaculares. Mas eles não inspiraram a China a se tornar mais parecida com o Ocidente.

Em vez disso, a capacidade da China de realizar um dos Jogos mais caros da história, enquanto as economias ocidentais se afundavam na crise financeira global, demonstrou a crescente influência econômica de Pequim e sua capacidade de traçar seu próprio caminho.

O evento foi um triunfo para o Partido Comunista, que respondeu a uma pergunta que deixou perplexos governantes autoritários em todo o mundo por décadas: um sistema político não liberal pode colher os frutos de uma economia liberal sem perder o controle do poder? Com os Jogos de 2008, a resposta parecia ser um retumbante “sim”.

Xi Jinping assume o poder (2012)

Quando Xi Jinping se tornou secretário-geral do Partido Comunista, seu mandato foi saudado com uma atitude geral, embora cautelosa, de otimismo.

Alguns, incluindo a então secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, pensaram que ele seria um reformador liberal. O ex-primeiro-ministro de Singapura, Lee Kuan Yew, disse sobre Xi, que é filho de um ex-vice-primeiro-ministro chinês: “Eu o colocaria na classe de pessoas de Nelson Mandela”.

Na realidade, Xi se tornou um dos líderes mais poderosos da China desde a fundação da República Popular, levando o partido a uma liderança baseada na personalidade.

Xi tem mais títulos do que qualquer um desde Mao; ele não apenas dirige o partido, o estado e os militares, mas também vários supercomitês encarregados de tudo, desde a segurança nacional até a reforma econômica.

O “pensamento de Xi Jinping” foi incluído na constituição da China.

100 anos depois

Sob Xi, o Partido Comunista Chinês tem mais influência geopolítica e poder econômico do que nunca, mas em casa esse domínio tem um custo. Xi reprimiu todo pensamento liberal. Advogados e defensores dos direitos humanos foram presos. Os think tanks que discordam do PCCh estão fechados.

O partido está de volta ao centro de todos os aspectos da vida: nas empresas privadas, na política, nas forças armadas, até mesmo nos telefones das pessoas através dos novos aplicativos de ideologia do PCCh.

O Partido Comunista Chinês agora fala de uma “nova era” sob Xi, o “líder do povo” que pode permanecer no poder indefinidamente após a remoção dos limites do mandato presidencial.

Para Xi, sua prioridade é, sem dúvida, garantir que o partido seja forte o suficiente para governar outro século. Resta saber quanto tempo ele irá liderar pessoalmente essa missão.

Repórter: Ben Westcott

Editores: Jenni Marsh e Steven Jiang

Editor de imagens: Fruhlein Chrys Econar

Vídeo: Sofia Couceiro, Teodora Preda

(Texto traduzido. Leia o original em espanhol aqui.)

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