11 de setembro: O custo humano dos impactos de longo prazo após ataques
Vinte e cinco anos após o atentado, o número de vítimas de problemas de saúde relacionados ao Ground Zero já ultrapassou os mortos no dia
Durante anos, o tenente Conrad Matos não conseguia assistir a nenhuma reportagem sobre os ataques terroristas de 11 de Setembro. Como paramédico do FDNY, o Corpo de Bombeiros da cidade de Nova York, ele viveu aquilo e não precisava rever a devastação. O que viu durante os trabalhos de recuperação e limpeza no Ground Zero já estava gravado em sua mente.
Mas, com o passar dos anos, outra coisa começou a ocupar espaço em sua cabeça: um tumor que, mais tarde, acabaria sendo relacionado à sua atuação no Ground Zero.
"Fiquei seis meses", disse ele. "Continuei voltando para lá para ajudar porque sempre achei que havia esperança e que deveria haver alguém que ainda pudesse ser encontrado, mas não havia ninguém. Tudo o que continuávamos encontrando eram partes de corpos."
Já se passaram 25 anos desde que dois aviões atingiram as Torres Gêmeas, em Lower Manhattan, e as pessoas continuam adoecendo em decorrência de doenças relacionadas aos trabalhos de recuperação e limpeza no Ground Zero.
O ataque matou quase 3.000 pessoas em 11 de Setembro, desde o World Trade Center, em Nova York, passando pelo Pentágono, em Washington, D.C., até um campo em Shanksville, na Pensilvânia. Atualmente, acredita-se que o número de pessoas que morreram desde os ataques em decorrência de doenças relacionadas ao 11 de Setembro já tenha ultrapassado, com folga, esse total.
Hoje se sabe que, no dia do ataque e durante todo o período de recuperação, havia toxinas no ar ao redor do local do World Trade Center. O CDC estima que quase 400 mil pessoas foram expostas a essas toxinas, desde pessoas que moravam e trabalhavam perto do Ground Zero até profissionais que atuavam nos trabalhos de limpeza.
"A poeira continha material em combustão, e havia aquele cheiro terrível e tudo mais", disse o Dr. Michael Crane.
Atualmente, o Dr. Michael Crane é diretor médico do Programa de Saúde do World Trade Center, no Mount Sinai, em Manhattan. Mas, em setembro de 2001, ele estava no Ground Zero, trabalhando com a Con Edison, empresa de serviços públicos de Nova York. Ele disse que parte de seu trabalho era equipar as equipes com respiradores.
"E quando eles iam até os escombros e começavam a atravessar aquela poeira, especialmente nos primeiros dias, os filtros ficavam completamente entupidos em 20 minutos", disse o Dr. Crane. "A maioria deles, quando o filtro acabava, simplesmente jogava aquela porcaria no chão e continuava trabalhando. Eles estavam tão dedicados e comprometidos em resgatar quem quer que estivesse lá e fazer tudo o que pudessem para ajudar a cidade a se recuperar. Eles simplesmente não paravam."
Na época, também havia informações contraditórias sobre a qualidade do ar. Alguns funcionários da cidade e a EPA, a Agência de Proteção Ambiental dos EUA, garantiam que o ar era seguro, enquanto ambientalistas e outros especialistas alertavam para os riscos.
Mais tarde, o inspetor-geral revelou que a afirmação da EPA de que o ar era "seguro para respirar", feita apenas uma semana após o ataque, ocorreu quando a agência ainda não tinha todos os dados sobre várias toxinas e havia sofrido influência da Casa Branca para divulgar declarações tranquilizadoras, em vez de alertas.
Até hoje, isso continua sendo motivo de controvérsia.
Nesta semana, a cidade de Nova York lançou um portal que disponibiliza registros inéditos sobre a qualidade do ar e os riscos à saúde após o 11 de Setembro, uma importante vitória para ativistas que há anos lutam por transparência.
"Não havia como aquele ar estar limpo", disse o tenente Matos. "Lembro que fui para casa na primeira noite. Quando cheguei, subi as escadas e estava tossindo uma fuligem preta na frente da minha porta. Não havia como aquilo estar limpo."
Segundo o departamento, o tenente Matos foi paramédico do FDNY por quase três décadas. Mas, depois de receber o diagnóstico de câncer em 2021, disse que foi obrigado a se aposentar.
"Fiquei arrasado, porque, para ser sincero com você, não sei se teria entrado correndo do jeito que entrei em 11 de Setembro", disse ele. "Talvez tivesse pensado nas coisas de uma maneira um pouco diferente, porque entramos lá sem equipamentos suficientes. Não tínhamos máscaras, respiradores, nada."
Ele disse que, depois de uma cirurgia no cérebro e da quimioterapia, achou que havia vencido o câncer.
Mas, neste ano, a doença voltou.
Sua esposa, Gail, que é enfermeira, precisa ajudá-lo em praticamente tudo.
"Ele fez tanto durante seus mais de 20 anos no corpo de bombeiros", disse ela. "Salvou tantas vidas. Ele merece ser salvo."
O CDC monitora as doenças relacionadas ao 11 de Setembro por meio do Programa de Saúde do World Trade Center. Para que uma doença seja oficialmente certificada como relacionada ao 11 de Setembro, a pessoa precisa ter sido exposta por determinado período e apresentar certos sintomas ou diagnósticos, que incluem cânceres, problemas respiratórios e outras doenças.
Atualmente, cerca de 150 mil pessoas estão inscritas no programa para receber tratamento e acompanhamento. Aproximadamente dois terços são profissionais que atuaram no local, e o restante são sobreviventes, como pessoas que moravam e trabalhavam na região. Esse número não inclui aqueles que já morreram.
"Precisamos parar de perder as nossas pessoas", disse o tenente Matos. "Porque aqueles que não perdemos naquele dia, estamos perdendo agora. E isso não está certo. Não está certo."
Quanto ao número de mortes relacionadas ao 11 de Setembro, a Reuters apurou que ninguém mantém uma lista oficial consolidada.
O Museu e Memorial Nacional do 11 de Setembro estima que o número esteja na casa dos milhares.
O CDC informou à Reuters que mais de 9 mil pessoas inscritas no Programa de Saúde do World Trade Center já morreram, mas não pôde confirmar que todas essas mortes tenham relação com o 11 de Setembro.
Embora as pessoas continuem morrendo, o Dr. Crane disse que começa a perceber uma mudança no [hospital] Mount Sinai, a sensação de que as intervenções estão ajudando.
Novos dados divulgados neste mês pelo FDNY também mostram que os integrantes de seu programa de saúde relatam redução dos sintomas, em geral vivem mais tempo e apresentam uma taxa de mortalidade menor do que a prevista. Também é preciso considerar outros fatores, como o envelhecimento e a possibilidade de que a morte seja simplesmente inevitável.
"Acreditamos que, pelo menos, podemos lutar em condições de igualdade, aumentando as chances de que nossos profissionais de emergência consigam chegar ao outro lado", disse o Dr. Crane.
O tenente Matos espera ser um dos profissionais que conseguirão chegar ao outro lado.
Mas todos os dados e pesquisas não levam em conta o efeito prolongado que se espalha pelas famílias, pelos amigos e pelos cuidadores, as gerações que continuam sofrendo as consequências do ataque terrorista tantos anos depois.
"Isso vai me afetar, vai afetar meus filhos, mesmo que não seja fisicamente, mas emocionalmente", disse Gail Matos. "Meus filhos continuarão sendo afetados por isso, porque precisam ver o pai sofrer duas vezes por causa disso."


