China proíbe consumo de animais silvestres após surto do novo coronavírus


Ben Westcott e Shawn Deng Da CNN
06 de março de 2020 às 14:58 | Atualizado 06 de março de 2020 às 16:42
Policial observa civeta selvagem em Wuhan, na China

Policial observa civeta selvagem capturada por fazendeiro em Wuhan, na China

Photo: AFP via Getty Images

A China está implementando em todo o país uma rígida proibição ao consumo e criação de animais silvestres em resposta ao surto do novo coronavírus no país. As autoridades acreditam que a epidemia teve origem em um mercado de animais silvestres em Wuhan.

Apesar de ainda não estar claro qual animal transmitiu o vírus para humanos – morcego, cobra ou pangolim, uma espécie de mamífero de zonas tropicais da Ásia e África, estão entre as possibilidades – a China reconhece que precisa controlar o lucrativo mercado de animais silvestres para prevenir outro surto de doença.

No fim de fevereiro, o governo divulgou a proibição temporária de toda a criação e o consumo de “animais silvestres terrestres de importante valor ecológico, científico e social”, que deverá entrar em vigor ainda este ano.

Mas acabar com esse comércio será difícil. As raízes culturais do uso de espécies silvestres na China são profundas, não só na alimentação, mas também na medicina tradicional, nas vestimentas, ornamentos e até como animais de estimação.

Esta não é a primeira vez que as autoridades chinesas tentam conter este tipo de comércio. Em 2003, civetas – pequenos mamíferos carnívoros com corpo e cauda longos e pelagem grisalha ou com faixas, nativa da África e da Ásia – foram banidos e abatidos em grande número depois que foi descoberto que provavelmente transmitiam o vírus da SARS para humanos. A venda de cobras também foi brevemente proibida em Guangzhou depois do surto da doença.

Ainda hoje, porém, pratos com esses animais são consumidos em partes da China. Especialistas em saúde pública dizem que a proibição é um importante primeiro passo, mas cobram que Pequim use essa oportunidade para acabar com brechas – como o uso de animais silvestres na medicina tradicional chinesa – e comece a mudar as atitudes culturais na China em relação ao consumo de animais silvestres.

Mercados com animais exóticos

O mercado de frutos do mar de Wuhan, que está no centro do surto do novo coronavírus, vendia muito mais do que peixes. Cobras, guaxinins, porcos-espinhos e veado eram algumas das espécies mantidas dentro de jaulas, ao lado de vendedores e proprietários de lojas, de acordo com imagens obtidas pela CNN.

Alguns animais foram filmados sendo abatidos no próprio mercado, na frente de clientes. A CNN não conseguiu verificar independentemente as imagens que foram postadas na rede social Weibo – versão chinesa do Twitter – por um cidadão preocupado com a situação, mas que depois foram deletadas por censores do governo.

Vendedor com pavões em mercado de animais silvestres de Guangzhou

Vendedor em mercado de animais silvestres de Guangzhou segura três pavões; animais são vendidos pelo equivalente a R$ 536

Photo: Liu Jin/AFP via Getty Images

É no meio de toda essa variedade de animais silvestres que os cientistas acreditam que o novo coronavírus provavelmente se espalhou para os seres humanos. A doença já infectou mais de 94.000 pessoas e matou mais de 3.200 em todo o mundo.

O mercado de Wuhan não era incomum. Em toda a China continental, centenas de mercados similares oferecem uma ampla variedade de animais exóticos para diversos fins. O perigo de um surto ocorre quando muitos animais exóticos de diferentes ambientes são mantidos próximos.

“Esses animais têm seus próprios vírus”, disse Leo Poon, professor de virologia da Universidade de Hong Kong. “Esses vírus podem passar de uma espécie para outra e essa espécie receptora pode se tornar um amplificador, o que aumenta a quantidade de vírus à solta no mercado de forma substancial.”

Quando muitas pessoas visitam mercados vendendo esses animais diariamente, o risco de um vírus passar para os humanos aumenta de forma exponencial, explicou o professor.

Poon foi um dos primeiros cientistas a decodificar o coronavírus do SARS durante a epidemia de 2003. Estava relacionado a uma civeta mantida para venda como alimento em um mercado de Guangzhou. O professor disse que os pesquisadores ainda se perguntam se o SARS foi transmitido também para gatos.

"(Gatos de estimação) não tinham o vírus, sugerindo que as civetas o contraíram nos mercados de outro animal", disse o especialista.

Vigor e status

Annie Huang, uma universitária de 24 anos da província de Guangxi, afirmou que ela e outros parentes vão regularmente restaurantes que servem animais silvestres. Ela disse que comer essas espécies, como javali e pavão, é considerado bom para a saúde porque as pessoas absorvem a força física e a resistência desses animais.

Animais exóticos também podem ser um símbolo importante de status. “Animais silvestres são caros. Se você oferece eles como alimento para alguém isso é considerado uma forma de mostrar respeito”, disse Huang. Um único pavão pode custar até 800 yuan (equivalente a R$ 536,05).

Guarda vigia o mercado de frutos do mar de Wuhan

Guarda vigia o mercado de frutos do mar de Wuhan, que está no centro do surto do novo coronavírus

Photo: Hector Retamal/AFP/Getty Images

Huang pediu para usar um pseudônimo ao falar sobre o comércio agora considerado ilegal por causa de suas opiniões sobre o consumo de animais selvagens. Ela disse duvidar da eficácia da proibição a longo prazo. "O comércio pode diminuir por alguns meses, mas depois de um tempo, provavelmente em alguns meses, as pessoas possivelmente voltarão a consumir.”

Pequim não divulgou uma lista completa dos animais selvagens incluídos na proibição, mas a atual Lei de Proteção à Vida Selvagem fornece algumas pistas sobre o que poderia ser proibido. Essa lei classifica lobos, civetas e perdizes como animais selvagens e afirma que as autoridades "devem tomar medidas" para protegê-los, apesar de haver pouca informação sobre restrições específicas.

A nova proibição exclui animais criados para pecuária. Além disso, animais muito consumidos no país como pombos e coelhos estão sendo enquadrados nessa categoria para permitir que seu comércio continue.

Indústria bilionária

Tentativas de controlar a disseminação de doenças também são atrapalhadas pelo fato de o uso de animais, incluindo os selvagens, na indústria chinesa ser enorme.

Um relatório encomendado em 2017 pelo governo à Academia Chinesa de Engenharia descobriu que o comércio de animais selvagens do país movimentava mais de US$ 73 bilhões e empregava mais de um milhão de pessoas.

Desde a descoberta do novo coronavírus em dezembro, quase 20.000 fazendas que criam animais silvestres em sete províncias chinesas foram fechadas ou colocadas em quarentena, incluindo criadores especializados em pavões, raposas, veados e tartarugas, de acordo com comunicados divulgados por governos locais.

Não está claro qual efeito a proibição pode ter no futuro dessa indústria – mas há sinais de que a população da China estaria se distanciando do consumo de animais silvestres antes mesmo da epidemia.

Um estudo realizado pela Universidade Normal de Pequim e pela Associação de Conservação da Vida Selvagem da China feito em 2012 constatou que nas principais cidades do país um terço das pessoas já havia usado animais silvestres para alimentação, medicina ou vestimenta – uma redução muito pequena em comparação com a pesquisa anterior, de 2004.

No entanto, os pesquisadores também descobriram que pouco mais de 52% dos participantes concordaram que a vida selvagem não deve ser consumida. Na capital, Pequim, mais de 80% disseram se opor ao consumo de animais silvestres – em 2004, a pesquisa mostrou que apenas 42% dos entrevistados na capital eram contra essa prática.

Desde o surto do novo coronavírus, houve críticas latentes ao comércio de animais exóticos e apelos pelo fim dessa prática. Um grupo de 19 acadêmicos da Academia Chinesa de Ciências e das principais universidades chegou a emitir uma declaração pública pedindo o fim desse comércio, dizendo que deveria ser tratado como um "problema de segurança pública".

"A grande maioria das pessoas na China reage ao abuso da vida selvagem da mesma maneira que as pessoas de outros países – com raiva e repulsa", disse Aron White, ativista da Agência de Investigação Ambiental. "Acho que devemos ouvir as vozes que estão pedindo mudanças e apoiá-las.”

Brecha na medicina tradicional

Uma barreira significante para banir totalmente o comércio de animais silvestres é o uso de animais exóticos na medicina tradicional chinesa. Pequim tem promovido de maneira significativa o uso desse conhecimento no governo de Xi Jinping e essa indústria está avaliada em US$ 130 bilhões.

Em outubro de 2019, o jornal estatal China Daily reportou que Xi afirmou que a “medicina tradicional é um tesouro da civilização chinesa e personifica a sabedoria da nação e de seu povo”. Muitas espécies que servem de alimento no interior da China também são usadas em remédios. 

O novo veto faz uma exceção a animais usados na medicina tradicional. De acordo com a nova regra, o uso de animais em remédios não está vetado, mas a partir de agora deve ser monitorado de perto. O anúncio não deixa claro, no entanto, como esse monitoramento ocorrerá, nem quais são as penas para uso inadequado desses animais. 

Um estudo de 2014 da Universidade Normal de Pequim e da Associação para Conservação da vida selvagem na China descobriu que enquanto a carne de cervo é consumida como alimento, o sangue e o pênis do animal são usados como remédios. O mesmo ocorre com ursos e cobras.

O preservacionista Aron White diz que, com as novas restrições, há um risco de animais selvagens serem vendidos para fins medicinais, mas acabarem sendo consumidos como alimentos. Segundo ele, o governo chinês precisa evitar essas brechas ampliando o veto a qualquer animal vulnerável, independentemente de seu uso. 

“No momento, há leis que vetam o consumo de tatus, mas não proíbem o uso desses animais na medicina”, disse White. “Isso envia mensagens contraditórias aos consumidores.” A linha entre animais usados como alimento e para fins medicinais é tênue, além de tudo, porque muitos chineses percebem o próprio consumo como benéfico para a saúde. 

Em um estudo publicado na International Health em fevereiro, pesquisadores americanos e chineses mapearam costumes de moradores do interior de províncias do sul da China no que diz respeito ao consumo de animais silvestres. 

Um camponês de 40 anos da província de Guangdong disse que comer morcegos é bom para prevenir câncer. Outro entrevistado disse que a carne do animal é boa para aumentar a vitalidade.

“Machuquei minha cintura gravemente, era muito dolorido e não podia pagar por um ar condicionado. Meus amigos fizeram uma sopa de cobra, eu tomei três tigelas e minha cintura, obviamente, parou de doer. Se não fosse por isso, não poderia ficar sentado por tanto tempo (conversando) com vocês”, disse um idoso de 67 anos entrevistado pelos pesquisadores.

Mudança cultural

O Congresso Nacional do Povo, responsável por elaborar as leis chinesas, deve se reunir ao longo do ano para alterar a Lei de Proteção da Vida Selvagem. Um porta-voz do comitê que analisa a questão disse que o veto é uma medida temporária até uma nova lei ser discutida e aprovada. 

O virologista Leo Poon, sediado em Hong Kong, disse que o governo tem pela frente uma grande decisão a tomar sobre se encerra de vez o comércio de animais silvestres na China ou se apenas tenta encontrar soluções mais seguras.

“Se é parte da cultura chinesa consumir um animal exótico e o país optar por manter esse costume, tudo bem”, disse. “Mas eles terão de criar uma nova política: como prover carne saudável desses animais para o público? Eles serão domesticados? Haverá inspeções? Ou adotarão medidas de biossegurança?”

Um veto completo também pode implicar muitas questões. O presidente da Ecohealth Alliance, Peter Daszak, argumenta que banir o comércio de animais pode criar mercados negros em comunidades rurais, onde é mais fácil esconder animais das autoridades. 

Na ilegalidade, esse comércio pode se tornar ainda mais perigoso. “Pode haver surtos não em mercados, mas em comunidades rurais. E as pessoas não falarão sobre isso porque é ilegal’, disse Daszak. Para Poon, a eficácia do veto deve depender da capacidade do governo de aplicar a lei. “A cultura não pode ser mudada da noite para o dia. Isso leva tempo.