Falta de neve prejudica estações de esqui na Europa


Reuters
06 de março de 2020 às 15:02 | Atualizado 09 de março de 2020 às 08:06
Mountain Resorts of Georgia

De longe, o resort mais popular da Geórgia, o Gudauri fica cerca de 90 minutos de carro, ao norte da capital, Tbilisi (24.fev.2020)

Crédito: Mountain Resorts of Georgia

À medida que a França enfrenta seu segundo inverno mais quente desde 1900, os resorts de esqui mais populares da Europa têm feito algumas decisões difíceis: trazer neve fresca, encontrar novas atividades turísticas ou fechar as portas.

Em Mont-Dore, um resort na região central de Auvergne, na França, o teleférico, uma das principais atrações, e seu lucro acabou na adminstração com um buraco de 1,7 milhão de euros (U$1,9 milhões de dólares) em suas contas. A culpa, de acordo com os gestores do resort, é da falta de neve durante a alta temporada de fevereiro.

"As condições climáticas mudaram. A última vez em que tivemos tão pouca neve durante as férias escolares de fevereiro foi há 30 anos", disse o diretor Patrick Deat. A empresa continuará operando e os empregos de seus 21 funcionários serão garantidos por até 18 meses, mas "não será fácil encontrar uma substituição rápida do montante perdido durante a alta temporada de esqui", disse Deat.

Neve artificial

Desde o final do século 19, a cordilheira mais alta da Europa, os Alpes, registrou um aumento médio de temperatura de 2ºC, segundo a revista científica Arctic, Antarctic, and Alpine Research. O efeito do aquecimento climático foi mais forte nas temperaturas do inverno, tornando a neve cada vez mais rara nas estâncias de esqui de altitude mais baixa, abaixo de 1.500 metros. A Universidade de Grenoble constatou que quase metade das 169 estações de esqui que foram fechadas desde 1951 — o primeiro ano a registrar um fechamento — foram encerradas devido à falta de neve. 

Alguns resorts têm investido em neve artificial, produzida a partir da força da água e o ar pressurizado através de um "canhão de neve" para 'complementar' a neve natural. Mas a sustentabilidade do processo é questionável. Produzir apenas 1m³ de neve artificial custa 2,5 euros, consome 0,5m³ de água e requer de 1 a 3 quilowatts (kW) de eletricidade, segundo dados da Domaines Skiables.

"Vários resorts estão em uma situação bastante difícil", disse Joel Retailleau, diretor administrativo da ANMSM, o órgão que reúne prefeitos dos resorts de esqui franceses. "Na França, fazemos um uso criterioso dos canhões de neve, usando o equipamento em 30% das pistas, contra 70% na Itália e 80% na Suíça", disse Retailleau. Os canhões de neve também precisam de temperaturas abaixo de zero para operar, o que significa que não serão uma solução viável a longo prazo se as temperaturas do inverno continuarem subindo.

Alguns resorts tentaram expandir suas pistas em direção a altitudes mais altas, atraindo a ira de grupos ambientalistas que afirmam que a construção de mais teleféricos irá prejudicar ainda mais a paisagem. Outros adotaram atividades sustentáveis — que podem atrair visitantes o ano todo.

Impacto em eventos esportivos

Eventos esportivos em todo o mundo estão tendo que se adaptar às mudanças climáticas. Os Jogos Olímpicos de 2020 no Japão e a Copa do Mundo de 2022 no Catar mudaram os horários e instalaram sistemas de refrigeração para proteger atletas e espectadores do calor extremo. As estações de esqui no Japão e na Noruega também foram atingidas por uma queda de neve e uma das piores temporadas já registradas.

A França está entre os principais destinos de esqui do globo, juntamente com a Áustria e os Estados Unidos, com cerca de 10 milhões de visitantes por ano, gerando 10 bilhões de euros em receita e criando cerca de 120.000 empregos, disse a Domaines Skiables, organização que reúne os operadores de áreas de esqui, na França. (REUTERS)