Escândalos e ‘Megxit’: o momento polêmico da família real britânica


Da CNN Brasil, em São Paulo
08 de março de 2020 às 18:39 | Atualizado 14 de março de 2020 às 15:18
O príncipe Philip e a rainha Elizabeth 2ª

O príncipe Philip e a rainha Elizabeth 2ª durante visita à Irlanda, em março

Foto: Reprodução / Instagram

Depois de ter comandado um bem-sucedido projeto de recuperação de imagem perante os britânicos, com a popularidade da família real saltando de 43% para 70% de aprovação da população, a rainha Elizabeth 2ª se viu a volta com velhos fantasmas do passado nos últimos meses.  

Polêmicas envolvendo nomes importantes da Casa de Windsor interromperam anos de estabilidade da família real, que, com sucesso, conseguiu se desvincular das polêmicas dos anos 90, principalmente a partir do jubileu de ouro da rainha, em 2002. 

Um dos filhos de Elizabeth 2ª, o príncipe Andrew, teve seu nome ligado ao caso do bilionário americano Jeffrey Epstein, acusado de tráfico de mulheres e pedofilia nos Estados Unidos. Seu neto, o príncipe Harry, decidiu romper com a família real e se mudar para o Canadá com a mulher, Meghan Markle. E seu marido, o príncipe Phillip, já com a saúde fragilizada, enfrentou críticas por insistir em dirigir aos 97 anos, o que acabou resultando em um acidente no ano passado.   

Príncipe Andrew na mira 

Em novembro de 2019, o terceiro dos quatro filhos da rainha, príncipe Andrew, deixou as funções reais depois de ser envolvido em denúncias de um escândalo sexual. Ele negou todas as acusações.   

O enredo teve início antes mesmo do suícidio do bilionário norte-americano Jeffrey Epstein, em agosto de 2019. De acordo com o príncipe, os dois se conheceram em 1999 através da então namorada do americano, a socialite Ghislaine Maxwell.  

Em 2010, quando já tinha acontecido a primeira condenação do norte-americano por tráfico sexual de menores, uma foto registrou o encontro do bilionário com o duque de York. No clique, Andrew aparecia na mansão de Epstein, em Nova York, o que fez a imprensa britânica cobrar esclarecimentos do integrante da família real. Em sua defesa, o príncipe alegou que fez a visita para dar fim à amizade dos dois. 

Nove anos depois, Jeffrey Epstein, acusado de tráfico sexual de menores e pedofilia, foi encontrado morto em uma prisão em Manhattan. Meses após o suicídio de Epstein, o assunto respingou na família real britânica. Andrew recebeu críticas por sua associação com o bilionário, sendo cobrado novamente a dar explicações sobre até que ponto sabia dos crimes do antigo amigo.   

O duque de York foi acusado de testemunhar e participar da exploração sexual de mulheres e meninas durante a amizade dos dois. A norte-americana Virginia Roberts Giuffre afirma que, quando ainda era adolescente, foi obrigada a fazer sexo com amigos de Epstein, entre eles, Andrew.  

O segundo filho da rainha reconheceu que a amizade com o milionário acabou sendo um tormento para a sua vida pública e pessoal, mas negou qualquer relação com Giuffre. Em meio às acusações, pediu afastamento das funções da família real. 

O acidente do príncipe Philip   

O marido da rainha Elizabeth 2ª, príncipe Philip, também enfrentou uma situação controversa no atual período de turbulências. Ele, que se retirou da vida pública em agosto de 2017 e já não participa mais dos eventos oficiais da realeza, voltou a ser notícia.  Em um episódio ocorrido em 17 de janeiro deste ano, Philip, de 97 anos, teve que entregar a carteira de motorista após se envolver em um acidente de trânsito perto da residência de Sandringham, em Norfolk, no leste da Inglaterra.    

Na ocasião, o príncipe dirigia uma Land Rover Freelander e saiu ileso. Duas pessoas que estavam em outro veículo envolvido no acidente tiveram ferimentos leves. O duque de Edimburgo foi oficialmente responsabilizado pela colisão.   

Na tentativa de amenizar os efeitos do ocorrido, o Palácio de Buckingham se pronunciou. “Após cuidadosa consideração, o duque de Edimburgo decidiu voluntariamente entregar sua permissão para dirigir”, informou.  

Parte da família real britânica reunida durante o batizado de Archie

Parte da família real britânica reunida durante o batizado de Archie, filho de Harry e Meghan, que em janeiro resolveram deixar os papéis de membros da família real

Foto: Reprodução / Instagram

Harry e Meghan deixam a realeza   

Em janeiro deste ano, o príncipe Harry e a mulher, Meghan Markle, anunciaram  planos de deixar os papéis de membros da família real. Em um comunicado que supreendeu a mídia local e internacional, eles declararam que iriam se afastar do grupo sênior da realeza britânica e que desejavam trabalhar para se tornar independentes financeiramente --atitude inédita no reino britânico.  

O duque e a duquesa de Sussex estão casados oficialmente desde 19 de maio de 2018. Apesar da aceitação por grande parte do público britânico, Meghan virou alvo de críticos da imprensa inglesa quando ainda namorava Harry. A perseguição contra ela foi aumentando gradativamente.

Harry chegou a comparar a situação com a que a mãe dele, a princesa Diana, que morreu fugindo de paparazzi em Paris, havia sofrido. A decisão de se desligar da Coroa veio após as festas de fim de ano no Canadá, quando Harry e Meghan levaram o herdeiro do casal, Archie, para conhecer a família materna.  

O que era novidade para alguns, já vinha sendo debatido por especialistas há algum tempo. Depois de verem o filho ser comparado a um chipanzé por um comentarista da radio BBC, já demitido, as subsequentes críticas dos tabloides às causas que eles abraçavam, ao estilo de vida do casal e a qualquer atitude de Meghan esgotaram, de vez, a relação do casal com a imprensa.   

Já na família real, a escolha do casal também não caiu bem, uma vez que a rainha não teria sido consultada. A decisão abalou a tradicional monarquia britânica, levando Elizabeth 2ª a solicitar um encontro familiar, às pressas, para resolver a situação. O Palácio de Buckingham confirmou a decisão, mas não deu muitas explicações, evitando mais turbulências.  

A rainha se manifestou sobre o anúncio feito pelo neto: “Reconheço os desafios que eles enfrentam como resultado de intenso escrutínio nos últimos dois anos e apoio o desejo de uma vida mais independente. Harry, Meghan e Archie sempre serão membros muito amados da minha família”, concluiu.  

Montanha russa  

A tensão atual evoca o fatídico 1992, momento que a própria rainha classificou como "annus horribilis" (ano horrível, em latim), quando o fim dos casamentos de três filhos de Elizabeth 2ª abalou a Coroa, que entrou numa sequência de crises de imagem.  

A família ainda se recuperava diante da opinião pública quando, em agosto de 1997, um trágico acidente matou a princesa Diana. O carro em que ela estava fugia de fotógrafos dos tabloides britânicos, ávidos por flagrantes da vida privada da ex-esposa do príncipe Charles. A relação entre Diana e a rainha era pouco amigável e a comoção gerada pela morte da princesa, admirada mundialmente, abalou, mais uma vez, a imagem da realeza.    

Cinco anos depois, em 2002, a família enfrentaria a pior avaliação da série histórica, medida desde 1987, com apenas 43% da aprovação dos britânicos. A anulação do julgamento do mordomo Paul Burrell gerou desconfiança entre os ingleses. Burrel se livrou da acusação de ter roubado mais de 300 itens pessoais de Diana, quando a rainha Elizabeth, surpreendentemente, disse ter se lembrado de que ele havia comunicado que estava com os objetos. A intervenção da matriarca gerou críticas e acusações de que a Casa de Windsor estaria encobrindo fatos relevantes e de interesse público.   

A partir daquele ano, em que Elizabeth comemorou seu Jubileu de Ouro no trono, a família real seguiu em um consistente projeto de recuperação da imagem, conseguindo alcançar os maiores índices de popularidade e aprovação. Sair de cenários turbulentos parece não ser um problema para a Coroa britânica. Resta saber como a realeza irá se recuperar da mais recente crise.