Coronavírus: como é viver na Itália, epicentro da pandemia na Europa


Da CNN Brasil, em São Paulo
14 de março de 2020 às 12:14 | Atualizado 03 de setembro de 2020 às 19:31

Fora do continente asiático, a Itália lidera no números de casos confirmados do novo coronavírus no mundo. De acordo com os dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o país possui mais de 21 mil infectados e mais de 1.441 mortes. A região da Lombardia, ao norte do país, tornou-se a área mais afetada pelo vírus.

Entretanto, a chegada do vírus foi marcada pelo desconhecido. Em fevereiro, na pequena cidade de Codogna, um homem de 38 anos foi internado com problemas respiratórios. O caso, que viria a ser o primeiro confirmado fora da China, não foi diagnosticado corretamente pela equipe médica. Em uma cidade com pouco mais de 15 mil habitantes, o contágio se alastrou rapidamente e mesmo depois de semanas de quarentena, a vida está longe de voltar ao normal para os moradores da região.

O paciente "número 1" da Itália chegou a contaminar um grupo de pessoas próximas, como a mulher grávida de nove meses, os pais, sogros e amigos. Após conhecimento dos casos, o homem foi encaminhado para outro hospital e deu início ao tratamento adequado. Àquela altura a propagação do vírus estava em estado avançado e a cidade não imaginava os impactos da doença na rotina dos cidadãos italianos.

Em pronunciamento, o primeiro-ministro Giuseppe Conte, admitiu que a equipe médica que atendeu o paciente falhou. E afirmou que “o hospital de Codogno não seguiu o protocolo indicado para doenças infecciosas”. Diante da afirmação, o governo italiano anunciou uma série de medidas restritivas na tentativa de conter o COVID-19.

Além da quarentena imposta ao norte da Itália, o governo italiano estendeu para todo o país a medida de isolamento e anunciou o cancelamento de eventos públicos, fechamento de restaurantes, bares, teatros, cinemas, escolas e universidades. Pediu para que a população evite aglomerações e anunciou que as pessoas devem manter pelo menos um metro de distância entre elas. A estimativa é que todas as medidas sejam encerradas no início de abril.

Também como parte do pacote de medidas restritivas para conter o coronavírus, o primeiro-ministro também proibiu a realização de funerais. Nas redes sociais, o ator Luca Franzese, da série Gomorra, que está infectado pelo vírus, divulgou vídeo pedindo ajuda para enterrar a irmã, que morreu no dia 10 de março, por causa da doença.

Bastou o anúncio para a vida dos moradores de Codogno mudar completamente e servir de alerta para as demais regiões do país. Ruas vazias, comércios fechados, fiscalização constante e solidão. É o que relatam alguns moradores da região isolada.

Em Milão, cerca de 60 km de Codogno, as filas habituais para visitar a tradicional Catedral de Milão já são inexistentes e as praças estão vazias. Lugares que diariamente acumulavam centenas de turistas e muito barulho, hoje estão em silêncio. Os poucos moradores que pedem autorização para deixarem suas casas se movimentam com rapidez e de forma tímida.

O impacto no comércio também é evidente. Galerias acumulam avisos de fechamento em suas portas e até mesmo as lojas das grifes mais luxuosas do mundo estão com suas vitrines fechadas. O setor do comércio estima perdas de até 5 bilhões de euros.

Na capital Roma, o silêncio impera e as pessoas são orientadas por policiais a deixar os pontos turísticos da cidade. Nos alpes italianos, a temporada de inverno parece não ser importante para os turistas. As famosas estações de ski são  verdadeiras cidades fantasmas. Os viajantes estão “fugindo” da Itália pelas estações de trens e aviões. Nos aeroportos foram adotados procedimentos de segurança ainda mais rigorosos, além da utilização de máscaras e roupas especiais. 

A pandemia também provou uma corrida às farmácias italianas. Os produtos essenciais para a prevenção contra o vírus também estão em falta. Na cidade de Bolonha, por exemplo, máscaras e gel desinfetante estão em falta no comércio local. Os moradores, que já não estão saindo casa, também estão trabalhando em casa e em casos extremos, alguns vão atrás de serviços essenciais disponibilizados pelo governo.

Para o brasileiro Vinícius, a opção de trabalho remoto está descartada, uma vez que, na Itália, ele trabalha como caminhoneiro. Entretanto, ele segue se protegendo da melhor forma. “ Essa é a máscara, álcool em gel e também tem outros desinfetantes para limpar o painel. Pelo menos onde você mais toca tem que fazer a  higienização. A gente limpa e prossegue viagem”, explica.

Na Bréscia, um dos maiores hospitais públicos da região alegou estar no limite. Com prontos-socorros lotados, pacientes nos corredores e Unidades de Terapia Intensiva (UTI)  improvidas, a médica Mariana Fidelis desabafa. “A gente já está na terceira semana da epidemia e só agora saiu a verba para contratação de mais funcionários. O hospital está lotado, mas está todo mundo acomodado”. 

Na cidade os lugares também estão vazios e as pessoas também mudaram o comportamento. Para alguns moradores, a cidade tem perdido cada vez mais o espírito de cidade alegre e movimentada. Em Veneza, o clima não é diferente. As gôndolas dos mercados de uma das cidades mais românticas da Itália também estão vazias. Os turistas e moradores, ainda tentam levar uma vida quase normal, entretanto, sabem que dias melhores ainda estão para chegar, mas em passos lentos.