Eduardo Bolsonaro culpa China por coronavírus; embaixador chinês repudia fala

Nas redes sociais, deputado compara atual pandemia com desastre nuclear de Chernobyl; Yang Wanming diz que publicação ameaça as boas relações entre os países

Da CNN Brasil, em São Paulo
18 de março de 2020 às 23:39 | Atualizado 19 de março de 2020 às 00:43
O deputado federal Eduardo Bolsonaro durante evento nos EUA (18.mar.2019)
Foto: Alan Santos/PR

O deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), criticou o governo da China nesta quarta-feira (18) em publicação no Twitter. Na mensagem, o parlamentar comparou a atual crise causada pela pandemia do novo coronavírus com o desastre nuclear de Chernobyl, culpando o regime chinês pela disseminação da doença.

"Quem assistiu Chernobyl vai entender o que ocorreu. Substitua a usina nuclear pelo coronavírus e a ditadura soviética pela chinesa. Mais uma vez uma ditadura preferiu esconder algo grave a expor tendo desgaste, mas que salvaria inúmeras vidas", escreveu o parlamentar. Ele completou: "A culpa é da China e liberdade seria a solução".

O comentário foi feito no Twitter ao reproduzir postagem de Rodrigo da Silva, editor do canal de Youtube "Spotniks".

Na sequência de tweets, Silva lista reportagens de diversos veículos que, em sua análise, embasam a tese de que o Partido Comunista Chinês e a restrição a liberdades individuais na China contribuiu para a evolução da pandemia.

Resposta chinesa

A fala do filho do presidente gerou resposta do embaixador da China no Brasil, Yang Wanming. Também pelo Twitter, Wanming repudiou as declarações de Eduardo Bolsonaro, e afirmou que elas "vão ferir a relação amistosa China-Brasil".

"A parte chinesa repudia veementemente as suas palavras, e exige que as retire imediatamente e peça uma desculpa ao povo chinês. Vou protestar e manifestar a nossa indignação junto ao Itamaraty e à Câmara dos Deputados", escreveu o embaixador, incluindo em sua resposta os perfis do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

O assunto também rendeu para o perfil oficial da Embaixada da China. “As suas palavras são extremamente irresponsáveis (...). Ao voltar de Miami, contraiu infelizmente vírus mental que está infectando a amizade entre os nossos povos”, registrou o perfil da embaixada.

A mensagem é uma referência à visita dos Bolsonaro aos Estados Unidos. Donald Trump também fez insinuações contra a China.

“Você é uma pessoa sem visão internacional nem senso comum”, conclui o perfil do organismo chinês. 

A embaixada disse considerar as palavras um “insulto maléfico” e exigiu retratação sob pena de ferir a relação “amistosa China-Brasil”.

A China é o principal destino das exportações brasileiras, sobretudo de produtos como óleo, minério de ferro, soja, carne e celulose. De acordo com um levantamento da FGV (Fundação Getúlio Vargas), o país é o destino de cerca de 27% das exportações, o dobro do segundo colocado, os Estados Unidos.

Procurado pela CNN Brasil, o Ministério das Relações Exteriores ainda não se manifestou.

Repercussão

No início da madrugada, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, tuitou um pedido de desculpas "pelas palavras irrefletidas do Deputado Eduardo Bolsonaro" à China e ao embaixador.

O deputado acrescentou que "a atitude não condiz com a importância da parceria estratégica Brasil-China e com os ritos da diplomacia". "Em nome de meus colegas, reitero os laços de fraternidade entre nossos dois países. Torço para que, em breve, possamos sair da atual crise ainda mais fortes", acrescentou Maia.

Integrantes da cúpula do Legislativo ouvidos pela CNN Brasil consideraram a fala de Eduardo como uma demonstração de despreparo e irresponsabilidade.

A avaliação é a de que a mensagem amplia o isolamento internacional do Brasil e cria ambiente para uma retaliação na iminência do estouro da crise do novo coronavírus no país.