Comparar a sempre movimentada Nova York a uma cidade fantasma vira lugar comum


Marcelo Favalli Da CNN, em Nova York
22 de março de 2020 às 21:47 | Atualizado 23 de março de 2020 às 11:35
Bairro East Village, em Nova York, amanhece vazio em meio à pandemia

As ruas da sempre movimentada Manhattan estão vazias em meio à pandemia do novo coronavírus

Foto: Luiza Duarte/CNN

Ruas vazias. Comércio parado e o maior centro cultural da costa leste dos Estados Unidos fechado. A cidade de Nova York vive o segundo fim de semana consecutivo das duras medidas de restrição na mobilidade urbana. Comparar a sempre movimentada Manhattan com uma cidade fantasma virou lugar comum. A expressão se tornou um clichê, porque é verdade.

O governador do estado, Andrew Cuomo, aparece na televisão praticamente todos os dias, por volta da hora do almoço, no horário local. E a maioria dos nova-iorquinos assiste aos pronunciamentos como se fossem uma final de campeonato. A expectativa é de que sejam anunciadas novas medidas de quarentena.

Por enquanto, a autoridade estadual se recusa a decretar uma ordem que obriga moradores e turistas a ficarem abrigados, como fez a Califórnia. Cuomo insiste que o plano não é necessário -- ainda -- mas a ação não está descartada. Uma das justificativa é manter o mínimo necessário do abastecimento de produtos básicos, e minimizar o pesados efeitos que a quarentena já está causando no PIB do estado.

As projeções apresentadas por Cuomo, mais uma vez, hoje, são alarmantes. Se moradores e visitantes não atenderem às recomendações de isolamento, até 80% dos nova-iorquinos irão contrair o novo contravírus em 45 dias, quando as autoridade de saúde do estado preveem o pico da epidemia na costa leste americana.

NY é região com mais casos confirmados nos EUA

Nova York é a região dos Estados Unidos com mais casos confirmados. O governador Cuomo insiste que o número tem as suas razões. Primeiro, trata-se de estado que está mais aplicando os exames de convid-19. Por dois dias consecutivos, o governador apresentou gráficos que mostram como Nova York consegue testar mais pessoas que os estados da Califórnia e Washington, juntos. Ainda segundo Andrew Cuomo, os laboratórios de Nova York atendem mais suspeitos de coronavírus -- per capita -- do que a China e a Coreia do Sul durante o pico da doenças, naqueles dois países. 

Quando os resultados chegaram, Nova York percebeu que 54% dos internados por causa do vírus têm entre 18 e 49 anos. Isso fez o governo estadual reforçar a orientação de ficar em casa para os chamados “jovens adultos”. Os números mostram que, embora essa faixa etária tenha mais chances de sobreviver aos sintomas, são eles que têm potencial para contaminar os idosos.

Andrew Cuomo subiu o tom de críticas contra Donald Trump, e se somou ao discurso do prefeito de Nova York Bill de Blasio. Os dois pedem que a Casa Branca aplique a “Lei de Produção de Defesa”, citado pelo presidente na semana passada. A norma, criada em setembro de 1950, nos Estados Unidos, no contexto da Guerra das Coreias, prevê que o governo federal determine as prioridades de produção das empresas. Por exemplo, a Casa Branca poderia ordenar que uma indústria de suprimentos médicos se dedicasse a atender a demanda de máscaras. Hoje, sem a lei ter sido invocada, o abastecimento segue as regras do livre mercado: o estado com mais dinheiro, consegue comprar mais material.

Na mesma linha, o governador Cuomo voltou a pedir que Trump nacionalize a distribuição dos equipamentos médicos que mais faltam nos estados. Na coletiva deste domingo, ele explicou que não consegue adquirir os suprimentos devido às melhores ofertas de preço feitas aos fornecedores por outros governadores. Outro argumento é a variação de impostos.

Os respiradores -- essenciais para pacientes na UTI -- custam de 16 mil a 40 mil dólares, dependendo das taxas aplicadas em cada região dos Estados Unidos. Se houve a nacionalização da distribuição dos produtos médicos, todos os estados irão lidar com a mesma alíquota de imposto.

E os apelos de Andrew Cuomo para a ajuda federal também passam pelos militares e a FEMA, Agência Federal de Gestão de Emergências. O governador já protocolou o pedido para a montagem de quatro hospitais de campanha que, juntos, ofereceriam mil leitos hospitalares.

Nova York está disponibilizando o maior centro de convenções do estado para os leitos de emergência. Cuomo prevê que no auge da crise, em Nova York, o estado vai precisar de 110 mil camas hospitalares. Hoje, existem 53 mil disponíveis.

Em diferentes entrevistas na semana, o governador disse estar trabalhando incessantemente para dobrar a capacidade hosptalar de Nova York em um mês e meio.